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POR EM 22/05/2009 ÀS 02:30 PM

A crise da escuta

publicado em

Fala-se muito pelas mídias na crise econômica na qual o mundo se acha mergulhado. Mas pouco se fala na crise de valores que talvez tenha levado a esta crise, fruto da ambição insensata por obter maiores lucros, mesmo ao custo de se viver na irrealidade de uma bolha especulativa que, formada à base das pirâmides da picaretagem rasteira, um dia haveria de estourar, porque tudo cai quando cresce ou sobe sem base. O publicitário Nizan Guanaes conta que viu sinais de uma quebradeira mundial quando, em excursão na Europa, viu um homem, em um restaurante, bebendo uma garrafa de champanhe no valor de 30 mil euros.

A crise real que se alastra pela humanidade não é só a de não haver mais dinheiro nem sentido para abonados milionários continuarem a comprar aquilo de que não precisam, cedendo à dissipação irresponsável e ao vício da ostentação e do desperdício. “Os desejos mudam, mas as necessidades não”, um sábio antigo já dizia. Dentre as necessidades básicas do ser humano estão o anseio de amar e ser amado, de ter paz e viver em felicidade. Ocorre, no entanto, que a inconsciência espiritual e a cegueira mental em que vive levam-no a tomar a direção contrária .

Há uma crise alarmante — a da escuta — e aqui não estou a falar das bisbilhotices, clandestinas ou autorizadas, da arapongagem oficial ou criminosa. Falo da  necessidade básica para cujo atendimento não basta ter uma conta bancária bem fornida e cartões de crédito sem limite. Estudos recentes indicam: 20% da população norte-americana  ressente-se, não da falta de poder financeiro para comprar bens essenciais ou supérfluos. Sofrem da falta de não ter ninguém com que possam conversar. O simples diálogo entre conhecidos e amigos, entre pessoas da família, passou a ser artigo de luxo — tão isoladas estão as pessoas, em seu mundo egocentrado e individualista. Vivemos em um vasto mercado onde tudo se compra e se vende, mesmo amor, compaixão, amizade e solidariedade.

A canção “Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, foi símbolo vivo de silêncio forçado e da incomunicação dos anos da ditadura. “ — Me perdoe a pressa/ é a alma dos nossos negócios/ - não tem de que/ ”.  As ditaduras passaram, mas hoje a solidão que aponta é mais crucial do que nunca. No filme “Crocodilo Dundee” a mocinha loira diz ao cowboy australiano que em Nova Iorque, cidade onde vive, as pessoas quando têm angústia têm de pagar psiquiatras para falar do que as faz sofrer. Pior, têm de pagar por uma hora que tem cinqüenta minutos. Ao que o cowboy, irônico, pergunta: “E lá vocês não têm amigos?”.

Assim a humanidade escolhe viver entre “crimes, espaçonaves, guerrilhas”, em um cotidiano onde apenas a banalidade do mal é notícia — vivendo uma “vida de gado”, em um chão de violência, miséria e impunidade, onde o ser humano vai se tornando o animal mais perigoso — para as formas e fontes de vida de sua casa planetária – mais letal e o mais selvagem em relação a si próprio.
 
Em todo o mundo, o dom da escuta é cada vez menos exercido — e tende a ser esquecido, na sociedade de autistas normotizados em que vivemos. E “a solidão, essa pantera”, vem a ser companheira inseparável de ricos , pobres e remediados, incluídos ou excluídos de todas as nações da grande família humana — que no Brasil leis absurdas, na contramão da história, vão dividindo entre negros e brancos, com ou sem terra ou teto.

Adeus ao país cordial do jeitinho — agora o preconceito é instituído e oficializado em leis, pelas quais desiguais são tornados mais iguais do que os outros — o que dificulta ainda mais a escuta entre pessoas que, não importando a cor da pele ou a condição social, são irmãos, pois pertencem à mesma raça, e integram a vasta família humana. Mais pobreza do que viver em lugar onde é baixíssimo o índice de Desenvolvimento Humano, ou de termos pouco ou nenhum poder de compra: é não ter ninguém que nos ame, e queira nos escutar.
 

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