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POR EM 26/06/2008 ÀS 10:30 AM

Balada para um morto ( Canto Augural )

publicado em

PARTE 1

LIVRO PÓSTUMO

PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio 2-Parte 3-Parte 2-Interlúdio 1-Parte 1
 
 
“Devemos entrar na morte como quem entra numa festa.”
 
Jorge Luis Borges
 
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.”
 
            Álvaro de Campos
 
 
Intro
 
Para mim basta
O brilho das coisas vencidas.
O belo não me agrada mais.
Já vi mais palavras “coloridas”,
Do que poderia suportar;
A luz que me alumia,
O sol que me enfastia...
Entrego a ti as tuas fadas.
Deixa-me morrer em paz
Com meus demônios!
 
 
I-ESCURIDÃO DE PASTO
 
Escuridão de pasto que volveia os sentidos
Vento crepuscular da aurora da noite
Torvelinho de emoções sentidas;
Encharca tua boca leprosa de vinho
Dize aos nove mundos tua prece:
 
“Que venha o mar, tenho sede
Sua volúpia não me arrastará
Que venha o sol, tenho frio
Sua chama não vai me queimar
Hoje, dos quatro elementos,
Quero me fartar!”
 
O olho do mundo
Um gigante descarnado de luz
O céu prepara seu próprio funeral
As nuvens estão vestidas de vermelho
Daqui a pouco, a noite se cobrirá de luto
“Impressionante cotejo fúnebre
São as nuvens que passam
Carregadas de chuva
E de negrume!”
 
Alegra-te
Hoje, da carne de teu pescoço,
Faremos um almoço
Das vísceras desse animal morto.
 
 
II-FOGO DE MORTEIRO
 
Fogo de morteiro.
Pranto que não se afoga:
 
“A paisagem ocre está mudada.
Vi metáforas coloridas subindo
Um céu sem vida.”
 
Indiferente às estrelas brilha
um descampado de natureza morta.
 
 
III-EU QUIS O AÇO
 
Eu quis o aço,
o gosto áspero dos metais
 
Não me foi dada a primavera.
 
“Põe teu fêmur sobre a pilha e incinera!”
            —Gritei
 
            (Cega pela luz a faca enterrada
                        no peito
             à noite sangram os girassóis)
 
            Como se fosse a aurora,
                        a luz que ilumina o bosque
                                   o homem
                                               A G I G A N T O U – S E
                                                          
E perdeu a forma
 
 
O orvalho esquecido das horas tardou
E a cigarra cantou os versos de outrora.
 
 
IV-PEIXE FORA D’ÁGUA
 
Carne exposta ao vento e ao sol, a secar.
Hirto de pavor, um surto de dor, que me cega o peito
e chamusca a alma.
Peixe fora d’água, dilacera-me as guelras
A ânsia vã de respirar.
 
 
V-CONVULSÃO DE ALMA
 
Convulsão de alma.
O espírito está distorcido e abandonado.
Em águas turvas se banham os condenados.
E sua essência é espuma de um mar salgado.
 
“Um bando de éguas azuis passam trotando
no meu crânio repleto de pensamentos vazios.
Cego das coisas, eu me avizinho.”
 
A alma em pânico pede socorro e sai rasgando
as entranhas —na verdade se agarra.
Um fio de sangue lhe aflora à boca pálida.
Apodera-se de si um terror inominável.
Sinapse de neurônios desarticulados, suas têmporas latejam
 
(Segue uma série de movimentos em falso)
 
O ocaso entregue aos deuses da loucura e do cansaço,
Um grito se estampa na cara
 
E numa golfada de sangue, escancara:
 
“Misto de oceano e búfalo o corpo se afoga em lágrimas.”
 
 
VI-A PESTE
 
Fogo descendo da terra ao mar.
Cobriu-se de cinza e sombra.
Morte! Terror! Destruição! A peste que se espalha...
 
—“Veste tua mortalha homem comum!”
O grito que se ouve por noites....
Prisão! Açoite! Espírito pagão! Infâmia!
Debela-se em vão a canalha...
Ainda ufana-se de ti pobre e prostrado?
Humano demasiado, assiste à própria desonra...
AOS DEUSES A QUEM PROCLAMA,
ERGUE A ESPADA E DESCE O MACHADO!
 
Lamento ignorado, prossegue-se a cerimônia.
 
 
VII-SUS
 
Dor implacável!
Junte-se a mim os fracos,
os que perderam a razão!
Anda! Levanta os braços! Caminha moirão!
Que sabe de ti, estúpido palhaço, incalculável fiasco,
rosna cachorro, com sofreguidão!
Vai-te! Come teu pão!
Que amanhã lhe falta...
 
E vê se não lhe engasga a emoção!
 
 
VIII-REVELAÇÕES
 
...E eis que vejo-me inteiro.
Desprovido de carne.
Feridas entreabertas e o sussurrar das veias e artérias
Pulsando sangue.
 
Toscos os corpos na luta,
pouco a pouco acham-se cansados.
Os aparelhos incinerados e dão por perdida a batalha:
 
“Por que os sons que ouvia ’inda agora,
chegam já tão tarde aos meus ouvidos debilitados?
Onde estão as fadas e os sinos,
que cercavam condenados?
 
“Havia campos, havia mares,
de tão fulgurosa existência...
Que há agora que se compare,
senão desertos, demônios insulares?”
 
 
IX-A ALMA
 
Prisão de incontáveis desígnios,
a alma, encharcada de tédio,
sofre muito para chegar
num ponto qualquer.
 
Eqüidistante das estrelas.
 
 
X-EX MACHINA
 
Abrem-se os céus em desuso
Uma carruagem enferrujada de anjos
Longa linha que separa e une
Rasgões de sangue pele carne & ossos
 
 
XI-DESCONTINUIDADE
 
“Eis-me aqui reunido à turba,
dos que me olham com ares de enfado.
Sou forte, sou alto,
minha bandeira tremula em chamas
—e dessespero-me!”
 
—Preces contínuas ao inferno—
 
—Sangue de Cristo derramado—
 
“Viajante que passa!
És o sol!
Quero vê-lo engolfado em sombras,
o corpo coberto de manchas,
gritar meu nome!”
 
—“Descontinuidade!”-
 
Clama aos ares em fúria
 
—Sonsa pele que irá por toda parte-
 
—Paredes de aço amareladas-
 
Luta contra si mesmo... e sem alma...
 
“Uma bandeja de prata!
Ofereço-lhes o momento do meu enfastio.”
 
 
XII-A CARNIFICINA
 
(A cerimônia das luzes,
corpos em profusão ao som da
sinfonia dos ruídos indizíveis
—AO SOL.
 
Comunico-lhes o terror
—O PÂNICO
 
Deuses imaculados sobre a mesa
 
A muralha dos tempos perdidos...
 
Ergo a minha cabeça e assisto
 
A CARNIFICINA).
 
 
XIII-CRESCE
 
Longo caudal,
Pira funerária ou fúria —
Cresce.
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