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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:34 PM

Vida de cientista

publicado em


Em qualquer pesquisa de opinião com o público chamado leigo, um cientista é invariavelmente considerado, na melhor das hipóteses, um “louco genial”. A famosa foto de Einstein mostrando a língua, por exemplo, só não deve ser mais conhecida do que aquela de Guevara que virou símbolo de torcidas organizadas, inclusive fora dos esportes (sei que me entendem...).

Mas porque Einstein fez aquilo? Porque em viagem pelos EUA, um paparazzi não lhe dava trégua. Ele demasiado humano e especialmente educado, apenas mostrou-lhe a língua.

Outro cientista conhecido por suas genialidade e excentricidade é Newton. A única vez que dizem tê-lo visto rindo, foi quando a bibliotecária indagou o motivo dele emprestar constantemente aquele “livro velho de um tal Aristóteles”. Sir. Isaac era realmente esquisitão pois, se lhe surgia uma pergunta interessante, ele esquecia-se completamente de comer ou dormir e ficava dias tentando respondê-la.

Mas é preciso avisar ao público: Einstein, Newton, Madame Currie (dois prêmios Nobel) são grandes exceções a regra. Na sua imensa maioria (99,9%) os cientistas são pessoas normais, com seu emprego cotidiano, seu salário meia-boca, suas contas à pagar, sua religião, e, no Brasil, claro, com seu time de futebol.

O serviço diário para a estarrecedora maioria de cientistas consiste em: corrigir relatórios de orientados que depois terão que ser transformados em dissertações ou teses; escrever seus próprios relatórios normalmente com planilhas infindáveis de dados que passam por análises estatísticas demasiado detalhadas e ainda ser claro para justificar o financiamento feito em suas pesquisas; emitir pareceres em projetos e relatórios de seus pares; enviar memorandos e ofícios solicitando algo e/ou explicando fatos (quase nunca é atendido ou entendido); arrumar, consertar, organizar o laboratório no qual trabalha; escrever trabalhos científicos e tentar publicar numa revista importante, pois na onda da já batizada “numerocracia”, ou o cientista publica ou perece, isto é, fica sem financiamento; preparar apresentações para seminários ou congressos; escrever projetos solicitando mais financiamento e adaptando-os ao “mercado de editais” para pesquisa. Infelizmente estes financiamentos quase nunca possibilitam a contratação de pessoal, e se aprovados, os cientistas terão que escrever mais relatórios, orientar mais gente, enfim, correr ainda mais atrás dos trabalhos e serviços corriqueiros de consertar e arrumar o laboratório, etc.... A chamada roda viva.

Assim, o cientista é um profissional comum como um bancário, garçom, empregada doméstica (a expressão secretária do lar é um horror...), torneiro mecânico, médico ou diretor de escola. Tem hora que está animado, entusiasmado, mas as 11:00 da manhã só pensa em “poder parar, calando-se logo em seguida com a boca de feijão....”.

Desta forma, usando a definição acima, eu e  a Profa. Adriana (minha esposa) somos um típico casal de cientistas e nesta quinta-feira (23/10) as 17:00h, inauguraremos o LAB -Laboratório de Pesquisa Ecológica e Educação Científica na Universidade Estadual de Goiás em Anápolis.

Rapaz, que trabalheira este treco deu. A coisa já começou torta, comigo e a Adriana tentando achar o então reitor, no último dia de validade para a postagem da documentação do edital para a FINEP. Ele tinha que assinar a papelada. Graças ao motorista dele, ficamos sabendo que o encontraríamos na posse de um secretário de Estado. Então fiquei com o projeto e uma bic azul ponta grossa em mãos, esperando-o na porta deste evento. Eu, um cientista comum, contínuo de mim mesmo...Ainda tive que furar a multidão e puxar a manga de seu terno impecável para arrancar-lhe um autógrafo. Como Indiana Jones, chegamos dois minutos antes do correio fechar. Valeu a correria.

Quando o projeto foi aprovado e o recurso chegou, adequamos nossas idéias ao novo orçamento  (metade do que a gente solicitou) e fomos à nossa administração superior pedir um lugar na área de 134 hectares da UEG para construção do prédio. Como a um leproso bíblico, só faltou me jogarem pedras. Pra nossa surpresa foi nos dito que todo o terreno da UEG já estava loteado por um planejamento já bem fundamentado e desta forma, na área de 1.340.000 m2, não haveria lugar para um laboratório de 400 m2.

Mesmo assim continuamos com nosso trabalho tedioso e estressante e eu e o arquiteto e professor Alexandre escolhemos um local. O Alexandre, então, fez o projeto arquitetônico da obra. Aí estava difícil falar com o reitor, mas o editor do Jornal Opção, Euler Belém ligou pra ele e me passou o celular (um telefonema é uma passagem ao infinito, meu caro Euler....). Dois dias depois, consegui então mostrar ao reitor o local que achávamos mais conveniente e ele escreveu e assinou na margem da primeira página do meu ofício: “ao meu chefe de gabinete, para resolver e tomar as providências necessárias”. Saí da reitoria e as coisas se resolveram com a licitação aberta pela Funcer que era quem administrava os recursos.

Com o início das obras, ainda ouvi rumores que ela seria embargada (meu Santo Agostinho diria nesta hora, “...o homem, carne, sangue e orgulhosa podridão...”.) mas a Vera Maria da Funcer disse-me que daria um jeito nestes boatos. De fato, deu. Depois, como quase todo mundo que constrói, quase ficamos loucos com a construtora e o marceneiro, que não obedeciam aos prazos.

Por causa do Laboratório, e da Promotoria Pública, a UEG viu-se obrigada a realizar um plano diretor para sua área. Neste, conseguimos delimitar uma área que será uma Unidade de Conservação, justamente entre o perímetro urbano de Anápolis e seu Distrito Industrial. Um grande avanço para o campus da UEG. Ainda estamos estudando a melhor forma de legalizar isto, mas já recebemos duas visitas de técnicos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o atual secretário, o Prof. Roberto Freire, vê a idéia com bons olhos.

Agora, sem pompa, vamos inaugurar o LAB. Chamamos o Coró de Pau pra cantar o hino nacional, e um ou dois discursos improvisados vão salientar a importância deste laboratório. Vamos tomar café ou coca-cola e outros cientistas arranharão seu violões (eles também gostam de música...), enquanto a gente desafina na MPB ou bossa.

No dia seguinte retomaremos a nossa “vidinha mais ou menos”. Viu como um cientista normal é uma pessoa normal? Como diria aquela propaganda de sanduíche: “eu amo isso tudo”.

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