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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:59 PM

Idas e vindas

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Quando Nego Fulgêncio saiu de nosso interior,  mal dava conta de rabiscar o nome, mesmo porque nunca passou da cartilha, quando aos 18 anos de idade foi tentar a vida na capital, pela necessidade de tomar tino e para gáudio e adjutório da família. Comeu, como peão de obra, o pão mais duro e que ninguém amassava, e ia tocando a vida aos solavancos, quando uma moça dessas muito bonitas, modelo de capa de revista, e muito bem remediada, foi fazer um trabalho na obra onde ele trabalhava e se encantou com o moço.

Tirando os desacertos de pobre que ele carregava, inclusive no corpo, era um negão bonito e, por artes da genética, de olhos azuis, de um azul que chamava a atenção. A moça foi consertando-o aos poucos e com pouco Nego Fulgêncio já estava parecendo gente, como se diz. Começou botando nele roupas, estudo na cabeça e modos, para apresentá-lo nos locais chiques que freqüentava.

Foi tomando ares de burguesia que Nego Fulgêncio aluiu na vida e até um emprego na indústria do pai da moça ele ganhou, indo numa paulatina ascensão, resumindo cursos, letrando-se e ao mesmo tempo aumentando o amor pela moça, crescendo dentro da empresa do, praticamente, sogro. Junto com tudo isso, foi se impregnando de coisas novas e elitizadas, esquecendo-se  da nobreza inerente às suas raízes.

Um dos primeiros passos dessa nova vida foi assegurar com o novo vocabulário o sotaque diferente, cantado e acachapado, parecendo livuzia mal dormida. Pensa que isso o preocupava? Que nada, cada vez mais ele se assegurava de que encontrara o céu, subira na vida, agora já possuía carro, comia nos bons restaurantes, tinha um destrinchado convício social dos mais mais da capital e só participa dos melhores regabofes dos banbanbans da high  society. Só apreciava agora do bom e do melhor.

Esse compasso o deslocou dos seus e até imaginava ter de convidar seus parentes lá do interior para o casamento com a moça chique da capital. Até de notícia sua raleou a caixa do correio da casa de seus pais, mesmo porque eles não tinham telefone fixo e muito menos celular. Nada disso fazia parte do cotidiano deles e depois de muito matutar, de idas e vindas, decidiu voltar lá para convidá-los.

Sete anos apenas se passaram e na cidade ninguém mais o reconheceu e ele também fazia questão de não ser reconhecido. Para sua volta, no entanto, teve de mandar construir um banheiro na casa dos pais, porque não tinha estômago para usar a latrina de lá.  Não deu a mão pra ninguém, não visitou os tios, não se encontrou com os primos, desconheceu 'aqueles matutos' que foram seus colegas de infância. Fazia questão de não se misturar e quase não saiu de casa e quando o fazia deixava um largo poeirão com o seu possante do ano. Nego Fulgêncio agora era doutor, diziam os dali. No dia de ir embora, bateu com o carrão numa vaca que passeava tranqüilamente na estrada e morreu no dia seguinte socorrido apenas pelos chás e ungüentos caseiros.

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