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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:58 PM

Privado ou privada

publicado em


Um dia ainda escrevo uma crônica que comece assim: Um dos mais graves problemas do Brasil é que grande parte de seus políticos transformaram a coisa pública em privada.

Depois de um sorriso mordaz, que é o meu, cometida alguma traquinagem, continuaria por aí em fora. Então, para minha surpresa, receberia uma carta comentando um aspecto da crônica e confesso aos leitores que isso se daria pela primeira vez, ou seja, receber uma carta comentando uma crônica minha.

E a carta, escrita naquele modo antigo, em letras finíssimas e bordadas no papel, me diria: "Meu caro senhor colunista: Ontem à noite, estando eu no apartamento de um jovem erudito, e ao ler-lhe sua coluna, fez-me ele parar a leitura e, com ar de deboche, disse-me que este calembur já é bastante antigo."

Para não cansar os leitores, interrompo aqui a carta, apesar dos florilégios com que termina.

Uma semana mais tarde (minha coluna é hebdomadária), voltava eu ao assunto, mas por vias tortas, que a retidão de há muito parece-me quebrada. E voltava com a evidente vantagem de responder-lhe por via pública, com a força que tal via me oferece, enquanto aquela boa senhora, talvez senhorita, ou quiçá ainda "amiga de um erudito" (mordacidade com o fito de desqualificar minha oponente), como dizia, enquanto minha oponente utilizara-se da via privada.

"Minha cara e insolente missivista: Que o trocadilho é velho, sei-o eu muito bem."

(E aqui uma pausa para explicações: primeiro, ao imitar o estilo de minha leitora, saiu-me este hiato horroroso - "sei-o eu"; segundo, "calembur" é uma palavra de origem francesa, razão por que alguns esnobes a consideram mais nobre do que nosso velho "trocadilho".)

E continuaria:

Mas exatamente por ser velho, não me ocorria o nome de quem primeiro o usou no momento em que me pressionavam por telefone desde a redação para que entregasse minha crônica. E por não me lembrar do autor, também não lhe deixei expresso meu profundo reconhecimento pela colaboração."

E mais uma vez interrompo a missiva com o único propósito de não entediar o leitor.

Entretanto, devemos continuar, caso contrário não chegaremos à moral da história. Pois aquela senhora virtual (vamos chamá-la assim por absoluta ignorância de quem possa ela ser) apesar de apenas amiga de um erudito, simboliza uma boa parcela de nossa intelectualidade. Tão apegados à forma que esquecem o conteúdo, a ponto de muitas vezes confundirem o acessório com a essência.

O pior de tudo é que enquanto alguns ficam descobrindo o plágio de um calembur, grande parte dos políticos continua fazendo suas necessidades na privada em que eles transformaram a coisa pública.

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