Com licença, isso é um assalto
O mundo já não anda mais violento. Ele parou mesmo, de vez, num estado de truculência ampla, total e irrestrita que assola todas as sociedades. Imagina se isso ia passar longe da chamada sociedade de consumo. A qualquer instante do dia, você e eu estamos sujeitos a uma abordagem desesperada.
- Todo mundo aí parado que ninguém se machuca!
Se isso acontece no semáforo, na fila do banco ou na rodoviária à noite, talvez ninguém mais estranhe. Agora, num supermercado cheio de senhoras, às oito horas da manhã...
- Isso é um assalto, meu filho?
- Não, vovó. É uma promoção de vendas. Mão na bolsa! MÃO NA BOLSA!
Pobres senhoras. Vítimas de mais um ardil cruel, arquitetado por engenhosos profissionais de planejamento.
- O plano é o seguinte, cambada. Vamos entrar discretamente, misturados aos consumidores. A equipe de promoção será dividida em duplas, cada uma posicionada em um ponto estratégico do estabelecimento. Ao meu sinal, um de nós anuncia o golpe e as duplas atacam as freguesas em grupos pequenos, positivo?
- Mas e se elas correrem?
- Não se preocupe. No horário da nossa ação, só sexagenários freqüentam o supermercado. Se ainda assim alguém fugir, tente aplicar um carrinho por trás.
Presa fácil, a clientela se submete à investida dos agentes sem qualquer resistência.
- A senhora já provou esse novo suco, provou?
- Não.
- Então vai provar agora – responde o agente, um segundo antes de atravancar a mulher pelo pescoço, apertar o seu nariz e enfiar-lhe o tal produto goela abaixo.
Tem também a ação-pegadinha das novas toalhas umedecidas. Um promotor aguarda a consumidora com uma torta cremosa nas mãos e começa a história.
- Já provou essa tortinha, senhora?
- Não.
- Então tó!
E manda o prato de massa mole na cara da criatura indefesa, como nas velhas comédias pastelão. Tudo para, em seguida, oferecer à desacorçoada dama uma amostra grátis da nova toalha umedecida descartável, criada com a mais alta tecnologia para limpar a sujeira que surge em momentos inesperados.
As abordagens estão cada vez mais variadas. Se o horário e o local da ação forem outros, com um público-alvo formado por pessoas mais fortes, jovens, dispostas a fugir do ataque ou partir para cima do agressor, a mecânica do contato muda por completo.
- O senhor gostaria de provar esse novo requeijão?
- Não, obrigado.
- Não mesmo? - insiste a promotora, enquanto alisa a lâmina de uma enorme faca.
Pouca gente não sucumbe de cara.
- Olha. O produto é bom, eu sei. Mas hoje não me interessa. Já jantei.
- O senhor tem certeza? Peço que reconsidere. Aliás, é melhor pedir do que roubar.
E o esforço é concluído, vitorioso.
Mas aí tem uma coisa: na reunião com o cliente para apresentar os resultados, o diretor de marketing discorda, grita, xinga e decreta que as vendas estão muito, mas muito abaixo do que ele esperava.
- Nossa agência está fazendo de tudo, doutor. O que mais podemos inventar?
- Sei lá, pô! Tentem uma abordagem mais agressiva.





