Mesmo vivendo numa pequena cidade do interior, ainda menino podia ouvir minhas tias cantarem músicas latino-americanas que faziam sucesso em todo o continente. Músicas peruanas, argentinas, chilenas entre outras eram as que chegavam pelas ondas do rádio a todos os rincões dessa América e ainda não havia essa invasão de música norte-americana sufocando todas as outras com seu poder de divulgação feito em dólares e nos impondo massacrantemente esse samba-de-uma-nota-só em inglês.
Ouvia-se também nos anos 70 canções italianas, espanholas e francesas e, portanto, o leque cultural era muito mais amplo, conhecíamos Domenico Modugno, Rita Pavone, Jacques Brel, Lucho Gatica, etc...
Enfim, o mundo ficou mais pobre no aspecto musical, nenhuma novidade nisso. Mas só percebe quem viveu a diversidade.
Durante muitas décadas as ditaduras apoiadas pelos EEUU, muito comuns neste continente, nos levaram a acreditar numa mentira histórica de que a América Latina é um conjunto de países e o Brasil um País à parte.
Usaram as diferenças de idiomas dos nossos colonizadores para nos afastar dos outros países que falam espanhol. Pura conveniência política.
O Brasil é grande demais e se fosse unido e identificado com os outros países seríamos o continente poderoso com que sonhou Simon Bolívar ou o Che, por exemplo.
Somos todos a América Latina!
O mágico é a matéria prima do nosso cotidiano, aqui ou na Bolívia, no Equador ou na Venezuela.
Estamos vivos por pura mágica e somente o surreal explica e define nosso vigor e nossa alegria apesar de todas as mazelas.
Nos anos 70 não havia um jovem politizado e inteligente que não havia lido o livro “As Veias Abertas da América Latina” do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Assim como os filmes de arte do cinema novo esse livro foi o livro de cabeceira de uma geração inteira. Apaixonante, panfletário e ilustrativo demonstrava como fomos explorados e massacrados pelos países mais ricos como a Espanha e Portugal que nos colonizaram.
Foi por causa dele que decidi durante os anos 80 percorrer toda a América entrando em contato com dramaturgos, atores, músicos e diretores de teatro.
Queria me sentir irmanado com os povos latinos e consegui.
Depois de meses voltava revigorado pro Brasil porque descobria identidades muito mais profundas com todos os povos que me recebiam como hermano.
Trouxe para o Rio de Janeiro diversos autores latino-americanos, dramaturgos desconhecidos e suas obras maravilhosas: José Ignácio Cabrujas, Isaac Chocrón, Roman Chalbauld... Promovi shows com cantores de vários paises que conheci nas viagens e reforcei o intercâmbio que nos fortalecia.
Também estive realizando oficinas de interpretação em alguns.
Sinto que abri portas e janelas dessa América sofrida e mágica para outras gerações de artistas que, como eu, desejavam se arejar artisticamente.
Nos anos 90 Caetano Veloso gravou um CD chamado “Fina Estampa” só com canções populares latino-americanas e que foi um grande sucesso.
O cineasta Almodóvar colocou algumas dessas canções em seus filmes por serem belas e para tentar, como declarou, reavivar o interesse pelos artistas desse Continente. Talvez seja a literatura a única arte que nos chegou sempre mais fortemente através de Jorge Luis Borges, Canetti, Mario Vargas Llosa, Júlio Cortazar, Gabriel Garcia Marquez e tantos outros autores que nos revelaram identidades insuspeitas até então.
Nos festivais internacionais de teatro os espetáculos dos grupos latino-americanos são sempre os que mais se destacam porque instintivamente conhecemos a arte de transformar dificuldades em beleza plástica e isso encanta os outros povos em qualquer lugar, tenho comprovado.
Festivais europeus de teatro sem a presença de grupos dos países desta América significam festivais bem-comportados, pouco vibrantes, meio incolores, sem paixão cênica porque nossa exuberância se manifesta em toda arte que criamos mimetizando nossa exuberante natureza física e emocional.
Gosto de ser assim e, sendo, não poderia ser diferente disso.
Meu interesse e curiosidade pela América Latina permanecem inesgotáveis.
Foram eles que me motivaram a escrever o roteiro do Show que estreamos recentemente aqui em Goiânia e que se chama ABRAZOS.
São dez músicas latino-americanas e algumas brasileiríssimas como a música do Villa Lobos e da Chiquinha Gonzaga que promovem abrazos entre os nossos povos.
Um espetáculo em que os textos curtos do escritor uruguaio Eduardo Galeano conduzem o público pelas sonoridades e pelas planícies que, se conhecêssemos mais profundamente, nos tornariam mais amplos.
E essa profundidade a música pode promover, é linguagem universal.