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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:39 AM

Deuses mortos na praia

publicado em

O Brasil ficou na 25ª colocação no quadro de medalhas de Pequim, 2008. Não importa se não somos uma potência do esporte: podíamos ter ficado, no mínimo, em 13º, à frente da Jamaica e atrás da Holanda. Bastaria, para tanto, termos confirmado conquistas prováveis, no vôlei masculino (incluindo o de praia) e no futebol feminino e masculino. O que faltou ao Brasil? Como torcedor, tenho meus palpites. Não vimos em nossas equipes o que argentinos e norte-americanos esbanjaram nas decisões, pra cima de nós: frieza e cálculo, o bastante para reagir quando, e se, necessário.
Na realidade, estou sendo modesto. Podíamos ter conquistado não 15, mas dezoito ou vinte medalhas, no total. Seria bastante razoável que Jadel Gregório (salto em distância), Daiane dos Santos e Diego Hipólyto (ginástica artística), Rodrigo Pessoa (hipismo), Tiago Camilo (judô) e Fabiana Murer trouxessem, no mínimo, algumas pratas e bronzes a mais. Não deu certo: a última foi vítima de uma loteria improvável (perderam sua vara), Diego e Tiago foram simplesmente inexplicáveis, e Daiane não teve remate, detalhes francamente bobos que fizeram toda a diferença entre o ouro e nada.
Terei eu almejado algo além de nossas reais possibilidades? Absolutamente, não. Não alcançamos um melhor resultado porque continuamos a depender de investimento, segundo de preparo físico e psicológico dos nossos atletas, quase sempre imprevisíveis e excessivamente passionais.
O envolvimento e apoio de órgãos de governo e da iniciativa privada é fundamental para o sucesso do esporte brasileiro. Quer chateação maior do que perder no futebol para os Estados Unidos, logo eles? Mas há uma explicação exemplar: lá o futebol, praticado entre as mulheres, é institucionalizado nas universidades. Dispõe daquilo que no Brasil não existe: apoio e estrutura. Como ficou claríssimo, futebol feminino no Brasil é, literalmente, pura raça. Aliás, de fazer inveja aos craques pachorrentos dos gramados.
Apesar da prata, Marta e Cia merecem nosso respeito, vá lá. Não sejamos injustos. Resgataram uma característica que se ausenta cada vez mais em nosso futebol masculino: o ataque. Sobrou até pra Ele, numa mistura de intimidade própria dos deuses do esporte com a informalidade mais que brasileira: “O que foi que eu fiz pra merecer isso, meu Deus?”, reclamou a melhor do mundo, desesperada. Perderam, mas estavam inegavelmente imbuídas do espírito de vitória. Marta e Cia amargaram a prata como quem ingere fel. Foi uma raiva de dar orgulho!
As meninas do futebol tinham disposição, mas faltaram-lhes pernas, justo na final. Com os homens deu-se o inverso: não faltara-lhes o vigor físico, mas não tinham cabeça. Acaso, prevalece entre eles, todas as vezes, uma irritante apatia. É o ego farto de quem, jogando na Europa –mais que isso, vivendo e se aculturando na Europa -, já conquistou tudo o que o futebol pode dar: dinheiro, celebridade e mulheres a rodo. E vivem longe do Brasil, tendo certamente mitigados seus sentimentos patrióticos. Fazer feio com a amarelinha virou parte de sua rotina, a ponto de sequer esboçarem aquela raiva que dignifica o espírito olímpico.
Não devem nada ao Brasil, parecem dizer de modo cifrado em sua gramática de pernas, passes, dribles e chutes sem a mínima empolgação, quase protocolar e apta a provocar bocejos. Que seleção (perdoem a franqueza) de merda!
Moral da história: quando temos físico e técnica, falta-nos cabeça (Ronaldinho e Cia., Daiane em 2004). Quando temos cabeça e técnica, falta-nos preparo físico (Marta e Cia.). Quando temos físico e cabeça, falta-nos técnica (Daiane em Pequim, talvez Diego, Tiago, Rodrigo etc., etc.). Diagnóstico possível: o Brasil nas olimpíadas – não só no futebol, mas em todos os esportes - é como uma imagem desfocada. Quando conseguirmos casar os registros e termos corpo, mente e habilidade em sintonia – ai, sim: será provável que nossos deuses do esporte voltem a pisar nossas praias com muito mais (l)ouros.
Será mais provável que tenhamos, também, um pódio mais digno de nossa fiel e sofredora torcida. Pô, a gente merece!
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