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POR EM 15/09/2008 ÀS 06:53 PM

Assombrações

publicado em


Quem será que construiu aquele elefante colorido que haveria de ser um dia um centro cultural desenhado pelo Niemeyer? Os nomes dos políticos já estão registrados e des-eternizados nalguma daquelas placas de bronze que eles adoram descerrar com ares graves e compenetrados.

Disso se sabe.

Mas não foram eles que assentaram tijolo por tijolo, placa a placa de concreto, milhões de pinceladas vermelhas e brancas, sol a sol, durante muitos meses.

Quem serão os operários que ergueram aquele monumento ainda inútil sem nem saberem a que de fato se destinava? Será que um dia vai funcionar? E os que sabiam o que construíam por lerem nas placas da construção terão algum dia o direito, o figurino e o prazer de assistir um espetáculo nas dependências de sua obra, caso ela funcione algum dia?

Retirarão algum livro das estantes da biblioteca? Lá tem biblioteca?

Quem serão essas centenas de homens anônimos, remunerados com salário mínimo e absolutamente desconsiderados no final da equação?

Um centro de cultura não é para eles, mesmo que teoricamente devesse ser.

E o que dizer dessas imensas mansões dos condomínios horizontais que pedreiros tão simples levantam e que só conhecem por dentro antes de serem habitadas por seus donos, orgulhosos de as terem construído?

E as pontes, viadutos e amplas estradas asfaltadas que os governantes exibem como troféus de suas realizações, quantos litros de suor, quantas marmitas frias, quantos radinhos de pilha, quantas pilhas, quantos músculos distendidos e calos nas mãos custaram aos seus verdadeiros construtores? 

Só cruzarão essas obras de engenharia moderna a bordo das conduções coletivas ou de algum pau-velho ano 75.

Nas placas de bronze não caberiam seus nomes, eles são a leva, a horda, a escória que erguem palácios, catedrais, templos inúteis de cultura, mansões, estradas, pontes e são milhares, todos desprovidos de rosto e personalidade social.

Nos dias de inaugurações, refletores e glórias sobre os poucos que levam a fama, esses homens-números estão recolhidos em casebres e barracos comendo o bró grosseiro e honesto do seu arroz-com-feijão. Assistem pelas TVs suas obras iluminadas e incensadas pelos discursos oficiais e nem citados são na lista de meros agradecimentos genéricos.

Anos e anos se passam, os tais governantes dão lugar a outros, se revezam, caem no ostracismo, apesar das placas de bronze – os operários é que são sempre os mesmos só mudam de nome. Morrem anônimos e são substituídos por outras hordas mais anônimas, sempre invisíveis, meros assombrações.

Chega a ser impensável, por exemplo, que as inaugurações dos centros culturais fossem feitas com grandes espetáculos destinados às centenas desses que trabalharam nas obras durante tanto tempo. Uma platéia lotada de operários que jamais terão uma segunda chance de voltar ali depois. Muito melhor do que encher a pança dos infalíveis e indefectíveis convidados de sempre, aqueles velhos comedores de quibinhos gordurosos e vinho barato das solenidades oficiais.

Isso, sim, seria uma notícia original a ser oferecida aos repórteres das coberturas dos segundos cadernos dos jornais.

Que fio tênue liga a vida dessas pessoas às obras grandiosas que construíram?

Não são perguntas novas nem originais, Bertolt Brecht já se perguntava num poema dos anos 50 quem construiu as pirâmides, as muralhas da China, a Catedral de Nôtre Dame, os estupendos portais de Tebas, os palácios, as sete maravilhas do mundo. Os nomes que ficaram para a história são os dos faraós, dos imperadores, presidentes, não se faz nenhuma referência aos milhares de seres invisíveis que elevaram aos céus esses monumentos.

Gosto de observar, quando vou ao circo, aqueles homens de uniformes sujos na lida custosa de montar, desmontar e remontar o picadeiro, as jaulas de ferro e os trapézios para os artistas entrarem vestidos de lamês e purpurinas e brilhar.

Presto atenções neles tão ágeis, responsáveis e precisos, o espetáculo depende deles, mas não são para eles os aplausos.

Nada disso é apenas uma injustiça histórica e social, é uma injustiça mais profunda, uma injustiça pertencente à outra área das relações humanas, talvez até filosófica, se é que isso existe.

Um artigo modesto e solitário não vai restabelecer as coisas, mas pode servir pra que pensemos juntos no assunto e o coloquemos de novo na pauta.

Afinal, quem poderia, além dos artistas e intelectuais desse Estado, esses chatos sempre dispostos a muita discussão e pouca ação, erguer a voz contra esse abuso incontido dos que nos governam? Escrevi para um jornal um artigo a respeito do tema e fui literalmente censurado.

Nota- Estive recentemente no que deveria ser o tal centro cultural Oscar Niemeyer e comprovei o que um jornal noticiou sem alarde: tudo está se esfacelando, infiltrações se acumulam, cheiro de mofo, sensação de abandono e a pior sensação que é a de que um governo inteiro desperdiçou muitos milhões do dinheiro dos goianos para erguer uma obra de mentirinha, inaugurá-la às pressas para capitalizar votos e abandoná-la no dia seguinte. Está interditada por falta de pagamento às empreiteiras e, repito, nenhum artista, intelectual ou jornalista ousa levantar a lebre. Os primeiros estão envolvidos com seu próprio umbigo, os segundos preferem filosofar, citar frases de autores famosos e discutir quem é melhor na literatura clássica mundial.

Os últimos adoram mesmo é fazer matérias sobre as belezas do ypê amarelo nesta época do ano.

É cada um por si e Deus contra. 

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