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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:17 PM

Um segredo da liberdade

publicado em


O poeta se faz vidente no desregramento de todos os sentidos, escreveu o poeta Arthur Rimbaud, depois de sua estadia no inferno que o fez abrasar-se no fogo da criação. Sua alma antiga e cultivada teve clarões do esplendor, mas suas visões perderam todo o sentido, e ele se tornou vazio, oco por dentro, depois que teve ânsias de encontrar as esplêndidas cidades do eterno Natal.

Suas visões do infinito perderam, porém, todo o sentido, visto que o inefável será sempre indizível em palavras, ou por qualquer outro recurso que seja capaz de engendrar a mente humana. Assim, no ato mesmo de se saber gênio e vidente, Arthur Rimbaud, no esplendor da juventude, deserda de tudo, e a tudo renuncia, com a arrogância de um daimon dionisíaco, para quem nada importa, para além de sua fúria anárquica, e seu poder de construção e de destruição.

Henry Miller comenta, em A hora dos assassinos, um estudo sobre o gênio poético que a França deu ao mundo: "Como Lúcifer, Rimbaud consegue ser lançado ao céu, o céu da juventude. É vencido, não por um Arcanjo, mas pela própria mãe, que para ele personifica a autoridade. É um destino de que se acumplicia desde o início.

O jovem brilhante, detentor de todos os talentos, mas que os despreza, parte bruscamente a vida ao meio. É um ato ao mesmo tempo magnífico e horrível. O próprio Satã não poderia ter imaginado castigo mais cruel do que o que Arthur Rimbaud impõe a si mesmo com insuperável orgulho e egoísmo".

A partir desta ruptura radical com o seu próprio gênio poético, abandonado para sempre, junto às suas percepções de vidente, o aventureiro a que entrega o seu destino termina por encontrar a desgraça de sua existência - que ele buscou, talvez inconscientemente, na sede de ir sempre para mais longe, onde pudesse encontrar a aridez total, nos lugares mais inóspitos do planeta - Aden e Harar, ardentes desertos sem oásis, uma terra devastada cercada de muito nada por todos os lados.

O ficcionista/ensaísta Henry Miller fala, com admirável lucidez, da falsa liberdade que o ego quer para si - e nela se compraz, a configurar o auto engano que é seu natural meio ambiente: "A liberdade que Rimbaud exigia era para seu ego afirmar-se sem limites. Isso não é liberdade. Com esta visão, pode-se, vivendo o tempo suficiente, exprimir cada faceta de seu próprio ser, e ainda encontrar motivo para se queixar, pretexto para se rebelar.

É uma espécie de liberdade que nos dá o direito de protestar, de nos retirarmos, se necessário. Não leva em conta as diferenças alheias, somente as nossas. Jamais poderá ajudar alguém a encontrar o vínculo, a comunhão com toda a humanidade. Fica-se separado para sempre, em eterno sofrimento". Eis a liberdade do gênio rebelde sem causa. Tendo todos os motivos para escolher uma causa pela qual possa entrar em combate, armado com sua fúria e sua coragem camicase, ataca tudo o que encontra à sua frente, menos o seu ego inflacionado, que o faz ver-se perfeito.

A liberdade que o ego reivindica para si vem a ser a prisão por que se deixa possuir quem navega em tais águas ilusórias. Pois o que o ego (o falso Eu) deseja é continuar a se iludir. Vemos, assim, que a revolta de certos eternos rebeldes não passa de birra de criança, para chamar atenção da mãe. Talvez tenha sido falta de atenção materna (sua mãe sempre lhe foi dura e ríspida) que fez Arthur Rimbaud renunciar ao fogo criador de seu talento, passando a viver como um ambicioso comum, ávido por dinheiro, vivendo a mercadejar com tudo (dizem que até com armas).

Se sua mãe e sua irmã não se interessavam pelos produtos iluminados de seu estro, qual o sentido em continuar a cultivá-lo? Por isto declarou: "Odiarei para sempre o lugar em que nasci". É destino de uma pessoa (gênio criador, ou criatura dotada de inteligência comum) odiar o lugar onde não foi mimado.

Tantos se tornaram gênios, por não terem tido um colo quente e amoroso, que os acolhesse e alimentasse. Goethe, Arthur Rimbaud, Machado de Assis, cuja mãe faleceu quando ele mal deixara a infância. Henry Miller assinala, a propósito desta abissal solidão, geradora, no entanto, de iluminadas inspirações artísticas: "Não é de admirar que fique afastado da mãe. Nem se repara nela, a não ser como obstáculo. Quer-se o conforto e a segurança do seu útero, aquela escuridão e sossego que para o feto equivale à luz e à aceitação do recém-nascido".

Mais adiante, o autor de A crucificação encarnada assinala: "Pode-se ser aclamado como um grande rebelde, mas jamais ser amado. E para o rebelde, mais que para todos os homens, é necessário conhecer o amor, e dá-lo mais que recebê-lo. E ainda mais que dar, Ser o Amor".

Movido pela parte de si mesmo que é pequena e míope, se para uma coisa esta revolta cega serve, é para fazê-lo beirar abismos. Mas o gênio que alcança a façanha de individuar-se, tornar-se pessoa inteira, ao ter abertas as portas da percepção, pode, na visão de William Blake, ver a eternidade em um segundo, e o universo em um grão de areia.

Seguindo a parte de si que é infinita, se for artista, não fará de seu trabalho uma fogueira das vaidades. Ao contrário, conseguirá fazer com que seja veículo da compaixão, beleza e bondade em que vive tudo o que existe intocado pela inversão de consciência a que nos conduz o ego. Saberá, então, como escreveu Edgar Allan Poe, que "Só existe a Vida - a menor dentro da maior, e todas dentro do espírito divino".

Com outras palavras, igualmente belas, a poetisa Elisa Lucinda fala do compromisso essencial de todo aquele que se diz ou se queira poeta ou artista: "É da vocação da vida a beleza/e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la/ com nossos minúsculos gestos ratos/nossos fatos apinhados de pequenezas./Cabe a nós enchê-la/cheio que é o seu princípio/". 

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