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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:21 PM

As minorias têm sempre razão

publicado em


Sou remanescente dos utópicos dos anos 70, aqueles que acreditavam que iam mudar o mundo com suas idéias e a prática delas. Digo remanescente porque até hoje acredito que o meu teatro pode incentivar as pessoas a pensar, desejar e trabalhar para um mundo melhor. Tem coisa mais utópica que fazer teatro num país onde os governos destinam verbas para a cultura duas vezes menor do que as que destinam aos carros oficiais? Os utópicos dos anos 70 adotaram um padrão de sonho: ter uma casa no campo onde pudessem compor muitos rocks rurais e reunir seus amigos, seus discos e livros...e nada mais. Acreditávamos em Carlos Castañeda que ensinava que cada homem precisa encontrar seu lugar de “poder” e só ali ser feliz para sempre. Nunca tive dinheiro suficiente pra comprar uma terrinha e nela praticar a harmonia entre bichos, plantas e homens e, pouco a pouco, caí na roda-viva do capitalismo desvairado que empurra qualquer homem para a periferia de si mesmo – ainda que permaneça fiel às suas idéias.

Reavivei meu sonho quando vim pra Goiás e conheci uma certa fazenda onde não se faz filosofia do sonho, mas onde se pratica a grande utopia através de parcerias e convergência de utópicos em geral.

Ela não queria ser propriedade exclusiva de um homem, seu dono, mas de todos que quisessem ajudar a fazer dela um ponto de poder onde arte, ecologia, produtividade sem ganância, evolução espiritual e harmonia com fauna e flora convivessem sem os grandes conflitos que acabam levando tudo de roldão. Os que acreditavam nisso eram, como de costume, tratados com condescendência como se tratam loucos mansos, inclusive o dono dela, maduro, rijo e forte como só os utópicos sabem ser.

Anos se passaram até que leio no livro do escritor alemão Wulfing Von Rohr, que pesquisa exatamente lugares no mundo onde se concentram esses pontos de poder e espiritualidade que a fazenda Santa Branca, situada no coração do Brasil, em Goiás, foi incluída como um dos 48 lugares onde o homem pode atingir esse grau de harmonia com a natureza e a elevação espiritual.

Estamos em boa companhia como a Ilha de Páscoa, o Monte Sinai, Santiago de Compostela, o Gran Canyon, Éfesos, e outros 48 etcs...

Na Áustria onde a cada ano se promove o prêmio Nobel alternativo para reconhecer homens e idéias inovadoras no mundo o nosso Leonardo Boff foi um dos premiados e a fazenda Sta Branca estará na lista no próximo ano, segundo o próprio Von Rohr. Os que conhecem a fazenda dirão que ela é também um empreendimento comercial situada entre os conhecidos lucros capitalistas.

Não se pode sobreviver de brisa e por isso ela fez parcerias que a sustentasse, mas deixo esse ângulo da história para a publicidade dos empreendedores porque não é a parte comercial que existe o que a fazenda tem de mais importante, mas sua sede freqüentada por gente do mundo inteiro.

O que é preciso dizer é que temos aqui, ao lado de Goiânia, o único ponto da América Latina onde se realizou o sonho de muitas gerações que é recorrente em várias culturas: permitir ao homem viver com dignidade sem que para isso tenha de subjugar a natureza e fazer dela um trampolim para as mais sórdidas ambições que se estabeleceram no pós-guerra.

Se tivermos muito do que nos orgulhar em Goiás, e temos, este é mais um motivo de orgulho: um novo modelo de uso da terra que desestabiliza o velho modelo rural que vem do colonialismo até os coronéis.

Esse parâmetro de uso da terra praticado nesta fazenda chega a ser revolucionário quando propõe parcerias que levam a um mundo mais justo onde a palavra companheirismo se reveste do seu significado real e ancestral.

Ali se realizam espetáculos teatrais, cursos e palestras sobre questões ambientais e psicosociais, sempre disponível para reunir gente aberta a novas idéias e encontros condizentes com pessoas inteligentes e sensíveis, antenadas com o que se faz de melhor no mundo em matéria de ecologia e evolução de valores humanos. Ali se celebra a vida e se cultiva a paz de espírito e a convivência entre os que acreditam que a vida não é só essa faixa estreita entre o consumismo, o poder, a aparência e a ostentação.

Se esse ponto de poder ainda é conhecido por alguns poucos apenas como um lugar onde se pensa, se medita, se discute, se renova, se areja, se harmoniza com a natureza está mais que na hora do leitor acreditar no alemão Von Rohr e mergulhar nesta nova visão de mundo que nos coloca ao lado de outros grandes sonhos realizados como as minorias utópicas sempre preconizaram.

Afinal, concordo com Henrik Ibsen, as minorias têm sempre razão.

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