Boca loca
Responda aí dom Aurélio: depois de ter terminado de ler meu conto achas que eu sou muito louco?
Respondo a você sir Maurílio: “Sem a loucura o que é o homem senão uma besta sadia?” (Fernando Pessoa).
Mas nesse caso, brother, dom Aurélio acredita que podes identificar alguma identidade entre nós?
Não sei querido her Maurílio, a única coisa que eu sei é que “Eu só serei eu na medida em que tu fores tu” (Heideger)
Admiro muito as coisas que dizes, hermano Aurélio, mas só vou enviar outro conto meu pra leres quanto sentir que criei algo mais absoluto.
Nada disso querido dom, Maurílio, escrevendo como escreves já devias saber que “O absoluto é aquele momento em que alguma coisa alcança a sua máxima profundidade, o seu máximo sentido, deixando, então, de ser interessante”. (Júlio Cortazar), e eu sei que não é isso que queres hermano.
Não é mesmo, sir, dom, Aurélio porque vivendo aqui tão distante do que se considera civilização eu quero mesmo é atingir a fortuna de escrever e ser lido e a fortuna de angariar fundos através da minha agência de publicidade e preparado para ambas porque “Quando a fortuna nos surpreende e nos dá ilustre posto, sem que a ele cheguemos por degraus, ou sem que a ele nos tenhamos elevado com as nossas esperanças, é quase impossível ali ficarmos bem e parecermos dignos de o ocupar, já nos ensinou o mestre (La Rochefoucaud), não achas?
Perfeito dom Maurílio tem toda razão, me lembrei agora de que Cortazar certa ocasião andava pela rue de vie em Paris e deu de cara com La Rochefoucaud que he perguntou: porque não comes maçâs no café da manhã em vez de pêras, são frutas mais humildes apesar de que nessas coisas não se deve ter humildade como bem ensinou outro mestre:
“O verme pisado encolhe-se. É a astúcia. Diminui, assim, a probabilidade de ser novamente pisado. E isso, na língua da moral, chama-se humildade” (Friedrich Nietzsche) como você bem deve saber já que, imagino, é também grande leitor de Nietzsche.
Não brother, her Aurélio, não conhecia essa conversa cotidiana entre os dois gênios e lhe informo que não sou um mero leitor de Nietzsche, sou absolutamente identificado com ele a ponto de sofrer quase que diariamente as mesmas cólicas que o atacavam com freqüência e acreditar que é minha a frase dele:“De que serve um livro que não saiba levar-nos para além de todos os livros?”
Nisso discordo frontalmente de Nietzsche, frater, dom , lord Maurílio porque não sei ainda hoje, mesmo sendo escritor, pra que serve um livro. Será que é para nos elevar ao sublime?
Mas “o que é o sublime? Parece que ninguém o definiu. É uma figura? Nasce das figuras de estilo ou pelo menos de algumas figuras?
O sublime aparece em todo o gênero de estilos, ou existe apenas nos assuntos elevados? (La Bruyère)
Como vê ainda estou em busca do sublime e do belo nas coisas que leio e escrevo.
Mas meu caro her, sir, dom Aurélio “O belo é, essencialmente, o espiritual que se exterioriza materialmente e se apresenta ao ser material” (Hegel)
Mais uma vez discordo e desta vez do Hegel e de ti porque acredito que “O belo, em arte e literatura é sempre verdadeiro: mas nem sempre o verdadeiro é belo” (Ernest Rietshel)
Pois é, dom, sir Maurílio há certa verdade nisso porque “O pior é que a beleza é tão misteriosa quão terrível. É uma luta entre Deus e o demônio, e o campo de batalha é o coração do homem”.(Dostoievski)
Será dom Aurélio? Será? Chupa essa manga.
Não sei dom hermano Maurílio, o que eu sei é que “É muito melhor amar prudentemente, não há dúvida. Mas amar doidamente é sempre melhor do que ser incapaz de amar” (Woody Allen)
Concordas, hermano?
Claro que concordo, considero esse cara muito melhor que Dostoievski, brother, hermano, dom Aurélio. O que ele fala e faz pra mim é lei.
Estás falando sério, brother, dom??
Eu também considero isso desde criancinha. Engula esse caroço.
Então nisso estamos em concordância, não é dom?
Claro, é nossa verdade em comum. “A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas” (Júlio Cortazar). Só posso rebater esta bela frase do bardo argentino com esta do bardo francês: “Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo: fazem nosso esplendor, é verdade, mas tão somente à custa de nosso desgaste” (A. Gide)
Pirastes, dom, brother, hermano? Eu estava falando de Woody Allen e Cortazar e me vens com frase sem sentido? Fala sério, dom...
Sem sentido sister, brother, dom? Pelo que vejo não aprendeste nada com o nosso maior escritor: “Cada um fala o que quer, o que conta é a dimensão da boca...” (Paulo Coelho)
Paulo Coelho, não, me poupa! Não tens mais o que fazer, não, dom Maurílio, ficas o dia todo aqui citando frases dos outros, é?
Até de escritores de segunda?
E tu, sir Aurélio, que respondes a todas as questões com citações copiadas de livros, também dedicas seu tempo a respostas como essas?
“O resto é silêncio” (Voltaire)
Só volto a falar contigo na próxima semana.
Vade retro sir satanás! (Jesus Cristo)





