Carnavalha
“Ô jardineira por que está tão triste /mas o que foi que aconteceu?”. Uma enorme massa disforme se revolvia no pequeno sofá-cama. Sábado de carnaval, dez da manhã. E aquele ectoplasma (coincidência ou não, a TV estava ligada justamente no desenho dos Caça-fantasmas) se mexia no sofá, procurando não escutar as marchinhas de carnaval que se repetiam todos os anos e que acabara de acordá-lo.
“Foi a Camélia que caiu do galho /deu dois suspiros /e depois morreu”. Trezentos e setenta e oito kilos, o rei Momo mais pesado e simpático do Rio de Janeiro. Mas hoje era sábado de carnaval e seu reinado se esfarinhara havia anos. Há anos que não atirava pó, farinha nos foliões cariocas.
Tudo começou na repartição daquele bendito jornal. Ele então com os seus cento e cinqüenta e dois kilinhos. Saiu direto da seção do horóscopo para as ruas do carnaval carioca. Foi eleito, por unanimidade, pela redação do jornal, o mais elegante rei Momo do Rio. Pedia licença até para atirar farinha.
“Vem jardineira /vem meu amor”. Tinha então vinte anos quando começou a estagiar no “Correio do Brasil”. Era um menino, um menino bobo e gordo. O sorriso mais alvo do carnaval carioca. Seus melhores anos. Duas décadas e meia de coroa, cetro e muito samba no pé. Vinte e cinco anos onde alegria e obesidade mórbida sambavam na “Marques de Sapucaí”.
“Não fique triste /que esse mundo é todo seu”. Engordava a cada reinado. Dos cento e cinqüenta e dois kilos do primeiro ano de Momo aos trezentos e vinte e oito do último ano. O ano mais trágico de sua vida. O ano em que foi flagrado enrabando a rainha do carnaval carioca. Onde estava com a cabeça? Melhor! Por que fora enfiar seu pinto na bunda da rainha? Tanto lugar para acomodar seu piu-piu, seu pintinho blasé, que, a bem da verdade, nem tinha certeza onde se metia.
“Tu és muito mais bonita que a Camélia que morreu”. Seus trezentos e vinte e oito kilos o impediam de ver seu piu-piu. Sua gorda mão pegava em seu pinto e ele lhe parecia de brinquedo. Fora por isso que a bela e jovem rainha do carnaval não resistira aquele alvo sorriso, aquele pintinho da Estrela. E já na quarta-feira de cinzas, não respeitaram nem as cinzas, sua foto enrabando a rainha estampavam todas as bancas de revistas do país. A rainha, só ganhou com isso, era seu primeiro reinado. Agora ele, o rei Momo mais festejado do Rio, em seu vigésimo quinto ano de rei, encerrava ali sua carreira. A cidade não o perdoara e jamais o perdoaria.
“Ô lalaôôôôô /Atravessei o deserto do Saara”. Manhã de sábado de carnaval e nosso querido Momo teria que aturar até quinta todas as possíveis marchinhas carnavalescas do país. “O sol estava quente e queimou a minha cara”. Esse era o sexto ano seguido que seu vizinho, um magro e simpático velhinho, lhe torrava o saco (de brinquedo) com aquelas infernais marchinhas. “Chegou, a turma do funil”. Trezentos e setenta e oito kilos se levantam com dificuldade do sofá-cama e se olham no espelho. Vêem apenas massa disforme, uma geléia de ectoplasma, de seu alvo sorriso restou somente uma podridão amarela.
“Todo mundo bebe”. Que mal há em enrabar, com um brinquedinho inofensivo, o rabo de uma pobre e triste rainha de um carnaval carioca qualquer? “Mas ninguém dorme no ponto”. Afinal, a diferença entre cagar e dar o cu é meramente vetorial. “Ninguém dorme no ponto!”. Tirou da gaveta a velha e enferrujada navalha que herdou do pai barbeiro e passou com força no pulso esquerdo. “Se você pensa que cachaça é água”. A velha, enferrujada e cega navalha só deixou em seu pulso uma marca vermelha. “Cachaça não é água não!”. Passou novamente com mais força...





