A briga com a égua negra e esquiva da forma
Não se faz só por fazer, não se monta só por montar, mas para ser o que há de ser e não se sabe o que será, a não ser que não seja, senão que a coisa já feita, a saber-se a coisa certa. O que é, o que é? Que será, que será? Entenda-se. Não se confunda “coisa já feita” com coisa-feita de macumba.
O fruto ao palato do leitor. O caroço e sua jaça ao olho de lince do mestre, o senhor, que o trespasse com a pinça da devassa. O mestre peca por devasso e por conta de seus excessos. A seu próprio talante, o poeta se submeta, como de fato e com efeito se submete, contanto que para tanto se habilite.
Pobres rimas pobres! Poesia tensa, estressada, exacerbada, extravagante, essa que pensa e se extravasa. ”Exageradamente metafórica e lamurienta”, resmunga ali a crítica ressequida e acadêmica, dessas que a tudo dissecam com a lâmina fria do intelecto. Disseca a emoção como quem disseca um inseto. Vade retro!
Por certo que o sentido do poema é o fundo do sentimento, e este se conforma com a forma que vem de dentro. Toda forma é forma própria e se conforma ao seu poeta. Isso precisa ser visto e levado em conta, a saber se a forma assim o confirma. Se a égua rima o verso da água de cima com a água de baixo, vice-versa a mesma coisa e a régua mesma com as asas das coisas em cada casa. Se água que se bebe ou terra que se come e morre à míngua de boa aguada, se a vontade com a fome. Ordinariamente, mas nada ou nem tudo necessariamente nessa ordem.
O que se faz vem de dentro. Cá fora, no entanto, outra forma se impõe a outros contornos, e são outros quinhentos, um outro inferno.
A forma exterior se forja em seus fornos e no malho de sua bigorna. A forma em sua fôrma se enforma, se molda e se afirma. A forma é a têmpera e o suporte, a força do poema em que se bebe poesia.
Siderurgia e suor. Beber dessa água salgada. Domar a égua da forma. Domá-la pela brida, tê-la sob domínio, é o mínimo que se espera. O máximo é o que seria poesia. E o que será da poesia? Vai lamber a ferrugem da metalinguagem? Vai perder-se de si mesma? Sumir-se aos poucos nos vocálicos cubículos do minimalismo? Esfinge que se atira no abismo?
Vontade, força, empenho, diligência. A forma se conforma aos moldes de sua própria norma e ciência.
A égua esquiva escorrega na pedra lisa de sua água. Não se lhe dê trégua às rédeas. O poeta intenta cavalgá-la e subjugá-la daqui até a próxima primavera. Mas isso é uma outra história.





