Médicos escritores?
Quando passei pela faculdade, há vinte anos, fiquei conhecendo um acadêmico de medicina fora dos padrões. Seu apelido era Jotinha. Dentre tantas esquisitices, certo dia o sujeito apareceu lá no Hospital das Clínicas com um álbum de fotografias enfiado no sovaco. Eram fotos da noiva vestindo um biquíni de oncinha num ensaio, digamos assim, sensual. Saltava aos olhos a naturalidade da moça, provavelmente, uma profissional das lentes e das gaiolas. O “book” fez um sucesso danado no meio estudantil. Muito estranho o Jotinha ficar expondo a noiva daquela forma, mostrando suas curvas, cicatrizes e celulites. Mas se ele, que era o maior interessado, não estava nem aí com a paçoca, por que haveríamos de nos preocupar com as questões morais?!
Dizia-se, à boca miúda, que o sujeito, mesmo sendo estudante, já atendia em consultório médico, fazia uma grana com prática do aborto clandestino e, de vez em quando, abusava sexualmente da clientela.
Como é que o povo ficava sabendo daquelas coisas eu nunca soube. Boataria?! A verdade é que o Jotinha formou-se, caiu no mercado de trabalho e foi preso há poucos dias por prática de pedofilia, estupro, atentado violento ao pudor e favorecimento à prostituição infantil. Pau que nasce torto, até as cinzas são tortas... É difícil aceitar que uma entidade pública educacional de nível superior libere um profissional com este perfil psicológico no mercado. Por causa de seu estilo bizarro, Jotinha não fez amigos na faculdade, era discriminado pelos colegas, e gastou quase dez anos para se formar em medicina (o curso normal tem seis anos de duração). Esconderijos da mente humana ou negligência dos educadores?!
Mas, falemos de coisas boas... No mês de outubro, como parte das comemorações do Dia do Médico (dia 18), acontecerá um evento na Associação Médica de Goiás chamado FESTMEDICO. Trata-se do maior evento artístico e cultural brasileiro destinado a médicos e acadêmicos de medicina. É muito provável que não exista nada igual no restante do planeta. Durante o festival, os doutores debulharão seus talentos além das pinças e dos bisturis, nas modalidades: canto, música instrumental, literatura, dança e artes visuais (fotografia, pintura e escultura). Nada mal para uma classe que tem fama de “sangue frio”. O evento encontra-se na sua sexta edição e é organizado pela seccional goiana da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores), uma associação sexagenária presente em quase todos os estados brasileiros, e que reúne médicos e estudantes de medicina adeptos das artes em geral, com especial ênfase em literatura, literatura não científica. O festival, dentre outras coisas, visa ao congraçamento da classe médica, tão esculhambada nos últimos anos por causa de escândalos como os do Jotinha, dos planos de saúde mercantilistas, das avalanches de processos ético-legais (a maioria deles uma imoral caça ao dinheiro), da desvalorização do trabalho médico e da insuficiência de investimentos na saúde por partes dos nossos governantes.
Tem um punhado de médicos escritores (ou escritores médicos) com destaque na literatura universal, como Guimarães Rosa, Pedro Nava e Arthur Conan Doyle, para citar apenas três. Se a SOBRAMES nos brindará com algum novo ícone literário, é uma incógnita. Mas também, se isso não acontecer, não tem problema algum. Em seu estatuto, a entidade não almeja a fama e glória dos associados. Aqueles doutores querem apenas deixar bem claro à sociedade que têm sangue correndo nas veias, e não é frio, não senhor. É pura ebulição.





