POR MENALTON BRAFF
EM 29/07/2008 ÀS 08:23 AM
Torcidas
publicado em arquivo
Não tenho certeza de que o fenômeno da depuração ocorra com outras pessoas como ocorre comigo. Depois de ter observado por longuíssimos anos que não sou diferente da maioria dos seres humanos, estou inclinado a crer que ocorre. Desde o penta que venho pensando em minha condição de brasileiro, um contínuo processo de autoconhecimento, verdadeira depuração.
Ser brasileiro, sem torcer por futebol, de repente me pareceu o mesmo que ser alemão e falar apenas o francês, morar em Paris e odiar chucrute. Nunca fui muito do futebol, já devo ter dito isso em tudo que é lugar, mas não abro mão de minha brasilidade. É a razão por que desde o penta não perco jogo pela televisão.
Entre as constatações que tenho tido ocasião de fazer, existe uma que em certo sentido me entristece. Ou enternece. As pessoas em geral, os assim chamados torcedores, orgulham-se de coisas negativas. Melhor exemplo é o fanatismo. Desde quando fanatismo é virtude? Fanatismo é estreiteza, cegueira, para não dizer coisas piores e menos abonadoras. Mas ser tachado de fanático só enche de orgulho um torcedor. Tudo o que o time dele faz é certo; tudo o que fazem os outros é errado. Se o juiz apita contra seu time está roubando, se apita a favor, é o roubo mais honesto do mundo. Sentido crítico nenhum, muito menos autocrítico. Uma pena.
Outra característica geral do ser chamado de torcedor é a incapacidade de um amor maior, mais diverso, abrangente. O torcedor de um time é incapaz de amar seus semelhantes que se declarem torcedores de outros times. Sua capacidade de ódio é infinitamente maior do que sua capacidade de amor, pois ama apenas um enquanto deve odiar todos os outros.
Foi refletindo sobre assuntos assim transcendentais que cheguei a uma postura neo-platônica, que hora proponho como o protótipo do torcedor do futuro. Todo ele estruturado em qualidades positivas. Primeira qualidade: altruísmo. O torcedor ama o futebol, não apenas uma pequena parcela do futebol (seu time), além disso, detesta ver a infelicidade alheia. É o futebol como virtualidade, potência, ou seja, o futebol como idéia pura que pode ser perfeito, portanto passível de ser amado.
O torcedor que tenho a honra de ser o primeiro humano a propor, vai a todos os jogos que pode. E torce. Não comparece ao estádio apenas quando um dos times (o seu) joga. E torce pelo futebol. Não pelo Inho, Zinho, Rinho, Vinho, esses diminutivos todos que andam por aí na moda. Ele torce para que ninguém se machuque, para que todos sejam cavalheiros de verdade, para que o futebol seja um espetáculo belo e civilizado. Quando deixa o estádio, vem abraçado com seus companheiros de torcida, todos felizes, todos sorridentes, sem necessidade nenhuma de agressão.
Alguém, como sempre, há de objetar que isso tira o interesse do jogo, cuja essência é a disputa. Não considero o argumento inteligente muito menos civilizado. Futebol é espetáculo e ninguém deixa de ir, por exemplo, assistir a um espetáculo de balé porque bailarinos e bailarinas não se engalfinham aos tapas sobre o palco. Ninguém vence, nesse caso, portanto todos vencem.
Agora, se para você, que teve a curiosidade de ver aonde chegariam as elucubrações de um demente e me acompanhou até aqui, se para você o amor tornou-se uma coisa ridícula, então, meu amigo, não temos base mínima comum para uma discussão. O melhor é um ponto final.





