Plantar uma árvore, escrever um livro
...e ter filhos. Completa-se desta forma a missão de todo ser humano na face da Terra. Diz-se. Livros, filhos e árvores são sementes lançadas. Frutificarão? Tornarão melhor a vida no planeta? No que tange às árvores, sim, não há dúvida que o verde é cenário ímpar do qual não prescindimos. Quanto aos demais, nem sempre.
Li no jornal de hoje que estão muito mais facilitadas e baratas as publicações de livros em Goiás. Nos últimos anos, motivada pela concorrência, a confecção de livros nas gráficas teria barateado, permitindo que centenas de escritores novatos realizassem os seus sonhos de, finalmente, publicarem um livro. Se o dinheiro compra tudo, por que não compraria um livro, ora bolas?
É fato que avalanches de livros soterram-nos impiedosamente. Haja olhos para tantas preciosidades...
Semanalmente, deparamo-nos com lançamentos em vários redutos da cidade, muitos deles salões elegantes que nada condizem com o mirrado conteúdo das publicações. E quase sempre os coquetéis servidos nestas ocasiões são indigestos, como os livros. Cerveja quente, empadinhas frias. Extrair boa seiva das publicações é como tirar água de pedra. Pior que tudo é tolerar os discursos das “autoridades” que enaltecem a pseudo-genialidade dos escritores festeiros.
O que fazer com tantos livros ruins? Felizmente, muitos deles encontram nas prateleiras empoeiradas o seu merecido jazigo, poupando os leitores do engodo e da chateação. Ademais, a distribuição de livros independentes em nosso meio praticamente inexiste. Isto frustra os escritores, especialmente os medíocres, que ousam torrar as suas economias bancando a própria vaidade. A maioria deles fica só no primeiro milheiro. Depois de vender cinqüenta exemplares na noite de lançamento, restam mais novecentos e cinqüenta para se enfiar dentro dos armários e das despensas. Cria-se um problema caseiro. Não há espaço onde socar tantos pacotes. As empregadas domésticas reclamam, ficam indóceis, e muitas pedem demissão ao terem que lidar com tamanho encalhe. Só as traças e ratos comemoram. É comida garantida para muitos anos.
Portanto, o simples fato do número de publicações ter crescido pouco representa, senão a pujança, competência e crescimento da indústria gráfica. Bom para ela, pior para as florestas. Desperdiça-se muito papel e tinta com bobagens. Publicar um livro, desde que se tenha algum dinheiro parado no banco, é mole. Duro mesmo é fazê-lo chegar às mãos dos leitores. Publicações independentes não têm espaço em livrarias. Não há prateleiras suficientes para tantos autores desconhecidos, e nem disposição para se apoiar os inéditos.
O grande dilema do autor é conseguir que uma editora leia a sua obra e se interesse em publicá-la e distribuí-la. O exercício da mendicância intelectual é extenuante. Façamos o exercício contrário. No contexto capitalista não há espaço para prejuízos. É natural que ninguém queira perder dinheiro. Por que uma editora deveria publicar um bom autor inédito, se ela pode publicar as memórias de uma ex-prostituta famosa que vão vender mais do que xoxotas em cabaré? Quando o mercado consumidor cisma em consumir porcaria, sai da frente, meu irmão. Ninguém segura.
Qual a saída, então, sabichão?! Muitos dos leitores me perguntariam, em tom de provocação. Ora, incrementar o número de concursos literários e publicar os melhores livros seria um caminho. Os concursos idôneos legitimam as boas obras e revelam autores competentes. Não me refiro, é claro, às disputas fajutas, arranjadas, arquitetadas maquiavelicamente.
As leis de incentivo à cultura (Rouanet, Goyazes e Municipal de Goiânia) também são ferramentas importantes à produção literária, mas colocam os seus usuários na mesma desconfortável situação: uma vez com os livros prontos em mãos, como fazer que cheguem aos leitores?
Certamente, as academias e associações de escritores poderiam fazer mais do que enviar pelos correios os boletos da anuidade, ou reunir os seus associados para saraus tediosos e chás-da-cinco.
Quem sabe, um conclave com os escritores goianos fosse útil para discutir o assunto e apontar as soluções. O problema não é só dos novatos, mas também dos veteranos, que amargam as faltas de espaço e de reconhecimento.Um festival anual de literatura também seria útil para fomentar debates e projetos. Virou moda nos últimos anos: há dezenas de festivais de gastronomia em Goiás. Por que não um evento de literatura?!
Num mundo onde o poder do dinheiro e o consumismo são tão peçonhentos, fica cada vez mais remoto o acesso ao bom livro. Primeiro porque os livros estão muito caros. Segundo porque há verdadeiras arapucas escondidas atrás das capas e orelhas. Quem vê capa, não vê coração. A mim parece que boas mesmo são as coleções de livros de bolso, publicações com acabamento em miniatura, com preços honestos, clássicos da literatura nacional e mundial. Outra opção é visitar os sebos do centro da cidade, como fazem regularmente os mofos e os bolores. Portanto, caros leitores, muito cuidado com as listas dos 10 mais vendidos. A próxima vítima poderá ser você. Afinal, livro ruim também faz mal à saúde, principalmente à saúde do seu bolso. Enquanto o cenário não muda, a gente vai usando mesmo a praga da internet para ler os textos inéditos. Sempre com aquela íntima convicção que nada substitui a tez e o cheiro de um bom livro.





