Estética Anartista
Abaixo a roupa de baixo, com babadinhos cor-de-rosa, da melosa poesiazinha de armazém zen! Abaixo os versiprosinhas de homenzinhos sozinhos, roedores de unhas no zumzum dos shoppings, caçando morfemas e semantemas — chifres em cabeça de égua — pra escrever poemas sem língua, que não dizem nada a ninguém!
E vê se toma jeito, sujeito. Se toca com autocrítica. Sem essa de tudo quanto é crítica receber, às pressas, a pecha de preconceito.
Quebra a porrete os ossos da linguagem. Subverte a grafia, desarticula a pronúncia, monta outro esqueleto com os ossos do dia. Pô!&Cia.
Cria a vertigem. Carnavaliza o código de (im)posturas. Inaugura a loja de (in)conveniências. Torções semânticas, fraturas na estrutura sintática, dissolução dos signos, dissonâncias polifônicas.
Poesia é poliedro de sentidos. Abaixo o poema que só mela o drama, melô de futilidades circunstanciais, da emoção artificial, do enjoativo lirismo-naftalina, ou naftalirismo. E fora com os artifícios da mesmice no edifício do poema acadêmico-anêmico, minimalista onanista, feto putrefato de proveta, arroto, vomitório de provectos poetas de laboratório.
Indigesta poesia, esta que não (se) pensa e não se presta ao ludismo a olho nu do leitor voyeur. Nonsense, o chiste, a paródia e outros rebites do intelecto e do imo-senso. Aqui um eco de Joyce, ali um quê de Mallarmé, um ki de kiwi, um Kid QI e outros cotiliquês (vá se saber) pra enfiar no seu — bolso de veludo-cotelê.
Quem te viu, quem te lê. Cummings around again. Um isto de Pound cai bem. Quem não futrica não trisca a isca elétrica da estética. Finca o obelisco da tua anarquia, e manda o censor tomar, todo santo dia, suco no oco do kiwi, e soprar ou sapear em outra freguesia. Os críticos medíocres nada criam, mas cricrilam, cricrilam, cricrilam, ca(n)gando grilos.
Poeta maldito que se presta não derrapa na pista, não bambeia a tarraxa, acelera e queima a borracha. Poeta maldito não dá ponto sem nó, não dá o pé feito mulata, não dá nó em gravata e nó não dá em gota d´água, nem morde cabeça de prego que não seja o incômodo signo do desassossego.
Iconoclasta, força e ofício da contundência, poeta de praxe bate nos rins, dá murro em ponta de faca, dá soco na boca do estômago, deixa hematomas verbais no queixo das consciências escrotas.
Se teu poema não é novo, se é dèjá vu, o que se há de fazer que não seja replay? Se o poema é tardo, torna-o petardo. Inventa o signo, inverta a língua, cometa a subversão do código. Bem pode que o bode não passe de experimento, mas o experimento é febril e faz a diferença. Uma rosa não é uma rosa.
Quem não ousa se esclerosa.
Levanta mais cedo, pega o pano e as barbatanas do guarda-chuva, cria asas e vira morcego. Está com medo? Não exite. Salte! Coragem! E atenta-te ao que digo: vertigo. Poesia é vertigem. O resto é viadagem. Boletim de ocorrência da vadiagem.
Há controvérsia. Aconselha-se a não construir em casa um desses petardos, uma asneira dessas. Se construir, mantenha a bomba caseira longe do alcance das crianças.





