POR LAURO MARQUES
EM 21/06/2008 ÀS 03:44 PM
Balada para um morto. Interlúdio (1)
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INTERLÚDIO (1) (DO AMOR)
LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio 2-Parte 3-Parte 2-Interlúdio 1
PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio 2-Parte 3-Parte 2-Interlúdio 1
I-BARCA VOGANTE
É chegada a estação do desânimo.
Teria o amor,
essa barca vogante,
finalmente me aniquilado?
(Quilha tão fina corta o lago —
e estremece a superfície.)
II-PERGUNTA
Quereria por fim todas as minhas dúvidas,
entregar-me de vez a essa infelicidade —
os corpos já lacerados,
as tristes histórias,
na loucura e no amor fatigados —
ou seria melhor sofrer
no peito as dores de um parto
não realizado?
(Ó deuses! Demência! Diabo!
Ainda que fosse possível aplacar sua ira -
a ela fosse-me dado
o menor sentimento de culpa!)
Se ao menos fossem felizes!
Que importância teriam para mim,
todos os sonhos e pesadelos do mundo?
Se fóssemos PEDRA,
quem tiraria de nossas costas
o LIMO?
E sustentar um peso impossível...
De todas as nossas fraquezas, a pior das piores.
III-A PRIMAVERA
Vê bem,
a primavera trouxe
os pássaros dardejantes
do Norte.
Envolta em soluços,
a deusa desnuda,
fria e carnal,
lúcida como o vento,
e de eternos abraços,
deu-me a palma da mão,
que beijei com hesitação.
***
—Ah, não tivesse sangue em minhas veias,
mataria tua sede, eterna traidora!
Louca, insolente!
Bebe tua água envenenada,
dá-me tua boca,
rogo-lhe,
leva logo daqui
esse pedaço de carne inútil!
***
—Ah, deusa grega,
miserável romana,
filha bastarda do Norte
Deixa-me!
Lavar minha carne
nesses teus lábios imundos!
IV-A MUSA
E de tão pequenina que era,
imperceptível mesmo,
e de olhos profundos,
estreitos,
e coberta de afagos,
veio até aqui e encarou-me.
Dei-lhe o nome de musa.
Acorrei, acorrei aos milhares!
...E lançaram-me olhares de ódio e ingratidão.
Deitaram-me numa cama devidamente preparada
para conter a minha loucura.
Ataram-me os pulsos e as pernas,
amordaçaram-me a boca e olhos
vendaram-me.
Fizeram correr incisões e ventosas
o meu corpo todo.
Por fim julgaram-me CULPADO,
o causador de todos os males,
que a doença propagara.
E fui condenado.
—Mas ainda eu respirava quando baixaram o caixão!
E o meu peito ainda batia
—mais forte!—
e um só pensamento meu infectou toda a terra,
quando finalmente me deixaram,
meu corpo em direção à sepultura.
Cuspiram-me o cadáver —o amor!
O amor estava sendo preparado
—deram-me o amor!
Aí então me tornei a doença que tanto temiam.
V-A LOUCA
A bela louca em seu vestido de sedas,
veio até mim com suas garras
e seu olhar de morcego
arrastando asas
por sob sua cabeleira loura e pálida,
a louca,
sorriu-me.
—Doze catedrais de aço em Paris verteram lágrimas—
A paixão rompeu os laços de misericórdia.
Rumores alados puseram-se em fuga.
VI-DEMÔNIOS
Há um demônio esperando por cada amanhecer,
se a noite não lhe foi pródiga &
há um demônio dentro de cada um de nós
a vir
à tona.
VII-SONETO BAUDELAIRIANO
(O POSSESSO)
Na noite em que eu insone,
anjo, quanto mais doce, infernal,
a ti, quando invoquei teu nome,
e vi surgir, do tédio, que é abissal,
ó musa dos enfermos, a inspiração
que emprestas às almas condenadas,
o vinho do esquecimento, o alcatrão
de tuas saias perfumadas,
incendiaram-me de vez as narinas.
E demônios como aves de rapina,
o meu peito vieram assaltar.
E noite adentro fui levado,
presa desse amor fanado,
Belzebuth a te adorar!
VIII-EU FRAGMENTADO
EU,
Moribundo feto de vontades
incubadoras
De espírito indelével e falho
Amante das cousas não duradouras
Aos quatro elementos me espalho:
LÍNGUA LAMBE A NAVALHA
CARNE ROMPE OS TENDÕES
PEITO NÃO CABE NA MALHA
NEURÔNIOS DESATAM EMOÇÕES!
Rompimento craniano do acaso
Morbidez inveterada dos traços
Glorificação dos termos da loucura
Que à noite torna espuma
aliterada e fútil
cobre de terra, excessos, inútil
Galga os montes de escória
Roga dos deuses a memória
Come o esterco dos dias
Rouba de si mesmo o silêncio.





