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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:36 PM

Quatro notas & uma cançãozinha gratuita

publicado em

Literatura não comparada (1)
 
Até as últimas páginas de “Crime e Castigo” não sabemos qual será o fim de Raskólhnikov. Ele irá suicidar-se? Os companheiros de cela irão matá-lo? Sônia irá morrer antes dele ou abandoná-lo? Em certo momento, ele não se arrepende do crime, mas de suas atitudes desajeitadas, de sua estupidez. Depois nega a própria estupidez, arrepende-se de ter ido se entregar. Dostoiévski mantém o leitor preso na ponta da faca de sua narrativa. Tornar-se-á louco? Será diagnosticado por algum futuro psiquiatra de esquizofrênico? Tornar-se-á tão completamente moderno? O outro personagem na história da literatura que me vem à mente é Hamlet.
 
 
Literatura não comparada (2)
 
“Para Bakhtin, Dostoiévski foi o criador de um novo gênero literário, o romance polifônico, cuja característica marcante (entre outras exigências) estaria no fato de que na obra do romancista russo as vozes que ressoam no texto não se sujeitam a um narrador centralizante (como em geral acontece no romance considerado tradicional); elas relacionam-se umas às outras em 'condições de igualdade’.”
 
“O próprio Bakhtin acabaria por confessar que só Dostoiévski foi de fato, nos termos por ele definidos, ‘polifônico’: em suas anotações dos anos 1970, lembrava o ‘único polifonista’, assinalando que o conjunto das obras de um tempo, e não apenas de um autor, pode ser polifônico, o que é um outro modo, muito mais amplo, de entender a idéia de polifonia”.
 
Cristóvão Tezza - autor da tese de doutorado (USP): “Entre a prosa e a poesia Bakhtin e o formalismo russo”, publicada em 2002 pela editora Rocco.
 
 
Literatura não comparada (3)
 
“Crimes e Pecados” tem várias frases engraçadas, como quando o personagem de Allen fala que a última mulher que ele penetrou foi a Estátua da Liberdade. Não é o melhor Woody. Em termos de reflexão, “Zelig”, um falso documentário à maneira de “F for fake” de Orson Welles, é mil vezes mais inteligente. “Match Point” é mais bem elaborado do ponto de vista cinematográfico, não tem a chata da Mia Farrow, tem em compensação Scarlett Johansson. Cinema, do tipo narrativo, centrado num drama, depende muito do ator para expressar alguma profundidade. “Match Point” tem atores melhores. Woody Allen em “Crimes e Pecados” está deslocado, a não ser nos momentos de humor -basicamente, ele é isso, como ator, um gênio do humor, quando interpreta a si mesmo. Quando assisti a “Carmem”, de Jean-Luc Godard, achei Godard muito parecido, não só fisicamente, com Woody Allen. Claro, e Groucho Marx, que ele copia muito bem, em outro tom.
 
 
Literatura não comparada (4)
 
Não é que não haja uma moral no filme de Woody Allen. A idéia de que, uma vez tomada uma decisão drástica, vai ficar tudo por isso mesmo, seremos felizes, se racionalizarmos as culpas, é a moral do mais forte. Ou do mais canalha, isso é péssimo Nietzsche! Dostoiévski, que em uma de suas anotações definiu o tema de Raskólhnikov como um “crime teórico” aponta para os perigos e as conseqüências a que pode levar um raciocínio como o formulado pelo personagem principal (Raskólhnikov), perfeitamente lógico. Com isso antecipa em mais de meio século uma crítica ao Stalinismo e à idéia de que a eliminação física dos inimigos políticos seria necessária e, portanto, aceitável, do ponto de vista lógico, à construção de uma sociedade mais justa.
 
 
Cançãozinha francesa (gratuita)
 
«J’ai perdu ma vie,
Par délicatesse»
(Rimbaud).
 
O espelho se ri :
 
Por delicadeza,
«Vous ?»
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