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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:12 PM

A busca do tempo perdido

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Marcel Proust matou-se, de tanto insistir na busca do tempo perdido; em seu gigantesco esforço para recuperar as emoções, paisagens e sensações de sua infância terna e feliz, enfermo e insone, criou, em duas mil páginas, uma das sagas romanescas mais importantes de toda a história da literatura.

Isolado do mundanismo de que fizera parte, como um cronista de amenidades (ou da sociedade dos ricos e bem nascidos) - como um Robinson Crusoé, em pleno turbilhão urbano de Paris, em seu quarto todo coberto de cortiça, buscou reencontrar, no espaço da memória, as emoções e os afetos que deram sentido à sua existência, mesmo sabendo que o tempo e o espaço não existem - são ilusões criadas pela humanidade, para não sucumbir ao horror e ao absurdo de existir para nada, em meio ao infinito vazio.
 
Pois Marcel Proust fez o gesto camicase, e nem todos os psiquiatras do mundo, reunidos, dariam conta de produzir a magistral poesia em prosa de uma só de suas páginas. Neste sentido, analisa André Maurois: " Um enamorado totalmente normal ama e não disserta sobre o amor. A família magnífica e lamentável dos nervosos é o sal da terra. São eles e não os outros que fundaram as religiões e compuseram as obras primas. O mundo nunca saberá o que lhes deve, nem sobretudo o que sofreram para lhes dar o que lhes deram.

Quase pode dizer que as obras, "como os poços artesianos, sobem mais alto à medida que o sofrimento tenha cavado o coração mais fundo". A doença, forçando Proust a enclausurar-se durante grande parte de sua vida, mais tarde a só estar com os amigos à noite, ou mesmo a não vê-los nunca, não lhe permitindo contemplar as macieiras em flor senão pelas vidraças de um carro, ou de um quarto, libertou-o por um lado das servidões da vida social e tornou-o disponível para a meditação, a leitura, a paciente procura das palavras e, por outro lado, deu para ele mais valor às coisas da natureza, tal como a tinha conhecido em sua infância feliz".

Sabendo existir um geometria do espaço, Marcel Proust tentou entender a psicologia do tempo: " Todos os seres humanos quer o aceitem ou não, estão imersos no tempo e são levados pela corrente dos dias. Toda sua vida é uma luta contra o tempo. Gostariam de se ligar a um amor, a uma amizade, mas estes sentimentos não podem manter-se à tona senão agarrados a pessoas que por sua vez se desagregam e se afundam, seja que morram, que desapareçam de nossa vida ou que nós mesmos mudemos. O olvido das profundezas sobe lentamente ao redor das mais belas e mais caras lembranças.

Chegará a hora em que, encontrando uma senhora gorda, em vão procuraremos em seus traços um nome que não mais encontramos, até que ela própria o diga e só então reconhecemos ali a moça que tanto amáramos". (...) Nosso eu apaixonado não pode sequer imaginar o que seria o nosso eu não apaixonado; nosso eu jovem ri das paixões dos velhos, que serão as nossas, quando entrarmos no foco do projetor da velhice. Já no fim de sua vida Proust ainda podia ouvir "o tilintar saltitante, ferruginoso, interminável, estridente e repetido da pequena sineta" quem, em sua infância, anunciava a partida de Swann. E o tempo que aparentemente se perdera volta a renascer.

Mas a busca do tempo perdido - assinala André Maurois - só pode ser empreendida em nós mesmos. Ir rever lugares de que já gostamos, ir à cata de lembranças pelo mundo real sempre será decepcionante: "Não existe esse mundo real. Nós mesmos é que o fazemos. E ele também passa sob os projetores das paixões que nos tomam.

Um homem que esteja amando achará maravilhosa uma região que a qualquer outro parecerá muito feia. A pessoa que tem vida interior tem visões, percepções, sensações que desconhece o homem bruto da rua, que vive somente para a satisfação de seus instintos primários - o homem sem estética, sem poesia e sem metafísica não sofre senão quando lhe falta água e comida que lhe satisfaçam a sede e a fome, pois reduz-se a ser "besta saciada que procria".

A busca do tempo perdido pode levar o buscador sensível e atento à percepção de que o tempo verdadeiro, aquele que não se reduz à percepção dos sentidos, é o tempo interior. Tempo é memória, a leitura de Proust e de Jidhu Krishnamurt, bem como dos grandes mestres da sabedoria eterna, leva-nos a compreender isto. Onde a memória se exaure, a imaginação insiste em prosseguir. Onde a memória é mãe da imaginação? Em que ponto a imaginação retroalimenta a memória? G. Bachelard nos diz, em sua Poética do Devaneio: "Só quando a alma e a mente estão unidas num devaneio, pelo devaneio mesmo, é que nos beneficiamos da união entre a imaginação e a memória. Não podemos dizer que estamos vivendo o passado. O nosso passado é que imagina-se vivendo de novo".

"Com o tempo, passa". "Como o tempo passa!". "Como custa a passar o tempo, quando estamos em sofrimento. E como passa, veloz, nas horas leves e alegres! O tempo, em si mesmo, não tem existência objetiva. Nós é que o criamos na mente, sendo o que chamamos de tempo apenas uma energia subjetiva, uma convenção a ser seguida para fins práticos de cumprimento de compromissos, ou para não nos perdermos de nossos endereços residenciais.
 
Nas perdas profundas o tempo é mais demoroso. Como custa a passar, tudo aquilo que nos é custoso! "Somos nós, é nosso desejo, nossa cultura que dão sua forma, ou seu valor às coisas". Uma vez perdido o tempo de ser feliz nunca mais o teremos de volta, a não ser em forma de lembrança, em meio a longas e saudosas viagens aos caminhos da memória.  Ao final de sua hercúlea jornada criativa, Marcel Proust viu-se consolado pela certeza de ter criado uma catedral memorialística que ocuparia lugar de destaque no tesouro literário e artístico da humanidade. Seu esforço de Sísifo não foi em vão. Valeu a pena não ter a alma pequena.
 
Sua busca do tempo perdido levou-o da angústia ao êxtase. O tempo reencontrado pelo Ser individuado (ou realizado) leva à percepção de que o tempo que buscamos dentro de nós atualiza a experiência. Torna próximo o distante, une o imanente e o transcendente.

Assim como o oceano, somos feitos de movimento e estabilidade. Há uma ordem implícita, a reger o eterno mistério da vida. Sofrimento e esplendor fizeram foram alimentos essenciais à aventura criativa de Marcel Proust, o gênio literário francês. Resume (ou ilumina) a saga de herói por que passou (e que o imortalizou) uma frase do poeta Wordsworth: "Como é estranho que todos os erros, dores e infelicidades, remorsos, vexações, cansaços misturados em minha mente, tiveram sempre participação necessária, da vida tranqüila, na composição que é minha, quando sou digno de mim".   

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