POR EDIVAL LOURENÇO
EM 08/12/2008 ÀS 04:56 PM
Operação Solta & agarra
publicado em arquivo
Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin

Não é de hoje que a fauna ictiológica nacional vem experimentando os privilégios do período de defeso, ou da piracema. Nessa fase, como o próprio nome já diz, a pesca é vedada. A não ser a pesca esportiva, do tipo agarra&solta. A Polícia Federal agarra e o Supremo Tribunal solta.
Nos últimos dias o noticiário nacional deu conta de uma tarrafada espetacular promovida pelo barco pesqueiro da Polícia Federal. Numa só operação trouxe enredados em suas malhas peixes tão importantes quanto aquela proporcionada pelo milagre de Jesus Cristo aos apóstolos no mar da Galiléia.
Dentre os peixes fisgados, três chamaram especialmente a atenção, por se constituírem verdadeiros representantes das espécies mais preciosas encontráveis nas águas do mercado sócio-financeiro nacional.
Numa escala crescente de importância e sofisticação, temos Celso Pitta, uma espécie de cascudo tosco que chafurda o lodaçal dos pântanos, por onde são usurpadas quantias vultosas dos recursos públicos, por meio de ocupação de cargos eletivos, com votos da massa ignara. É uma evolução (ou seria degenerescência?) de um outro cascudo emérito chamado Paulo Salim Maluf.
Acima dele, vem Naji Nahas, uma espécie de piranha do Nilo, com agilidade e faro especial para negócios excepcionais, além de dentes afiados para grandes bocadas. Eventualmente nada pelo lodo das verbas públicas, mas seu habitat preferencial são as águas turvas das informações privilegiadas. Com essa habilidade leva de roldão verbas públicas e privadas, quebrando bolsas, engrossando fundos, transferido de mãos, de uma hora pra outra, riquezas monumentais.
Já o terceiro, e ocupante do topo da linha evolucionária, está o tubarão iluminado Daniel Dantas, um monetarívoro voraz com aptidão para descolar sua presa em qualquer habitat existente. De lamas sulfurosas a águas translúcidas. Como aquelas bactérias hipertermófilas que toleram ambientes que vão da panela de pressão ao botijão de nitrogênio. Ou seja, em busca de uma oppotunity, trafega com desenvoltura tanto pelas panelas de pressão da patuléia, quanto pelos gélidos botijões do governo.
Pode-se dizer que Dantas tem as habilidades de Pitta e Nahas potencializadas pelas suas próprias. É um espécime extremamente adaptado, que nada, caminha e voa, respira água, ar e ácido sulfúrico. Uma espécie que arrancaria um oh!! de admiração de Charles Darwin.
Os demais peixes apanhados são bagres, lambaris, rêmoras, raias-miúdas e outras espécies parasitárias que sobrevivem exclusivamente dos detritos dessas espécies dominantes das águas monetárias brasileiras.
O mais curioso é o método pesqueiro inaugurado nesta mais recente operação, que evoluiu do agarra&solta do defeso clássico para o solta&agarra (do Sânscrito Satiagraha). Obviamente para outra vez soltar. Inauguramos uma espécie de defeso heterodoxo. Talvez o método se justifique porque uma das características marcantes dos peixes é ter o apetite maior que a memória. Minutos depois de morderem uma isca e serem apanhados e soltos, são capazes de morder a mesma isca outra vez.
O método não é do IBAMA, mas tem se mostrado extremamente eficaz enquanto instrumento de preservação de nossa fauna peixeira.
A persistir este jeito de pescar, ou seja, esta prática na administração da justiça, podemos ter confiança de que nossas espécies mais representativas estarão a salvo da extinção. Nem mesmo o aquecimento global terá poder de colocá-las em risco.






