POR MARCOS FAYAD
EM 22/06/2008 ÀS 05:14 PM
Transgressor devasso pornográfico gênio!
publicado em arquivo
Estréio nos próximos dias 19 e 20 de abril e 16 e 17 de maio um espetáculo acalentado durante muitos anos. Chama-se POR PRAZER e foi criado a partir da obra de um gênio que a humanidade reverencia e que foi considerado um devasso e um libertário - o poeta americano Walt Whitman. A crítica mundial o considera também como o maior e o mais importante poeta da literatura norte americana.
Morreu com 72 anos em 1892.
Seu livro mais conhecido Folhas de Relva foi lançado há mais de 150 anos e tem uma energia tão universal que seus poemas são cada vez mais assimilados por diferentes culturas. Seus leitores hoje são considerados devotos e fazem comunidades no mundo inteiro chamadas de whitmania. Cultuado como o poeta da liberdade, da democracia, do homem, em toda a sua vida fez apologia do corpo humano como a fonte suprema de prazer.
Em Folhas de Relva ele assume publicamente sua bissexualidade e até escreve sobre seus companheiros.
“Como um Deus meu adorável parceiro dorme a meu lado a noite toda
e me agarra ao raiar do dia...
depois brinca na relva comigo...solta o nó da garganta...
nada de palavras, música, nem rima eu quero nesses momentos
nem bons costumes ou sermões por melhor que sejam
Eu gosto, eu só quero sua calma, o murmúrio da sua voz valvulada.
Eu me lembro bem de quando uma vez nos espichamos deitados
certa manhã... e de como ele forçou a cabeça nos meus quadris e
gentilmente se virou pra mim e me rasgou a camisa no osso do peito
e enfiou a língua em meu coração nu
e foi assim até tocar minha barba e me tocar os pés
E então eu soube que a mão de Deus é a promessa da minha
E o espírito de Deus é irmão do meu
E que o amor é a centelha e o esteio da criação.
Amaram alguma vez o corpo de uma mulher?
Alguma vez amaram o corpo de um homem?
Não perceberam que são exatamente os mesmos
pra todo mundo e em todas as nações e em todas as eras do planeta?”
Foi muito criticado e combatido pelos eternos moralistas de plantão e chamado mesmo de pornográfico. Mas suas atitudes e seus poemas influenciaram pessoas como Fernando Pessoa, Garcia Lorca, Manuel Bandeira, Pablo Neruda e muitos outros pelo mundo afora. Um crítico Robert Strasburg, professor emérito de música da Universidade Estadual da Califórnia disse dele: “No século XXI Whitman será mundialmente conhecido como Shakespeare ou Beethoven.” Parece que tinha razão: há um grande movimento universal para colocar a obra de Whitman em pauta nas grandes discussões sobre literatura, poesia e temas sobre a democracia. Mas em pleno século XXI Whitman ainda permanece quase um desconhecido por grande parte das pessoas interessadas em arte e cultura no Brasil.
Ao encenar esse espetáculo também desejo reverter a frase comum de que “uma imagem vale mais que mil palavras” que estamos praticando há alguns anos. Vivemos uma época de tanta saturação de imagens que elas deixaram de ter um valor concreto, são só abstrações. Walt Whitman é um daqueles poucos homens que conseguem, felizmente, fazer com que as palavras signifiquem algo concreto.
Pois o espetáculo POR PRAZER é centrado nas palavras dele, poderosas e emocionantes e eu o compartilho com o público.
“Se alguma coisa é sagrada
Sagrado é o corpo humano
E o sexo contém tudo:
Corpos, almas, sentidos, provas, purezas, delicadezas
resultados, avisos, canções
saúde, o mistério materno, o leite seminal
todas as esperanças, benefícios
todas as dádivas, paixões, amores, beleza
todos os governos, deuses, juizes
pessoas no mundo com seguidores
Tudo isso no sexo está contido
ou como parte dele ou como sua razão de ser.”
Apesar da grandeza da obra de Whitman não é um espetáculo que recorre a grandes lances estéticos, pirotécnicos – toda sua ação é a partir disso, da palavra de um gênio que influenciou muitos outros gênios.
Mais do que nunca eu quis criar um espetáculo teatral puramente artesanal que não pode, nem de longe, ser comparado ao cinema ou à televisão e que leva uma grande vantagem sobre esses dois meios: é um ritual direto, vivo, acontece no momento em que o espectador dá o sinal para que ele se inicie como só o teatro pode ser.
Se for verdade, como afirmam alguns pesquisadores da psicologia humana, que as pessoas estão muito saturadas das formas de comunicação que não têm essa relação direta esse é um bom momento para o teatro.
Portanto, quanto mais cinema, DVD ou TV existam melhor pro teatro.
As pessoas valorizarão ainda mais o risco que os atores correm em cena direta vivendo as emoções ali na sua frente. Resumo da ópera: teatro dá ao ator certas emoções e a possibilidade de expressar muito profundamente aquilo que sente durante o ritual, em cada momento dele e fazer isso em público, coisa que a maioria das pessoas, infelizmente, não pode fazer. Talvez seja essa entrega e essa exposição sentimental pública aquilo que atrai e interessa o espectador de teatro – por isso o teatro é arte para os próximos milênios. Mas falo do teatro verdadeiro não dessas comediazinhas que copiam o que o público vê na TV e que são politicamente corretas até no seu humor – é assim que agradam aos caretas.
O verdadeiro teatro não é politicamente correto, é transgressor, propõe novas idéias, sugere que a vida pode ser nova a cada dia e maior do que é, como Whitman propõe. Ao estrear com uma obra de Walt Whitman levo em conta que as pessoas possam ter preconceitos e medo do novo contido nas palavras dele que atuam como armas contra a mediocridade. Isso costuma assustar as massas e hoje tudo está sujeito às massas.
Sorte é que o teatro é sempre uma arte minoritária, para poucos privilegiados sensíveis e inteligentes.
Já era assim na Grécia, era assim em Roma e continua sendo assim na nossa sociedade.
Já era assim na Grécia, era assim em Roma e continua sendo assim na nossa sociedade.
Mas, pensando bem, isso conta pouco porque nós artistas temos como pátria o mundo - assim tenho a convicção de que vou estar em boa companhia. Tanto do Whitman quanto do público que o for assistir.






