Tudis leguis na boleguis ?
"Meus povis de Saracutópolis,
Nas escaramunhanças de vivê destiolado, supres de fazer a urna susprir de votis, com ocê tafuiando meu numro lá, esse que taí apregoados no pau do lado. Eu esquipo dirriba duma misera enorme pro mode fazê valê minhas confabulanças na Camra de verador deste impolutente municípis de Saracutópolis. Supres e ressupres. Nosso Deus é tistimunha. Louvado seje!"
O discurso do meu candidato a vereador de Saracutópolis nesta próxima eleição era e é o mais esperado de todos do comício. O povo pede, suplica e vai à loucura com a fala de Tezinho do Bok. Ele é o mais querido e, para mim, que sou seu eleitor de carteirinha, acho que será um dos mais votados, com o agravante ou o atenuante, não sei, de que, pela popularidade e simplicidade, Tezinho é requisitadíssimo por nosso candidato a prefeito. Andar com Tezinho puxa voto e nosso candidato a prefeito sabe e até exagera nesse quesito.
"Tudis leguis na boleguis?" É este o primeiro cumprimento dele aos eleitores e amigos que encontra na rua. Na verdade, eleitor e amigo de Tezinho do Bok são praticamente a mesma coisa, sem muita distinção um do outro. Eles se confundem, mas ninguém por lá confunde o que Tezinho quer dizer, porque na certa ele só diz coisas pra cima, entusiasmantes, otimistas, como pro exemplo: "Tudis na murlenga belelenga dis travi". Ninguém sabe ao certo o que significa isto, mas também ninguém deixa de saber, porque parece algo como: "Deixa que tá bom e pronto".
No último comício eu estava na primeira fila da claque de Tezinho e aplaudi como nunca o discurso dele. Até gravei e mostro parte para vocês: "Tudis leguis na boleguis? Meus inófrios conterrantes, maleofólicos! É viris que nóis poréns pela equolescência e protuberância de Saracutópolis. Hemisférico potências de nós mães e pais, perpelis ortomênicos das filalumias. Pruque dostres e remoces nossas conjuminâncias eloquimentes, sem protéis e aranzéis nas ruas e cabarés. Esquis nóspitus da nossas gentes oclementes de Deus. Protuberais e não distais, pruque diminóis e desmostras nossas silumbrias. Apois tá, pois que nus prega despretera terra a nóis. Convosco sibulenes e marilenes, osga pras cacildas e as subilicas didas".
Nunca vi discurso nítido e inteligível mais do que esse. Bati palmas e aplaudi com gosto. Mas não foi só eu não, todo mundo ali ficou encantado com o palavrório de Tezinho. Coisa linda! Mesmo porque, nestes dias, pouco se sabe e menos ainda se acredita no que dizem esses candidatos, que não seja para seu próprio tempero e seu pirão primeiro. Pela manifestação do povão, meu conterrâneo Tezinho de Bok já pode se considerar eleito. 14º e 15º salários para ele, por exemplo, como fizeram os vereadores de Goiânia, era coisa do quinto dos infernos, que traduzido para a linguagem de Tezinho ficava assim: "As prosências das urnis vertisca, apodris pobris xibungréias".





