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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:51 PM

Cultura revigorada

publicado em


Um cartão postal apregoa por aí que a coragem não torna necessariamente as coisas mais fáceis, mas pode torná-las possíveis. Coragem é o que mais têm os artistas que fazem arte e cultura nesse Estado. Lendo nos jornais informações do governo de que serão ainda mais curtas as verbas para fomentar a cultura goiana imagino que tempos áridos virão por aí, se é que mais aridez ainda seja possível. Mas há uma saída honrosa e recorro a ela para sugerir aos artistas goianos que se atrevam corajosamente a colocar uns silicones básicos nos seus corpos e caras para verem como muda imediatamente o foco de interesse por suas criações – o público é louco por silicone, independente do que o artista faz.

Tem silicone? Entopem teatros, viram alvos de revistas, vendem CDs, atiçam a curiosidade das massas. É incontestável a atração que esse plástico sofisticado exerce nas pessoas no Brasil, qualquer idiota siliconada é elevada à condição de musa pelos órgãos de imprensa, alardeia sua “arte” em programas dominicais, eleva sua conta bancária em valores multiplicados em relação ao que gastaram com os mililitros de silicone, arrastam multidões, independem de verbas públicas para fazer cultura.  

Juro que não estou sendo irônico sou a favor, penso que o silicone está aí para nos promover, iluminar o que chamamos os “áridos caminhos da cultura”, resolver de vez a dificuldade de promover CDs, vender livros, atrair público aos cinemas e teatros, ganhar espaços nos segundos cadernos, galgar as coluninhas de fofocas televisivas e outras glórias.

Com uma mínima quantidade do produto injetado em alguma parte estratégica do corpo e fartamente noticiado, claro, um escritor não teria mais que fazer esforço para convidar pessoas e vender livros nos seus lançamentos – o silicone faria o milagre.

Todos os cantores goianos, cotizados, aplicariam litros divulgados com antecedência e já estariam garantidos vários shows com lotação esgotada; espetáculos teatrais também se beneficiariam dessa cirurgia simples para convencerem os espectadores de que um artista é tanto mais importante e atraente quanto a quantidade de silicone que consegue injetar na sua embalagem ambulante e assim, finalmente, o teatro alçaria vôo nesse Estado onde as águias siliconadas que vêm de fora teriam competidores à altura. Tão simples.

Pintores posariam ao lado de suas obras, inflados e inflamados de recentes e criativas aplicações em alguma parte de seus corpos, esses sim, transformados na própria obra de arte.  Quem não quereria ver esta “performance” moderníssima?

Em tempos bicudos vale qualquer coisa para atrair a atenção das massas e chega a ser irrisório o fato de que tenham sido pessoas tão tolas que nos deram a dica do que deveríamos ter feito há muito tempo. Siliconadas são pessoas sábias disfarçadas de gente burra para não despertar suspeitas.

Como explicar que artistas, verdadeiras antenas do mundo, não perceberam isso antes?! Só mesmo por preconceito, diga-se de passagem, coisa de intelectuais invejosos sem coragem de encarar até mesmo uma simples agulha de injeção, como o fazem tão corajosamente os famosos recheados por médicos ainda mais famosos. Sim, aplicar silicone e botox gera fama também pros médicos, é o efeito cascata.

É isso que falta ao interior do Brasil, às cidades médias como Goiânia que adoram cultuar, para além do silicone, pessoas que vêm de fora. Está aí a segunda sugestão para driblar a crise cultural: sair de Goiás, virar um artista “de fora”. É uma equação muito simples e observável a olho nu, basta um goiano sair daqui por alguns meses para viver em São Paulo ou Rio para, quando voltar, ser paparicado e incensado por jornalistas deslumbrados com sua coragem de fazer sucesso lá fora. Tão chique quanto ter silicone espalhado pelo corpo é goiano que vive fora de Goiás – transforma-se imediatamente em ícone da boa arte, paladino da cultura goiana a irradiar nosso progresso para o mundo. Uma cantora goiana que passou a vida aqui tentando cantar e gravar, enfrentando noites em bares com público distraído, fazendo serenatas em festinhas de aniversário, virou estrela luminosa com o simples toque cosmopolita de ir viver na Holanda com seu namorado. Se nunca foi notícia aqui, depois do advento holandês passou a ser freqüentadora assídua de colunas sociais goianas.

Silicone e fuga de sua terra, dois ingredientes poderosos para se fazer sucesso em Goiás.

Concordo que aplicar plástico no corpo pode ser menos dolorido que a constatação cruel de que só ausente da cidade, um artista consegue se tornar presente e motivar o público.

Se nenhum desses argumentos convencerem os artistas goianos, por falta de coragem de encarar uma seringa de injeção ou o desgosto de ter que viver fora de sua cidade, afirmo que a realidade está estampada em qualquer página de segundo caderno, em qualquer coluninha social ou bloco de entrevistas de algum telejornal daqui: o silicone e o auto-exílio parecem que são capazes de fazer com que uma pessoa preste enorme serviço de utilidade pública à cultura de seu Estado. E, afinal, o que interessa é parecer.

E, assim, ninguém sentirá falta do dinheiro que o governo não vai aplicar para fomentar a cultura e estamos conversados.

Pensando bem, que marketing pode ser mais poderoso que aplicar silicone e botox em cérebros atrofiados numa época dominada pelo marketing?

Nada, muito menos a arte.

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