POR MENALTON BRAFF
EM 26/08/2008 ÀS 08:41 AM
Vou-me embora pra Pasárgada
publicado em arquivo
Toda vez que, ao ligar a televisão, sou assaltado pelas futricas eleitorais; e, abrindo o jornal, fico exposto, mesmo sem querer, aos ínvios caminhos de nosso processo democrático, me bate uma baita vontade de falar de jardinagem. Se você, caro leitor, pensa que as calças não têm nada a ver com tudo o mais, desculpe-me a crueza da revelação, mas você permanece ainda no rol dos seres ingênuos. Tenho dois bons motivos para discordar de você, meu caro e incauto leitor. As plantas, eis o primeiro dos motivos, segundo se aprende em botânica, não têm a propriedade da locomoção de moto próprio, isto é, sua motilidade reduz-se ao crescimento. Vegetativo, evidentemente E sendo assim, são inculpáveis de qualquer uma de nossas misérias políticas. O segundo motivo, prefiro deixá-lo para o encerramento desta crônica.
Políticos, cientistas políticos, juristas e até mesmo filólogos tentam impor-nos um conceito enganoso do que seja a nossa democracia. Os gregos, inventores de muitas coisas, praticavam-na na modalidade "direta". Todo mundo (um galicismo) aparecia na ágora e se manifestava. Todo mundo? Bem, escravo não era gente, como é o cachorro do Rogério Magri, para que não nos esqueçamos do ilustre Ministro de nossa república em passado recente. Democracia pra quem, então? Qualquer dicionário etimológico informa que demokráteia (de demo, povo e krátos, governo, poder) significa " poder do povo". Então anunciam do alto de sua ciência que democracia direta não é mais possível, e que temos de praticá-la em sua forma indireta, ou seja, a democracia representativa. Aí é que a coisa pega.
Você alguma vez já escolheu um representante? Não, não falo do voto, porque votamos em alguém que nos é imposto, como candidato. Eu digo escolher quem vai ser candidato. Não escolheu? Claro, os candidatos são escolhidos por umas poucas pessoas que detêm algum tipo de poder. Que povo? Não são cidadãos, como você e eu, cujo poder não vai além de nosso quintal. Isso na melhor das hipóteses, porque muitas vezes o candidato, ele mesmo, se escolhe. Se não há partido que o acolha, funda seu próprio PRN. Alguém, contudo, contra-argumenta que qualquer cidadão pode participar da vida política, habilitando-se a escolher democraticamente quem vai ser o candidato. E isso também faz parte do grande circo em que se tornaram as eleições.
Grande circo, eis a que foram reduzidas nossas escassas possibilidades de determinar nosso próprio destino. Participar da vida política para quê, se não existem partidos políticos no Brasil? Aqui não se vota em programa, não se escolhem idéias, plataformas. E não é verdadeiramente ridículo um processo de escolha pela marca da gravata e a cor dos olhos? Pois é, meu caro, se os últimos presidentes deste País tivessem vergonha na cara, entregariam o cetro aos marqueteiros que os puseram no trono. Engolimos presidentes como escolhemos a marca do sabonete. Com a mesma irresponsabilidade. No Brasil, é presidente o candidato que consegue contratar a melhor equipe de propaganda, o que me parece calhordice política. Tou fora. E em níveis inferiores nada muda. Sem dinheiro, e muito dinheiro, não se consegue contratar um marqueteiro desses top de linha, capazes de emplacar até o Presidente da ONU. O marketing político está em franco crescimento. Hoje, vereador que se preze, deve entregar sua campanha a um profissional de marca. O que, diga-se de passagem, aumenta o prestígio do candidato. O eleitor vota em quem teve a competência de escolher o melhor comunicador. Continuo fora.
Faz algum tempo, plantei um cipreste, muda pequena, em frente de casa onde morava. Três dias depois o buraco amanheceu vazio. Comprei outra muda, pouquinho maior, e enterrei no mesmo buraco, acreditando na pedagogia do saco inflável. Durou duas semanas. Voltei à floricultura e trouxe uma senhora muda de quase dois metros de altura. Era um cipreste já com cara de cipreste, e amarrei por baixo da terra suas raízes a traves de madeira. Agora quero ver!, pensava sorrindo e quase vingado. Quinze dias depois apareceu com o tronco quebrado a uns cinco palmos do chão. Hoje, aquele cipreste parece uma tuia comum: gordinho como um castrado, baixinho e arredondado. Não posso dizer que ele esteja feio, mas me dói o coração saber que foi frustrado em sua vocação para as alturas.





