O round da política
Antes de meados de 2008, milhões de pessoas no mundo já passavam fome, bilhões padeciam as piores condições de pobreza e miséria. Mas ninguém, nem mesmo por isso, falava em “crise”, em “socorro” a quem precisa do Estado: não era a economia que necessitava dele, apenas... pessoas de carne e osso! Até dia desses, só se ouvia falar em prosperidade, conclusão lógica de um sistema financeiro mundial com “saúde de ferro”. (Não importa se o sistema financeiro mundial serve a apenas alguns milhares de indivíduos podres de rico.)
De repente, os lobos vestiram a pele do cordeiro; se dizem preocupados com o homem comum, com o aumento do “desemprego” e do “custo de vida”, e tudo porque o seu sistema de lucros exorbitantes entrou em crise. Suspeito que a sociedade entrou nesse papo foi de álibi. Ela sofrerá, sim, as piores conseqüências, mas, como desta vez não vai sozinha para o buraco – está levando consigo um punhado de banqueiros -, acharam perversamente que era hora de apelar para os bons sentimentos e argumentar que a população mundial será castigada nos próximos anos. É a desculpa que o mercado precisa para garantir recursos para si mesmo. Faz lembrar a cena do afundamento do Titanic, o filme, onde o nobre (e canalha) inglês usa uma criancinha para garantir vaga num bote de salvamento, na hora crítica.
Desde os anos oitenta – precisamente Era Ronald Reagan / Margareth Thatcher – os ultra-liberais iniciaram na prática o encolhimento do Estado, seguido depois pelos países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil. Sobretudo depois da ruína do leste europeu, a sociedade passou a acreditar que o mercado havia triunfado absolutamente. Isso converteu-se numa crença radical e religiosa – tão religiosa quanto o comunismo -, como se, de fato, houvéssemos alcançado o último estágio de uma suposta evolução, a parusia, mesmo sabendo que a história real não tem relação com a fábula cristã: começo, meio e fim. O extremo oposto dessa evolução era a política. O “Fim da história” propalado por Francis Fukuyama foi interpretado como fim das contradições no reino humano, fim das lutas sociais e, conseqüentemente, fim da ideologia.
Como – e com ingênuos que ares de desforra! – ouvimos no dia-a-dia, mesmo dos colegas de trabalho, a cantilena dominante de que a ideologia havia acabado, como se tal crença não fosse, ela própria, a ideologia do mercado. Caíram todos como patinhos no conto do vigário, e mais uma vez prevaleceu a fórmula de Goebels: uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade.
Por mais de duas décadas, soou extemporâneo defender a presença e a atuação do Estado na economia, orientado a cortar investimentos na área social, em nome do “equilíbrio das contas públicas”. Era a teoria do Estado mínimo, de alguns economistas brilhantes dos anos 70. Sujeito às leis do mercado, cada membro da sociedade que se virasse por si mesmo, rico ou pobre. O mercado proveria. A crença, algo totalitária, era de que o agente econômico poderia tudo, e que qualquer coisa fora dele era bobagem, incluindo a política e suas representações simbólicas. O problema dos que pensavam assim é que o bote salva-vidas, ai de cima, é o Estado: restou em último caso apelar para ele, provando, entre outras coisas, que a entidade política nunca deixou de existir nem nos países centrais do Ocidente, entre eles os Estados Unidos.
O Estado existe e é robusto. A diferença é que se tornou uma mega-instituição com atribuições específicas, demandadas pelo setor privado, e só pode entrar em ação para socorrer o mercado. Afinal, quando foi que viram-no sacar três trilhões de dólares para fazer justiça social e distribuir riqueza?
Os últimos acontecimentos levam a crer que os governos funcionam, hoje, como eficientes coletores de impostos, destinados a transferir recursos do contribuinte para instituições privadas e seus sócios irresponsáveis, se necessário. Única explicação para o colossal paradoxo do ultra-liberalismo, ao fazer com que o Estado use recursos públicos para tornar-se sócio de grandes instituições financeiras, à beira da falência. Parece programa econômico daquela esquerda que, até a bem pouco, foi tachada de retrógrada e obsoleta, pela direita. Mas é pior do que isso, pois os fins são privados: França e Inglaterra acabam de gastar meio trilhão de dólares comprando papéis pobres de alguns bancos particulares.
Compulsoriamente, o risco foi partilhado com os contribuintes e eleitores de um regime que se diz democrático, obrigados a pagar o preço da farra generalizada do capital nas últimas três décadas. É bem pior.
Celso Furtado tinha razão, quando dizia que neste sistema os lucros são privatizados e os prejuízos socializados. Mas a grande lição que fica é esta: a política – isto é, o Estado, o governo e a ideologia – não são coisa do passado. A história é cíclica e nada em seu vórtice é para sempre: é pena que, por enquanto, a ação dos governos tenha sido de conluio com a jogatina. Wall Street sempre soube que podia contar e, mais esperto que todo mundo, vendeu um peixe no qual nunca acreditou: a noção de triunfo final da economia sobre a responsabilidade dos homens.
Infelizmente, o mundo real é mais cruel que o Titanic: nele, um bando de ricaços é que entra no bote salva-vidas (portanto, o Estado), embora façam uso do inocente. Alegam, comovidos, que o fazem inclusive para salvar este inocente, em seus braços. Mas ninguém, na verdade, está nem ai para o tal do inocente. O bando quer salvar é a si mesmo, e que se dane o resto. Caso contrário, o exército ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, já teria invadido alguns países da África e quebrado o pau – com ou sem a promessa de lucros.





