POR HELVERTON BAIANO
EM 19/08/2008 ÀS 11:02 AM
Bonança
publicado em arquivo
Todos foram criados na mais lauta bonança e nunca tiveram precisão de um nadinha que não fossem satisfeitos pelos teres e haveres que o dinheiro proporcionava. O pai se preocupava em ganhar dinheiro e a mãe não trambelhava bem com a paciência e a benevolência que exigia a criação dos filhos e tutelava para amas e empregadas, que por seu turno viviam de arrego na família.
Os doze filhos e filhas, entre pequenos e já criados, se fartavam, mas começavam o desentendimento a partir de um bife mais suculento de um ou de outra na hora do almoço. Não porque não tivessem de sobra, mas mais pela indaga de um não conseguir ver o outro numa situação melhor, mesmo na mais ínfima e torpe das competições.
Todos foram muito bem encaminhados nos estudos e na vida, não faltando quem lhes servisse, num acompanhamento de filhinhos de papai. Mas mesmo com tanto, as rusgas apareciam e cresciam entre eles, de modo que quase ninguém, que conhecia e convivia, entendia bem o porquê daquilo, já que todos tinham de um tudo. E ali tanta gente vivia bem com quase nada. Parecia que um inferno se instalava na vida dos que tinham muito.
Já bem criados, uns e outros formados, ninguém conseguia tino para prosseguir numa vida mais ou menos, parece que atribulados pelo despautério de uma criação dondoca. Esse tipo de criação desencaminha mais do que caminha. O pai vivia de atochar dinheiro num e noutro para ver se conseguiam um rumo melhor. Dos doze, apenas uns dois, mais atilados, conseguiam, às custas de um casamento com gente de tino, levantar a vida e dar uma perspectiva de melhora. A maior parte era catando para comer ou quando se aprumava era às custas do dinheiro do velho e com uma formatura fornida e mantida por ele, muitas vezes às expensas de uma sinecura pública.
Como todo saco tem um fundo, o dinheiro do papai acabou se desmilingüindo de tanto arranjar pra um e outro filho e pra um e outro genro que se abancou e aproveitava da mamata e depois cascava fora. Nos dias difíceis da velhice, quando o dinheiro já não dava, ninguém aparecia com uma merrequinha sequer para ajudar os velhos. Por artes do mal, ainda restavam três casas e uns lotes que de nada adiantavam, porque não rendiam. Ao contrário, davam era mais despesa, porque as casas serviam aos filhos e o terreno ao ITU.
Quase na miséria, morreram os pais com diferença de um mês e aí foi que começou a bagunça nessa família que já nasceu atravessada. O início foi com o disse-me-disse, o leva-e-traz, um querendo mais que o outro, fazendo conta de uma nesga de casa e de terra, até o ponto de o caçula e o mais velho se pegarem nos tapas. Um lá do meio sentiu as dores do mais velho e passou fogo no caçula, que foi parar no beleléu do inferno. Uma filha virou prostituta, outra vive de favor e pedindo a um e outro. Uma penúria imensa foi atacando aos poucos e a palavra dó resume um pouco do sentimento dos que viram essa família no tempo da bonança.





