Uma pegada no meio do caminho
“Pegada Ecológica” é o termo criado por William Rees e Mathis Wackernagel, em 1996, para indicar o quanto as pessoas consomem de recursos naturais, isto é, o quanto “marcamos” o ambiente com a nossa passagem pelo planeta. Mais recentemente os ambientalistas adotaram a metodologia da “Pegada” (no original em inglês, “footprint”) para dizer que estamos “consumindo rapidamente o mundo”.
No cálculo da estimativa da Pegada Ecológica, são somadas todas as diferentes áreas necessárias para produzir um bem (e receber os resíduos de seu uso) que é consumido por uma pessoa ou um grupo específico (como um país). Desta forma, existem os conceitos de: i) terra bioprodutiva: para medir a extensão da área necessária para produzir os alimentos que você consome, incluindo o pasto que alimenta o gado, além de madeira; ii) terra de energia: para consumir o gás carbônico que a fabricação do produto que você consumiu expeliu; iii) mar bioprodutivo: para pesca e extrativismo; entre outros.
Esta metodologia mostrou que cada pessoa do mundo (contando 6 bilhões de habitantes, estimativa de 2004) teria o direito a 1,8 hectares, mas o consumo é, desde a década de 80, de 2,2 hectares.
Também é importante lembrar que moradores de países mais industrializados consomem mais recursos que as sociedades tradicionais. Assim, por exemplo, um americano gasta de 200 a 250 litros de água por dia, já um europeu consome entre 140 e 200 litros, enquanto moradores de certas regiões da África gastam apenas 15 litros. É interessante notar que para esta conta de água o uso indireto é fundamental, pois usamos água quando comemos vegetais e animais ou embalamos produtos.
Mas há problemas com esta metodologia. Neste ano, a prestigiosa “Ecological Economics” publicou um trabalho que compara a pegada de todas as nações. Sabem qual o país com pegada mais imperceptível? Cuba. Imagine uma nação atrasada, sem indústrias, sem transporte coletivo minimamente decente, sem internet ou mesmo computadores e principalmente sem liberdade....pois é, esta nação “respeita o meio ambiente”.
Alguns trabalhos já contestaram a metodologia da Pegada, mas agora, na mesma “Ecological Economics”, o pesquisador Nathan Fiala, da Universidade da Califórnia também levanta dúvidas, sobre a conversão de nosso consumo em área da Terra e seqüestro de gás carbônico.
Assim, por exemplo, quando se diz que uma cidade precisa de muito mais área para sustentá-la, como Vancouver que necessita de 174 vezes sua área para ser sustentável, a pergunta é: faz sentido a comparação? Ora, as pessoas moram nas cidades pois é mais eficiente que morar na zona rural e uma pessoa na cidade precisa de menos terra que uma pessoa vivendo no campo. Ou como se diria na economia: os bens são produzidos de acordo com a vantagem comparativa. Neste sentido, a Pegada mede muito mais a desigualdade do uso dos recursos do que a sustentabilidade de uma cidade ou nação.
Outro problema da “footprint” é a previsão. Muitas vezes, pensamos que “se todo o mundo consumir como um americano, o planeta não suporta”. Mas isto não leva em conta a tecnologia. Assim se os brasileiros aumentarem o consumo, é provável (e altamente desejável) que já se utilizem de novas tecnologias e desta forma, nossa pegada poderia ser comparativamente menor à americana. Isto, de fato, aconteceu com o uso dos celulares, pois vocês se lembram aquelas baterias horrorosas que não duravam nada e iam para o lixo? O celular, quando alcançou os milhões de usuários brasileiros já não precisava mais daquilo. Nas previsões do uso dos recursos, os ambientalistas usam a Pegada sem considerar a modernização da tecnologia.
Vejamos, ainda, a produção global de grãos. Ela aumentou entre 1961 e 2006, numa taxa anual de 2,17% enquanto a terra usada para tal produção aumentou numa taxa de 0,09%. Isto é, a produção intensiva, às vezes muito criticada por ambientalistas, têm se mostrado bastante “ecológica”. Aliás, maiores rendimentos de produção de cereais/área estão associados a menor degradação da terra e os EUA são os países mais produtivos por hectare de terra plantado.
Porém, a maior contribuição do trabalho de Fiala é quando ele relaciona a “footprint” dos países, com variáveis como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o número de toneladas de carbono emitido por habitante, mostrando que são altamente correlacionadas, isto é, quanto maior a Pegada, maior o IDH e maior os níveis de carbono emitidos, mas a mesma medida de Pegada não guarda quaisquer relações com a degradação do solo ou a produção agrícola.
Afinal, o que a “footprint” mede? Desenvolvimento. Perceba, o leitor, que se ela inferisse realmente sobre sustentabilidade, seus valores teriam alta relação (negativa) com degradação do solo?
Nos últimos 50 anos, a humanidade comeu mais, permaneceu mais em escolas, morreu menos de epidemias, construiu mais saneamento básico e a expectativa de vida aumentou (claro, com as exceções de sempre). Sim, deixamos a nossa marca no Planeta, independente de como ela é medida. Mas olhando pra trás, será que não compensou?
Referências:
Fiala, N. 2008. Measuring sustainability: why the ecological footprint is bad economics and bad environmental science? Ecological Economics, 67: 519-525.
Moran, D.D. et al. 2008. Measuring sustainable development- nation by nation. Ecological Economics, 64: 470-474.





