Roteiro do domingo de uma família verde e amarelo
Um dia sem nuvens no céu, sem risco de chuva. Há quanto não chove? Mas ele estava feliz por hoje não chover. Acordou às cinco da manhã. Hoje é domingo. Para que acordar tão cedo? Mas hoje é um dia especial, dia de Formula I. Ah, sim! Hoje sim, hoje tem Copa do Mundo, jogo do Brasil na TV. Escancarou a janela, sentiu o doce aroma do esgoto a céu aberto. Respirou fundo, olhou pra rede, a mulher ainda dormia:
- Acorda, mulher!
- Porra homê, me deixa!
- Acorda! Brasil, Brasil, acorda!
A mulher, cansada de passar roupa até tarde, não acordava. Resolve fazer um café. Na sala, rede pra tudo quanto é lado, passa por aqui, por acolá, chega à cozinha e é aquele mexe-mexe:
- Pam! Pam! Prac! Pam!
- Diabos, não tem pó!
Aquilo não o deixou desanimado. Bebe um copo d’água barrenta e sai mundo afora. Sete horas aquela confusão. Mijo de criança no meio da sala, choradeira, gritaria:
- Mãe, tô com fome!
- Não tem nada, menino!
- Mãe, tô com fome!
- Já disse que não tem nada, diabo ruim!
Meio-dia. Todo mundo já se roendo de fome, quando pinta na porta da casa aquele espigão de homem com um kilo de farinha e três rapaduras debaixo do braço. Lá pras tantas, todo mundo com a pança cheia de rapadura e farinha, é ligada a única coisa condigna daquela família, cujo pai tinha o maior orgulho. Uma televisão colorida, último modelo, controle remoto e tudo. A qual foi comprada em sete suaves prestações; como entrada usou seu fundo de garantia.
Todo mundo sentado no chão:
- Sai do meio, barriga de lama – grita o pai pro filho
menor.
“E rola a bola em Berlim...”.
Nesse domingo Felipe Massa ganhou na Formula I e a seleção brasileira ganhou de 5X0 da Alemanha. E nossa prezada família, o pai, o herói dessa crônica, sua esposa e seus nove filhos, dormiram sem jantar, adormeceram em suas redes saciados com as glórias do Brasil.





