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POR EM 26/08/2008 ÀS 01:21 PM

Patrimônio imaterial

publicado em

Entre tantas expressões novas e reinventadas esta é uma das que me encantam por sua precisão e senso de justeza: patrimônio imaterial. Pra quem não sabe o que isto significa é só refletir um minuto sobre as duas palavrinhas. Não há povo, por mais pobre que seja, que não tenha seu patrimônio imaterial. Estive uma vez numa cidadezinha inexpressiva do México onde não havia nada de atraente, nenhuma importância turística, coisa alguma que a distinguisse, apenas uns três mil habitantes orgulhosíssimos de seu patrimônio imaterial, um velhinho sábio, descendente dos índios tarahumara que conhecia a cura de todas as doenças e, de quebra, sabia até como atingir a mais provecta idade.

Ele tinha uns 95 anos quando o conheci, mas era quase um jovem nos seus movimentos e na ironia sábia com que se referia a nós, homens comuns tomados por sentimentos menores como a raiva, a inveja e que se alimentam de venenos vendidos com selo de qualidade nos supermercados, segundo ele. Ensinava a quem quisesse uma receita simples de saúde e longevidade feita apenas com alho e álcool de cereais que garantia ser herdada de seus antepassados, velhíssimos como ele, capazes de ainda fazer filhos aos 85 anos. As pessoas o reverenciavam porque confirmavam na prática o que ele ensinava e o que ensinava eram os efeitos terapêuticos do riso e dos prazeres do sexo, fora a receita do alho, claro.
 
Todos os artistas que participavam do Festival Internacional de Teatro do México subiam as montanhas para conhecer essa catedral humana. 
 
Quando desciam eram pessoas melhores. 
 
Talvez tenha morrido, mas era, sim, um verdadeiro patrimônio imaterial, tanto que estou aqui falando dele muitos anos depois de tê-lo conhecido. 
 
Ativando a memória penso nos nossos próprios patrimônios imateriais surgidos e forjados aqui nesse cerrado goiano, homens e mulheres que nos legaram verdadeiros museus vivos de sabedoria, ética e grandeza humana. Nesses tempos sórdidos vive melhor o povo que identifica e assimila o exemplo desses patrimônios não palpáveis e eles, felizmente, existem em qualquer cafundó-do-judas ou até nas grandes cidades porque independem de dinheiro, de status, do grau escolar e do polimento intelectual.
 
Em Pirenópolis tivemos o seu Ico, nem tão velho assim, mas de uma simplicidade sábia, bem humorada e comovente; quem vai esquecer a genialidade de contador de histórias do Geraldinho? E o que dizer da Cici Pinheiro, uma mulher que nos legou a determinação e o atrevimento para continuar fazendo teatro quando todas as condições são adversas?
 
Uma casa, um quartinho, alguns livros, a memória de seus doces deliciosos nos lembram concretamente de Cora Coralina, mas seu espírito longevo paira sobre tudo isso imprimindo ânimo, delimitando e definindo o que chamamos, ou desejamos que seja, goianidade.
 
Em Catalão viveu um homem, Antônio Chaud, responsável pela cabeça de algumas gerações de estudantes que aprenderam com ele o prazer de ler um bom livro e a importância da informação numa época em que a informação, nem de longe, tinha a força que tem hoje. Sempre esteve muitos anos à frente do seu tempo e ensinou o visionarismo a garotos que, como eu, seriam apenas homens provincianos não fosse a influência dele.
 
É um autêntico patrimônio imaterial, fundamental.
 
A melhor cantora de Goiás chama-se Eli Camargo e as novas gerações não a conhecem. No Brasil é comum que os jovens pensem que o mundo começou no dia em que nasceram, deletam qualquer coisa que veio antes deles.
 
Eli Camargo não faz o gênero jovem, nem a brejeira, a versátil ou a sensual, mas é capaz de nos remeter com sua voz límpida a um Goiás que tanto nos empenhamos em preservar através do nosso patrimônio arquitetônico ou natural.
 
Esses homens e mulheres são tão nosso patrimônio quanto a velha Goiás tombada e reconhecida mundialmente. São tantos e de tão variadas ordens que não seria possível citá-los todos num artigo como esse, mas podemos e devemos reconhecê-los da mesma maneira que reconhecemos os sabores muito próprios desta terra.
 
Não haveria teatro em Goiás sem os trieiros abertos sofridamente por Cici Pinheiro e Otavinho Arantes. Nem cinema sem João Bênio. O jornalismo aqui se assenta em homens como Jaime Câmara e Batista Custódio, só para citar dois deles. 
 
Qualquer cantor ou cantora goiana deve mais a Eli Camargo do que aos patrocinadores que possibilitam a gravação de seus discos e apresentações de shows, porque ela é que deu consistência e profissionalismo ao ato de cantar. É a nossa voz.
 
São pessoas como essas que nos distinguem em meio à mediocridade que iguala tudo através dessa onda terrível chamada globalização. Somos seus beneficiários diretos e com eles aprendemos a olhar o mundo fora da mesmice imposta pelo mundo. 
 
Vivemos decididamente a cultura do dinheiro, do poder, da superficialidade, das coisas descartáveis e é através de nosso patrimônio imaterial, imune às influências do tempo, que podemos preservar nosso direito à alegria, à sabedoria e à humanidade.
 
São umas espécies de reserva utópica e espiritual que não arrefecem nunca e é nos refletindo neles que podemos manter a certeza de que o mundo é um lugar delicioso pra se viver. Ainda bem que são eternos.
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