POR HELVERTON BAIANO
EM 26/08/2008 ÀS 08:55 AM
Saudades desses sacanas
publicado em arquivo
Todos eles ou foram engraxates, vendedores de pão e picolé ou faziam um ou outro bico pra ajudar a mãe em casa e também ter com o que vadiar um pouco. A pobreza grassava legal, mas vivia-se uma alegria constante, fazendo muito com o pouco que se tinha e usufruindo do que a natureza em abundância dava sem cobrar um vintém. Como se diz: na regra de pobre, tinha-se um vidão. A vida, no entanto, com suas dificuldades inerentes, cobra e cobra muito e caro dos que vão aos desvios, ou melhor, dos que se desviam demais dos desvios dela.
Inha, um rapazote ágil, bom de bola, legal em demasia, se esgueirava pela vida e fazia parte dessa nossa turma. Filho da prostituta Vezinha, sabíamos que em nossa roda era proibido falar de coisas de família, algumas de alas políticas contrárias, apenas nos apegávamos às coisas da nossa molecagem. Vezinha, no entanto, era uma puta considerada na sociedade, porque na mocidade fora artista, cantora e os senhores casados, que vadiavam e botavam filhos nela, a tinham na conta de uma puta de conceito.
Mesmo com a distância peculiar que se tinha das prostitutas, Vezinha nunca era rechaçada e zanzava por toda a cidade com elegância. Tinha dez filhos ou mais, que nunca contei, mas não era moça de cabaré, tinha sua própria casa, onde decerto recebia seus amantes. Ainda me pergunto como ela fazia para, numa casa daquele tamanho, um ovo, caber tanto filho e homens por cima. O futuro desses filhos conta-se muito nas cadeias, no cemitério e nos botecos. Queiram os céus que alguns tenham se salvado.
Cajé, por exemplo, pouco se sabia de sua família, mas era craque de futebol nas pelejas do Buracão, um lugar pra lá da ponta-da-rua (de onde se dizia que era o fim da cidade), muito estrambótico e que encabulava minha cabeça cheia de inocência. Ele era uma alegria a toda prova, gente boa até dizer 'chega', e que vivia vendendo pão nos tabuleiros pela cidade e vadiando com a gente nas horas vagas. Foi para Goiânia e morreu assassinado, antes de completar 30 anos de idade. Ficou, pela beleza, a cantiga: "Ê o pão sovado, carteira, de doce e de saaaallll".
Como me esquecer de Neto de Velero, como a gente o conhecia, filho de um dos mais afamados rezadores do lugar? Goleiro do time, só nos deixava chateados quando engolia um 'frango', que é sempre fora do combinado. No mais das vezes, cheio de tiradas hilariantes e uma ferina presença de espírito. Ganhava a vida com serviços de empreitada, até que a morte o 'ganhou' por uma questão de mulher, assassinado ainda moço pelo ciúme. E Lingüiça, cadê Lingüiça, nheim?
Onde andará Dilsinho Mão-de-Seda, também filho de Vezinha, que nasceu ladrão feito, dos mais apetrechados, e mereceu o garboso apelido de Mão-de-Seda? Era um ladrãozinho que circulava com grande desenvoltura no meio da sociedade, apesar da distância regulamentar que conscientemente se mantinha dele. A cadeia foi a última notícia.
É que dá saudade desses felasdamãe, desses sacanas!





