Coronéis com patentes
O coronel Eugênio Lima e o major Sávio Praxedes sempre viveram às urras e turras. No tempo em que eles reinavam no lugar, as divisas territoriais eram marcadas e remarcadas ao sabor das circunstâncias políticas que revezavam entre um e outro. Eram cabras machos até dizer 'chega' e viviam na regra dali, com uma família de direito e filhos espalhados e sem pai, frutos da fortuita, desmesurada e intrépida cobiça da carne, principalmente a mais tenra, casos hoje, muitos deles, conhecidos como pedofilia. Mas que naqueles tempos eram tidos como sinônimo de macheza, virilidade e poder.
Zé Firmino, capanga de coronel Eugênio, pegou a empreitada de matar Ticiano, um dos cabras de major Sávio, por causa de um entrevero entre filhos dos seus senhores, onde um saiu derrotado com um tapa na cara a mais. Mortes eram constantes de um lado e do outro, como desconto de uma desavença, o que aumentava sempre mais a rixa entre os lados. A quizila era dividida entre gentes e espaços, mas a alguns locais, poucos, era facultada a pequena e, a bem dizer, remota convivência entre os lados.
Tudo era muito dividido e a rixa ninguém sabia quando aumentava ou diminuía, tamanha a desavença. Aconteceu até de Carlinhos, filho do coronel Eugênio Lima, emprenhar Margarida, filha do major Sávio Praxedes, e o rebuliço aumentou nas duas famílias e em ambos os lados. Os amantes tiveram de fugir de lá e iniciar vida nova e sofrida em outras plagas, criando o filho.
Certa feita tiveram de desenrolar uma perlenga política a sós, numa conversa previamente agendada pelo representante da Justiça e marcou-se o encontro para o território mais neutro possível, a igreja. Sem armas extras, senão as naturais do orgulho, foram introduzidos na sacristia, sob a enorme expectativa de muita gente de ambos os lados que para lá se dirigiu.
Já havia passado mais de hora e não se ouviu gritaria ou altercação. A apreensão do lado de fora aumentava, mas a conversa parece que adquiria um nível de muita educação e grande tranqüilidade. Duas horas e nada, a não ser a apreensão e a preocupação da platéia que, sem saber o que estava acontecendo lá dentro, se coçava de curiosidade e expectativa.
Duas horas e meia e nada. Ninguém, no entanto, tinha também autorização ou mesmo a ousadia de interferir. Depois de mais de três horas de expectativas e ansiedade, a porta da sacristia é meticulosa e fanhosamente aberta e de lá saem os dois chefões com aparência desgrenhada, amarfanhados e amarrotados, caminhando lentamente um ao lado do outro. A expectativa cresceu no meio da população, mas a única reação do coronel Eugênio Lima e do major Sávio Praxedes foi um murmurante e quase uníssono 'tudo bem' e cada um esgueirou-se pro seu lado.
Daquele dia em diante, os dois imprimiram um novo e benfazejo clima na relação pessoal e social, inaugurando uma fase que ficou conhecida em toda a região como 'o tempo do puro amor'.





