POR MENALTON BRAFF
EM 12/08/2008 ÀS 04:07 PM
O centro do mundo
publicado em arquivo
Se você não sabe o que é o centro do mundo, então é porque não conhece algumas cidades de porte médio, mas de auto-imagem gigantesca. Eu também não conhecia e, quando conheci, não me dei conta imediatamente do fenômeno.
Estávamos alguns amigos a jogar conversa fora ali no bar do Oripão, o maior colecionador de latinhas de cerveja que conheço, e não me lembro por que império freudiano das livres associações chegamos ao conceito de bairrismo. Meus amigos, todos eles dignos exemplares da flor local, sucediam-se em exaltações argumentativas para me provar que eles não eram bairristas.
Pedi meia hora de ausência e fui até minha casa, ali na vizinhança do Oripão, e de lá trouxe, bem antes da meia hora concedida, dois exemplares de jornal, porque, se não coleciono latinhas, mantenho meus jornais arquivados em ordem de data.
Pedi uma lata de cerveja, dessas bem comuns, sem pedigree nenhum como gostam de pedir os freqüentadores do Oripão. Enquanto tomava minha cerveja, mostrei o primeiro exemplar do jornal, com entrevista dada por célebre concertista de piano, que se apresentaria naquela mesma noite.
Não dou os nomes do jornal nem do concertista que é para ninguém sentir-se difamado. Além do mais, parece-me que toda cidade de porte médio poderia estar inscrita na mesma categoria ufanista de gigantesca auto-imagem.
Meus comparsas daquela noite leram a matéria e sentiram quão importante é sua cidade, pois tratava-se de um dos maiores pianistas do mundo.
Então mostrei o segundo exemplar, datado de mais ou menos duas semanas depois. Havia lá, na página dupla central de seu caderno de cultura, o resultado de uma pesquisa que não deve ter custado pouco ao jornal. Com fotos, transcrição de arquivos, fac-símiles de documentos, tudo prova provada, sem deixar a menor dúvida, a história de um velho barbudo, que, no século XIX (fins do século) viajando com a família por estes brasis, fizera pouso exatamente em uma estalagem de beira de estrada, em torno da qual se formou um povoado, gênese da cidade onde moramos.
A que vem a história do velho? Pois foi a descoberta do jornal, a grande descoberta. Um dos maiores pianistas do mundo tinha um bisavô que já passara por estas plagas. E isso era motivo de grande orgulho para todos nós, que moramos no centro do mundo.





