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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:58 PM

O capiau que encomendou o inferno

publicado em


Volta e meia eles apareciam por lá, montavam acampamento com barracas e cortinados, se embrenhavam nas roças, em terras adquiridas, negociavam daqui e dali e, segundo as más histórias, trapaceavam com uns e outros, usando de treta para engambelar e tirar proveito. Eu mesmo nunca presenciei algum desatino desses, mesmo porque não sou dado a fazer negócios e muito menos negociatas e quando me destino a vender alguma coisa acabo quase entregando de graça. De uns tempos pra cá, observando justamente uns ciganos, foi que comecei a me inteirar das ladinices dos negócios, mas não tenho tino, como tinha, por exemplo, o meu pai, que pegava um canivete e o transformava numa vaca.

A história de Felisberto merece ser contada, porque entra no rol das performances mais inusitadas da minha observação sertaneja. Eu já o conheci famoso, com gente de bem e boa fazendo reverência e o cumprimentando com honras de herói. No sábado da feira, lá estava Felisberto, na constância assídua, de ir ao comércio comprar mantimentos que a roça não dava e que apoiavam o sustento das crianças, dele, da mulher e de algum vizinho desprevenido. O que a roça dava ele levava pra feira e com o resultado da venda se apetrechava de pão, biscoitos, açúcar, café e tecidos para roupas.

Num desses sábados, lá ia ele de marcha batida em retirada para a casa, trecho de duas léguas no máximo. Os alforjes cheios, passados no lombo da égua, marcha batida e sem trompaço e o sol da tardezinha esquentando o couro e alumiando o caminho. Lá na frente, avistou três ciganos, montados em belos animais, vindo em direção contrária. Sem cisma, porque ali tudo era muito calmo e sossegado, continuou seu caminho sem botar desconfiança alguma.

Calmamente, os ciganos foram se aproximado até chegarem à distância do cumprimento, que Felisberto antecipou-se em fazê-lo, dando 'boas' aos moços. De repente e inesperadamente, eles arrumaram-se em grunhidos e uivos e partiram de chicote, pinotando os cavalos pra cima de Felisberto, gritando e reivindicando capetas, querendo porque querendo pegar os mantimentos que Felisberto levava. Um dos ciganos arrumou da cintura uma faca, um outro cavucou um trabuco que reluziu querendo arrotar e o outro ficou tacando o chicote sem dó nem piedade.

Felisberto e sua égua cascavam dum lado pro outro, pinotando e negaceando, até quando lembrou que trazia no embornal um trinchete, um canivetinho de nada. Enfiou a mão, enquanto desviava de um e do outro cigano e de um tiro que raspou seu espinhaço, pegou a faquinha e começou a trabalhar com ela naquele escarcéu todo. Rasgou primeiro a barriga do que atirou, que as tripas pularam fora e ele caiu vertendo sangue e bosta durante o pouco que viveu. Os outros dois partiram com gosto de gás pra cima de Felisberto e também receberam golpes fatais, estrebuchando-se do chão. Felisberto ficou escondido uns dias e a história vazou pra todo lado. Duas semanas depois, quando apareceu na cidade, foi recebido com honras de herói pelo prefeito, a polícia, o povo e a banda de música.
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