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POR EM 19/08/2008 ÀS 03:25 PM

Brincadeira de mau gosto

publicado em

Hoje começa a propaganda eleitoral em todo o Brasil e aqui em Goiás vamos ouvir falar muito de Jorge Alfaiate, Tim da Retífica, Lindomar Pedreiro, Gordin do Carnágoiânia, Floripes Costureira, Chicão do Buteco, Deusdete da Van Azul, Erondina da Feira, Clarisval da Loteria, Seu Santos da Padaria, Deolindo Mecânico, Zé Marreteiro, Teo da Boléia, Lila da Avon, Rosiron da Praça Calixto, Marizete Cabeleireira, Juvenil do seu Delfonso, Alípio da Vicentina, Tiao Sukita, Manezim do Verdurão, Nenê do Picolé, Junim do Mercado, Vanderlino do Cinema, Tilde do Caminhão, Neuza do Quartel, Luzia Enfermeira, Eli da Rua da Grota, Sobral Tapeceiro, Lucivaldo da Borracharia, Nenzin da Melancia...e mais uma infinidade de nomes como esses que tive a paciência de recolher através de telefonemas disparados às dezenas de municípios goianos onde vai haver eleição para vereador e prefeito. O leitor votaria em algum desses entendidos em política para legislar na sua cidade? Pois saiba, repito, que são algumas das opções que o povo tem para fazer valer seus direitos em quatro anos de mandato.
 
Sei não, mas diante dessa brincadeira de mau gosto resta pouco a comentar. Mesmo assim elocubremos: pelas profissões acopladas aos primeiros nomes de cada um, desconfia-se que o salário de vereador que esses homens e mulheres desejam é apenas para complementar suas rendas pessoais advindas das borracharias, das retíficas, das padarias, nunca por algum interesse em servir o povo das cidades onde forem eleitos. Difícil acreditar que tenham a mais mínima noção do que seja legislar, que um vereador deve saber interpretar leis ou qualquer outra atribuição do mandato, tratam de aproveitar uma certa popularidade para chegar onde imaginam que vão se dar bem. Todos os dias podem assistir nos noticiários das TVs outras centenas de políticos se dando bem em muitos dígitos, impunemente e se sentem no direito de fazer o mesmo, isto é, carreira política, aparecendo nos jornais, sendo tratados como excelências por seus pares.
 
Devemos considerar que para alguns pode até nem ser assim, senão incorreremos num pré-conceito, mas que essa hipótese é tentadora, lá isso é.
 
Ou será que alguém, em sã consciência, acredita mesmo que um homem chamado Gordin do Carnágoiânia possa ter condições de representar uma cidade e por ela fazer alguma coisa que não seja um bom agito carnavalesco? Tivesse esse senhor um grau mínimo de instrução além de saber ler e escrever e ele mesmo não se apresentaria numa eleição com esse nome. E a Deusdete da Van Azul? Segundo me informei esta senhora a partir de 1 de agosto decidiu oferecer gratuitamente sua Van azul ao povo para levar quem quiser de um lado a outro da cidadezinha onde pretende ser vereadora, até organiza piqueniques angariando a simpatia e os votos necessários à sua subida ao pódio da Câmara. E numa cidade bem perto da capital o tal Manezim do Verdurão anda distribuindo gratuitamente a todo o povo umas levas muito gostosas de abacaxis pérola. Segundo a informação o povo está entusiasmado com ele, vai ganhar.
 
Um capitalista nato: investe uns abacaxis agora pra ganhar muito mais à frente.
 
Uma maravilha digna da ficção do prefeito Odorico Paraguassu. Perigoso, porque nesse caso não se trata de ficção, mas de realidade que acaba interferindo na vida de muitos. Candidatar-se é um direito de todos e convencer o povo pode até ser uma questão de estratégia, cada um elabora a sua, quem não tem marqueteiro vai de Van mesmo, quem há de condenar? E condenar o que?
 
Também é direito de todos estudar numa universidade federal, mas pra isso têm de passar por uma prova de competência.
 
Uma prova assim não seria útil nas eleições?
 
Quando mostrei a alguns amigos o resultado das minhas pesquisas em muitas cidades goianas que revelaram os nomes citados, uns riram, outros acharam que era brincadeira, um ou outro acreditava que nomes assim não têm a menor chance de serem eleitos, mas nenhum sabia como se comportar diante da absurda relação.
 
Afinal, ter nome bonito e pomposo não é sinônimo de ética e competência, fosse assim...fosse assim...bom, deixa para lá.
 
Desejemos que daqui a quatro anos esses homens e mulheres da borracharia, da retífica, da tapeçaria, da loteria, do caminhão, possam fazer melhores as cidades que os elegeram e que não se percam pelo caminho, acusados de alguma falcatrua que imite os modelos das grandes que vêem na TV.
 
Certo é que muitos tratarão de guardar-o-pito, ficar mudo, não interferir em nada e receber o sempre gordo salário que lhes é devido; ou ainda outros que, aderindo a algum político mais poderoso, garantirão uma vantagenzinha a mais para fazerem papel de zumbis. Este é o ancestral jogo do “quem tem a boca maior engole o outro”.
 
E pensar que homens como o Jorge Alfaiate, o Lindomar Pedreiro, a Floripes Costureira, o Deolindo Mecânico, a Luzia Enfermeira e tantos outros, bem poderiam se contentar em ser grandes e competentes nos seus respectivos ofícios, engrandecendo suas cidades sem se expor ao ridículo ou enganando pessoas.
 
Acho que os merecemos.
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