POR LAURO MARQUES
EM 08/09/2008 ÀS 08:49 PM
Lector in fabula
publicado em arquivo
Explicação do poema “EU”
Ferro brasadormecida
crostas e encostas enegrecidas
Eu!
pétrea-estupidificada
ensandecida
brutamolecida
rosa
“molusco”.
O POEMA revela a transformação de alguma coisa originalmente dura e embrutecida que é suavizada no decorrer do tempo, não sem luta interna e resistência. Vai-se do ferro (aquecido e resfriado) à pedra, que contém dentro de si uma rosa “pétrea-estupidificada”. “Molusco”, transformado em verbo na primeira pessoa, no final do poema, serve para reforçar a sugestão de uma mudança de estado (Eu-Ferro-Pedra) para algo menos bruto (palavra que guarda o sentido de estúpido), e indica ao mesmo tempo que esse processo é demorado, e possivelmente está ainda em curso de modo indefinido.
Idéia para uma cena usando o poema “Fábula”
Preto e branco (final de tarde):
Um grupo de homens, entre eles, um calvo, e mulheres, cinco ou seis pessoas, vestidos de branco, envoltos em mantos, como se fossem seguidores de Zoroastro (mas que podiam ser foliões de carnaval, ou hare-krishnas) tocando instrumentos (pandeiro, flauta), entoando o poema (à maneira de um mantra), passa numa estrada que sobe uma montanha por um homem sentado à beira do caminho que parece não se importar com o grupo, não se mexe (talvez tenha um livro nas mãos -a definir qual- e um caderno em que rabisque algo).
A câmara acompanha a passagem em travelling. A última frase que se ouve é um pedaço do poema:
No alto daquela montanha... à noite gris.... no meio de nenhum lugar... há pássaros...
Corta.
Como seria filmada a cena:
1. Câmera fixa no homem parado em primeiro plano.
2. À aproximação do grupo (pela esquerda), a câmera recua (para uma abertura maior) e passa a acompanhar a passagem das pessoas em travelling.
Penso agora que em lugar de um homem, poderia ser uma bela garota, com um livro e um caderno de notas, na cena que bolei para “Fábula”. O livro: “Ulysses”, JJ, na edição da Penguin.
O que ela estaria anotando? “Smart girls writing something catch the eye at once. Everyone dying to know what she’s writing.”
Sobre o poema “Sem salvação”
A palavra arte é avara porque diz pouco.
A arte é lavra magra. É qualidade, antes de quantidade.
A arte não salva ninguém.
“A beleza é coisa difícil, Yeats”.
Poema a quatro mãos com Leonardo Aldrovandi
le cadavre exquis boira le vin nouveau.
o trago imaturo
e aquele o pato do feno que não calca o presente
adivinhar: o futuro
está
no (p)fato recente
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O cadáver refinado
A conversa entre o escritor A e o escritor B depois de finalizado, revela como foi produzido o poema.
Nota: “cadavre exquis: atividade que consistia em produzir um texto coletivo em que cada participante continuava um texto, acrescentando uma parte da frase sem saber o que vinha antes, daí resultando em criações livres de qualquer associação lógica. No primeiro texto, Prévert escreveu ‘le cadavre exquis’, em um papel dobrado e o passou a um outro participante que, em segredo, prosseguiu acrescentando ‘boira’ um terceiro, nas mesmas condições, concluiu o jogo e o texto com ‘le vin nouveau’”.
Apud. Eclair Antonio Almeida Filho. “A escritura coletiva de Jacques Prévert com surrealistas”
Escritor A:
- Gostei do nosso “cadáver”. Houve uma sincronicidade incrível aqui, bem típica dos achados-prontos do surrealismo: eu pensei no verso-jogo “o cadáver refinado beberá o vinho novo” e você (sem conhecê-lo) me mandou uma frase falando em “trago imaturo”.
- O poema está pronto.
- Ponto.
- Para nós dois.
- Aliás peço sua licença para “incorporar” o poema como meu (nosso) a um livro imaginário que ainda escreverei.
Escritor B:
-Também gostei, acho que ele cumpre o lance de ser uma pequena operação... Gosto particularmente da ligeira falta de nexo frasal do segundo verso, como se estivesse mal escrito. Também a maneira como você fechou ele numa espécie de idéia de tempo.
- Claro que pode mandar bala....
- Podemos fazer outros também...
- Deixa ver:
mais um vento da velha questão da exclusão
os caminhões-pipa poderiam ser inflamáveis algum dia?
Escritor A:
-Sim, a frase tropeça e dá um charme especial.
- O lance da operação, bem lembrado. Eu tinha pensado o mesmo.
- A idéia de tempo: Você levantou a bola e eu matei. O seu pato não calcava o presente. Era um pato recente e imaturo a pisar em montes de feno (tempo-feno-fenece).
- Este outro me parece um koan. E como tal está fechado em si mesmo, num círculo. Não se acrescenta nada ao círculo.
- Lembrei de um koan/haicai que escrevi faz tempo, com o mesmo animal:
1
O pato
de asas cortadas
voa de costas?
2
Qual o fundo falso do poço sem fundo?
Escritor B:
- Que bonito cara... feno-fenece... que sensação boa. Tem razão é preciso algo aberto, não uma idéia feita... mas vamos obrando.... nem todo dia é de sol.... Confesso: me sinto mais ou menos como esse pato...





