Ironias da guerra
1.
Tomou, então, Jesus
os dois peixinhos
e distribuiu-os
a tantos quantos queriam.
Querido pai, querida mãe.
Tudo bem por aqui.
A guerra está uma beleza!
Esta tecnologia bélica é mesmo surpreendente.
Dá gosto ver os estragos que faz.
E tome goma de mascar com cocaína,
e baseados pra pitar, que ninguém é de ferro.
Quanto a mim, não se preocupem, estou legal.
Uma explosão me arrancou as pernas e os testículos.
Vão me mandar de volta pra casa,
acham que já dei uma boa contribuição em prol do nosso país.
Disseram que sou um patriota supimpa.
Só lamento minha cabeça
ter sido arrancada do corpo, numa explosão.
Serei despachado num saco de dormir.
Ah, não vejo a hora de rever vocês,
embora o estilhaços do petardo tenham me deixado cego.
Ainda bem que na hora eu estava sem o meu Ray-Ban,
senão teria perdido os óculos também.
E só não vou assinar esta carta porque perdi
um dos braços na batalha,
e o outro sofreu gangrena e teve de ser amputado
aqui na enfermaria do front.
Agora não vou mais pensar nestas coisas,
pois nem sei aonde foram parar meus miolos.
Mas, puta que pariu, estou muito feliz
com o que sobrou de mim!
2.
Quando todos se saciaram,
disse Jesus a seus discípulos:
Recolhei os pedaços que sobraram,
para que nada se perca.
Guardai-os para os cães
que virão depois de vós.
Sex Symbols
Bem que se quis um kiss
nos mamilos de Cássia,
mas, quem TViu, olhos que só lamberam
alvas mamas sem os caroços do câncer.
Sônia só braga e não braguilha,
Cláudia foge da raia no vídeo
com os seus molejos anelídeos,
de sorte que na bruneca não lombardi.
De sex symbols, o que se tem,
além do que se come com o olhar?
A ilusão do olhar,
o vazio da ilusão
e a solidão do telespectador.
Os seios, porém, sei-os,
que os mamei de mamãe,
e sei os de jasmim,
que os mamei também.
Retórica da guerrilha
Uma transa em academia de malhação
Hay que endurecerse
pero sin perder la ternura jamás.
Che Guevara.
E há que emagrecer-se,
não perder a cintura, jamais.
Chega a vara!
A peste
Pretensos, pseudos, poetastros,
o parto das oficinas de versos.
Feito espermatos afoitos, fervilham,
no afã da fecundação.
Não rimam sequer ervilha com virilha
de mulher de Sevilha,
e se acham por cima quando rimam
mamão com mão.
Que maravilha!
Aptos nem seriam à distinção,
em verso livre ou branco,
de um caco de fato e seu cacófato,
uma mão e um mamão.
Destarte, ó Morte, mate-os.
Apenas um, por certo que o tal de bissexto,
fecundará o óvulo da poesia.
Ou, quando muito – glorioso dia –,
os sêxtuplos de um mesmo útero.
O resto perder-se-á pelo árduo caminho,
senão que morrerá na praia de tanto nadar:
fraquinhos demais, os bardos, para tanto mar.
Corno Cow(ntry)
Os panacas corneados às pencas,
levando chifres de rosquinha,
de tal sorte que, se lhes cai um,
vem a consorte numa rapidinha
e tchum,
atarraxa outro,
com os cumprimentos do vizinho.
Corno-cow, ou country,
boi corno o dono do boi,
e o cowboy de asfalto.





