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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:11 PM

Tony Judt

publicado em

O polêmico historiador inglês Tony Judt e as idiossincrasias dos intelectuais brasileiros  

O Brasil é um país tremendamente idiossincrático, ou, se quiserem, ideologicamente idiossincrático. A Editora Nova Fronteira lançou, no fim do ano passado, Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra (475 páginas), do historiador e intelectual inglês Tony Judt, mas o livro, excelente, não provocou debates nem frágeis nem acirrados. O trabalho de Judt é um cacete violento e muito bem documentado na intelectualidade francês, muito superior às críticas radicais e nem sempre com comprovação empírica do também historiador inglês Paul Johnson (Intelectuais, Editora Imago). Por que passou em brancas nuvens?
 
Não sei a resposta precisa. Mas desconfio que o motivo é que a intelectualidade que domina as faculdades paulistas, sobretudo, e que influencia os cadernos culturais de São Paulo e Rio de Janeiro, formada, em grande medida, pela intelectualidade francesa, optou por ignorar as teses de Judt. No mundo intelectual é assim: o que não é debatido não existe. Por que exatamente a obra de Judt foi praticamente ignorada, obtendo escassas resenhas e comentários críticos? A razão é prosaica: Judt diz que a intelectualidade francesa, mais do que qualquer outra, justificou, filosófica e politicamente, o stalinismo. Explicita que, dependendo da filosofia alemã, aderiu ao autoritarismo-totalitarismo russo e se recusou a entender o liberalismo e a teia da democracia.
 
Agora, com Pós-Guerra — Uma História da Europa Desde 1945 (Editora Objetiva, 847 páginas, tradução de José Roberto O`Shea), Tony Judt ganhou destaque nas páginas dos jornais brasileiros. As duas obras citadas são ambiciosas, mas Pós-Guerra é menos constrangedor, para os intelectuais, do que Passado Imperfeito. Pós-Guerra resulta de uma grande pesquisa histórica e uma poderosa interpretação do que aconteceu na Europa "desde 1945". Passado Imperfeito deixa a intelectualidade francesa de calça curta e, também, aqueles que foram influenciados por ela, como, certamente, dezenas de intelectuais brasileiros.
 
No prefácio de Pós-Guerra, Judt, de 60 anos, diz que algo pertinente: "Definido por uma expressão que, imerecidamente, adquiriu conotações pejorativas, o livro é `cheio de opiniões`. Alguns julgamentos talvez sejam controversos; outros, equivocados. Todos são falíveis. Para o bem ou para o mal, são meus — assim como quaisquer equívocos inevitáveis numa obra de tal extensão e escopo".
 
A velha canalhice editorial brasileira permite que a Objetiva não informe, na orelha de Pós-Guerra, que Judt não é inédito no Brasil e ignore o lançamento da Nova Fronteira. A Companhia das Letras e a Cosacnaify não têm esse péssimo hábito.
 
 
A mestria do tradutor Décio Pignatari
 
A Editora Unicamp lançou um livro muito bom, 31 Poetas 214 poemas — Do Rigveda e Safo a Apollinaire  (270 páginas). Traduções, notas e comentários são do poeta e crítico Décio Pignatari.
 
Pignatari traduz, entre outros, Catulo, Horácio, Juvenal, Li Po, Issa, Burns, Byron, Leopardi, Heine, Browning, Rimbaud.
 
Transcrevo, de Burns, o poema "Canção": Tenho mulher só pra mim/Não divido com ninguém/Ninguém vai me pôr chinfrim/Não ponho chifre em ninguém//Tenho um real pra gastar/Graças a quem? A ninguém/Não tenho nada a emprestar/Não empresto de ninguém//Eu não sou senhor de escravo/Nem escravo de ninguém/Com minha espada sou bravo/Mas sem ofensa a ninguém//Quero ser o alegre amigo/Sem tristeza por ninguém/Ninguém se importa comigo/Não me importo com ninguém".
 
Do italiano Leopardi, Pignatari traduz o belíssimo "A Noite do Dia de Festa", com mestria insuperável, com senso de ritmo esplêndido: "Noite sem vento, doce, clara. A lua/Flutua sobre tetos e pomares,/Serena, revelando, ao longe, os montes./As ruas e os caminhos silenciam,/Minha amada. Pelos balcões, são raros/Os lampiões, um sono suave invade/Os aposentos, você dorme,nada/Perturba o seu repouso, muito menos/A chaga que me abriu dentro do peito!/Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno/ — E à antiga natureza onipotente/Que me vota à aflição — dirijo os olhos./"Para você, nem mesmo uma esperança;/Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas",/Ela me disse. Mas que dia magnífico!/Dormem danças e jogos, mas, em sonho,/Talvez para você desfilem todos/De quem gostou ou aos quais agradou/(Menos eu, que nesse rol não compareço)./Mas se calculo os dias que me restam,/Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:/Que vida horrível numa vida jovem!/Vai pela rua o canto solitário/De quem já trabalhou, passou na tasca,/E volta tarde para a casa pobre./Vai-me apertando, amargo, o coração,/Se penso em como tudo passa e passa,/Quase sem deixar rastro. Já se foi/O dia de festa, e agora chega o dia/Normal, e tudo se escoa no tempo,/Todos os atos humanos. E o estrondo/Dos antigos, as vozes dos heróis/De ontem, onde estão? e o grande império,/E as armas e o fragor que faz tremer/Os caminhos da terra e do oceano?/Tudo é paz e silêncio. O mundo/Tudo aquieta. Já não se pensa em nada./Quando criança, vinha a espera ansiosa/Do dia de festa, que findava logo./Sofrendo, comprimia o travesseiro,/Ao ouvir pela noite aquele canto/Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,/Morrendo e me apertando o coração."
 
É provável que eu esteja enganado, mas sinto que Décio Pignatari não é um tradutor tão considerado quanto os irmãos Campos — Haroldo e Augusto. Mas é tão bom quanto. Acredito mesmo que os três vão ficar na história da literatura brasileira não como poetas, e sim como tradutores brilhantes, o que, convenhamos, já é um grande feito. Pignatari é um tradutor notável, que nada fica a dever à competência técnica e sensibilidade artística dos Campos e de outros, como José Paulo Paes e Ivo Barroso (este, o melhor tradutor de Rimbaud no Brasil).
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