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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:08 PM

Raúl Castro aposta que capitalismo pode salvar comunismo

publicado em

Raúl Castro aposta que capitalismo pode salvar comunismo  

O livro “Cuba Sem Fidel — O Regime Cubano e Seu Próximo Líder” (Editora Novo Conceito, 349 páginas), do analista da CIA Brian Latell, tem passagens muito interessantes. Latell cerca-se de certos cuidados — seu equilíbrio eventualmente pode ser confundido com fascínio pelos líderes cubanos — para evitar que seu livro pareça relatório da CIA.
 
Um dos pontos fortes é a demonstração de que, durante boa parte da revolução, sobretudo no início, Raúl Castro era mais rígido, ideológica e politicamente, do que Fidel Castro. Agora, com Fidel supostamente fora do poder e, em tese, mais radical (à esquerda), Raúl mostra-se mais aberto e pretende fazer de Cuba uma pequena China. Ou seja, governo comunista e economia relativamente capitalista. A única coisa que pode salvar o comunismo cubano é um choque de capitalismo. O historiador José Jobson Arruda, na revista “Carta na Escola”, diz que é pura balela: Cuba não tem estrutura para se tornar uma China. De qualquer modo, é o projeto de Raúl. Talvez, em termos estruturais, o único.
 
Latell mostra que Fidel e Raúl são muito unidos politicamente —um é o oxigênio do outro —, mas, em termos familiares, não se dão muito bem. Fidel seria insensível, distante da família. Raúl seria mais ligado à família.
 
Uma das principais fontes de Latell é uma entrevista de Fidel a Frei Betto publicada em livro. O dominicano, no entendimento de Latell, conseguiu que Fidel se abrisse, ou, digamos assim, se confessasse. O líder cubano foi educado por jesuítas.
 
O trecho mais delicioso do livro está no capítulo 12. Latell conta a história de Santiago, o pescador de “O Velho e O Mar”. Santiago fisgou um peixe enorme e tentou levá-lo pra casa, mas os tubarões o devoraram. Na volta para casa, decepcionado, Santiago disse para si mesmo e para a carcaça do peixe: "Desculpe-me. Afastei-me demais da costa. Arruinei nós dois". Um jornalista italiano, citado por Latell, perguntou para Fidel: "O senhor não tem medo de terminar como o pescador de Ernest Hemingway?" Fidel, como de hábito, desconversou. O relato da fome em Cuba depois do fim da União Soviética é impressionante. 
 

O romance inédito de Nabokov
 
"Laura", romance inacabado de Vladimir Nabokov, deve ser publicado este ano. Pouco antes de morrer, o prosador russo pediu para sua mulher, Vera, destruir o manuscrito. Talvez para a felicidade dos leitores, não se sabe ainda, Vera preferiu preservá-lo. Dmitri Nabokov, filho do autor, decidiu publicá-lo porque avalia a obra como plenamente nabokoviana em termos de qualidade estética. (Nabokov dizia: "Estilo e estrutura são a essência de um livro; grandes idéias não passam de lixo".)
 
Leio no "Clarin" que o romance, com pouco mais de 100 páginas, conta a história do neurologista Philip Wild, um sujeito brilhante, "comicamente gordo e feio, atormentado por seu casamento com uma mulher muito mais jovem e terrivelmente infiel". Segundo o jornal argentino, o médico pensa numa espécie de "suicídio reversível".
 
Trata-se de uma jogada oportunista de Dmitri e de editores espertos? Dmitri e Brian Boyd, biógrafo de Nabokov, avaliam que o livro, mesmo inconcluso, tem qualidades. "Laura", garante Dmitri, tem "algumas das imagens mais impactantes, com frases surpreendentes, que não se encontram em nenhum dos livros" de Nabokov. Espero que não seja blefe. Não é possível que, aos 74 anos, Dmitri esteja envolvido em alguma empulhação.
 
A Companhia das Letras está publicando a obra de Nabokov, com traduções escorreitas do diplomata Jorio Dauster. "Fogo Pálido", um de seus romances mais criativos e complexos, ganhou ótima versão em português (trabalho de Dauster e Sérgio Duarte), assim como o belíssimo "Ada". 
 
 
Crime da editora Objetiva
 
É criminoso o tamanho (o corpo) da letra do livro "Pós-Guerra — Uma História da Europa Desde 1945", do historiador inglês Tony Judt.
 
O livro é mesmo excelente, mas leio-o com dificuldade, em virtude das letras muito pequenas. A Editora Objetiva, para tornar o livro menor e, assim, mais barato, comprimiu o texto em 847 páginas. Em Portugal, o mesmo livro foi publicado, pela Edições 70, com 996 páginas. São 149 páginas a mais do que a edição brasileira. A edição portuguesa, embora excelente, é quase proibitiva para brasileiros, pois custa 171 reais (o euro está mais valorizado do que o dólar).
 
Considerando que os leitores da obra de Judt devem ter, em média, mais de 30 anos, a Editora Objetiva prestou-lhes um mau serviço.
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