À espera do milagre
Somos um povo sonhador. Estamos sempre sonhando com algum milagre, com algum “meu tio da América”, como no filme de Alain Resnais. E isso vem de muito longe, de muito antes de 1385, quando cada português pensou que merecia pelo menos um marquesado.
Meu compadre Adamastor, o gigante mais bem informado a respeito de sonhos, afirmou outro dia ser herança do cristianismo. Desde cedo, dizia ele, estamos ouvindo frases feitas e bonitas, muito feitas e ainda mais bonitas, histórias exemplares, hagiografias, enfim, toda sorte de textos de nossa formação cristã e ocidental, que nos induzem a estar sempre à espera de um milagre. Ah, os milagres! Que mal fizeram a esta humanidade portuguesa e brasileira! Quem espera sempre alcança, a esperança é a última que morre e outras frases reforçando nossa crença de que algo além de nossa força e de nosso esforço vai acontecer dando solução a nossos problemas. Quantas e quantas vezes “quem espera” não alcança nada, pois esperando não sai do lugar! E a esperança pode ser verde, mas murcha e seca e morre, contrariando o ditado popular.
Não duvido de meu compadre, mas me lembro daquele rei D. João I, de Portugal, o Mestre de Avis, que, depois de 1385, levantado o cerco de Lisboa, danou-se a conceder títulos de marquês, conde, visconde a antigos mesteirais (barbeiros, tanoeiros, celeiros e tantos outros eiros). Desde então, nós, mais ou menos portugueses, e plebeus, estamos sempre à espera de algum rei que nos conceda um feudo, com castelo, gado, plantações e servos. Em suma, esperamos um milagre.
Não age diferente o pai que paga um ano inteiro a escola de seu filho e que, no fim do ano, fica sabendo que o rebento levou bomba. Inconformado, procura a direção da escola e troveja que pagou uma fortuna, que o filho nunca faltou, como é que pode uma coisa dessas? Ele queria o milagre do corpo presente. Tem-se visto cenas dessas às pencas todo final de ano. O milagre do dinheiro investido que se transforma em conhecimento. Sem nenhum esforço.
Até para emagrecer nós contamos com milagres. Um comprimido por dia não demanda esforço algum. Mudar hábitos alimentares, ralar o corpo em exercícios físicos, isso é cansativo. O que nós queremos, em verdade, é vencer sem fazer força. O sucesso é nosso direito incontestável, pois somos seres excepcionais. Acabei de ver a propaganda de uma escola dizendo que ela, a escola, é única para mim, que sou um ser único. Ora, se sou um ser único, quero que a vida me forneça o que tem de melhor. Sem que seja necessário fazer força. Um dia, aparece meu tio da América e estou feito na vida.















