Solidão a dois
Gosto desses ditados que o povo inventa, eles são poderosos quando revelam nossos comportamentos camuflados ou atitudes variadas. E é o povo que diz, num desses velhos ditados que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é viajando com ela ou comendo um quilo de sal junto. Em viagem as pessoas ficam sem suas referências cotidianas e acabam, por se sentirem inseguras, se revelando. O quilo de sal é coisa do tempo, enquanto o sal não acaba vai-se percebendo quem é quem. Entre as muitas coisas que se descobrem em viagens é que a grande maioria das pessoas não tem do que falar. Juntas emitem alguns conceitos nos primeiros dias, falam sobre as surpresas da viagem nos dias subseqüentes, mas não se aprofundam em nenhum assunto que possa expô-las aos outros ou ao outro.
Casamento, por exemplo: que fantástica e cruel exposição da alma humana!
Quando vou só a algum restaurante, ou num banco de espera de algum aeroporto gosto de observar os casais durante uma hora em silêncio, cabeça baixa comendo, usando algumas interjeições, mas num silêncio constrangedor por absoluta falta do que falar mais a não ser o trivial do tipo: parece que vai chover, será que demora muito? esse lugar é legal, pede água pro garçon...
Quando atuava num consultório de psicanálise percebia que a grande maioria dos casais que se separam decidem isso durante as férias. Como passam muito tempo junto acabam descobrindo que não têm nada que falar um com outro.
E só descobrem enquanto estão de férias porque os assuntos são mais recheados de silêncios que de palavras interessantes.
Acaba-se falando frases feitas e clichês banais apenas pra interromper o mal estar do silêncio – isso, por si só, é um sintoma.
Ainda tenho em mente os argumentos e justificativas que as pessoas davam a si mesmas: foram sete dias sozinhos na frente do mar, isso nos obrigava a falar mais e não tínhamos assunto; sabia que nós não devíamos parar nossa rotina pra encarar as férias, ficar só por conta um do outro; eu prefiro ver pouco minha mulher, só nas poucas horas que passo em casa pra durar mais nossa relação; e se eu não tiver nada pra acrescentar à nossa rotina nesse período sem fazer nada? não sou especialmente interessante, nem culto, nem aventureiro e ela vai perceber isso quando estivermos sozinhos; nas férias ficamos sem a proteção da cidade, nem o apelo dos cinemas onde se pode ficar em silêncio sem problema; fico sem saber o que falar com ela porque me sinto nu sem minha carapaça de diretor da empresa.; ela vai descobrir que sou uma fraude; tenho uma tendência a mascarar as coisas com a agitação do dia-a-dia e nas férias tudo vem à tona – são algumas preocupações comuns.
As máscaras que um homem sustenta por algum tempo acabam caindo irremediavelmente e a decepção de ver o outro despojado das máscaras que alimentou por tantos anos causa confronto, desconfianças que, freqüentemente, acabam em agressões mútuas.
O psicólogo alemão Wilhelm Reich passou anos demonstrando que o casamento não é uma situação natural entre os seres humanos, apenas uma farsa aceita socialmente por conta da hipocrisia e convenções. Natural é alguém estar com outra pessoa pelo tempo necessário para que os dois mantenham o interesse mútuo e não apenas o interesse sexual, mas o interesse afetivo e intelectual.
Quando se estabelece a solidão entre os casais não há mais muito que fazer. Um já não pode oferecer ao outro nem o prazer da companhia nem as delicias da solidão escolhida. Fica-se no meio do caminho – e o meio, a mediocridade, enfim, é a pior das situações em todos os campos: da arte aos sentimentos.
A solidão a dois que escolhemos apenas pelo instinto sexual sem pensar no que virá depois que ele for satisfeito é um dos mais crescentes desajustes emocionais do nosso tempo. Alguns estudiosos dizem que o swing, a troca de casais com o consentimento dos quatro parceiros é uma forma de diminuir a solidão, reativar o instinto, mas não perder o outro facilmente. Temo que não resolva o principal: a falta de assuntos interessantes entre os casais.
Isso passa até mesmo pela cultura, ou principalmente por ela, mas também pelos interesses comuns que ambos tinham antes de se unir.
A cultura gera pensamentos e assuntos instigantes e ter interesses comuns pode despertar diferentes graus de interesse em um e outro.
Também poderíamos amenizar o mal sendo civilizados e sinceros uns com os outros, falando as coisas que sentimos de verdade, tendo coragem de expor-nos e criar assim uma base sólida e duradoura na relação.
Mas um artigo é só pra provocar discussão, a decisão do que fazer é do leitor.















