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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:07 PM

A bolsa ou a vida?

publicado em


Os urbanóides somos uns pobres diabos. Quando inseridos na paisagem silenciosa do campo, apenas duas atitudes nos são factíveis: ou contemplamos a natureza com um ar apalermado (os ribeirinhos, então, riem-se de nós), ou ansiamos voltar correndo para o purgatório das cidades com seus shoppings e lojas de conveniências edificados com os mais caros e frios mármores. A maioria de nós, ainda que escravos do trabalho e do dinheiro, segue a primeira opção e se entrega à calmaria do verde, absolutamente aliviados da correria enlouquecedora do cotidiano.

Brasileiro adora feriado. No último deles, estive em Corumbazul, um pacato lugarejo situado no interior de Goiás, perto da cidade de Buriti Alegre (que sorte ter um nome assim...). Tudo ficará belo para sempre? Enquanto navegava pelas águas sossegadas do Lago das Brisas, fiquei absorto em reflexões que, embora dramáticas, não me tornaram mais amargo do que o habitual. Assim como a minha auto-estima, o nível da água era baixo, resultado da longa estiagem, das mudanças climáticas profundas e irreversíveis que, sim, tudo indica estejam em voga. Quando o lago artificial foi criado, cobriu centenas de hectares de terra, deixando submersa toda a flora e parte da fauna que não conseguiu escapulir das estripulias humanas. Galhos e troncos de árvores mortas esticam-se fora d’água como esqueletos, vestígios da mortandade impingida por uma causa coletiva maior (será?!).

Pássaros de várias espécies faziam vôos rasantes sobre mim. Um pica-pau picotava um tronco seco em busca de larvas e outros insetos. Sorte a minha ele não ter me enxergado, eu, verme servil da cidade grande. No barranco árido, uma seriema, ave símbolo do cerrado, piou com formosura. Leitor, você já teria ouvido, além das buzinas e das sirenes industriais, o canto de uma seriema? Ele se parece com uma gargalhada, pode acreditar. E aquela ave ria de mim, tive a certeza.

Meus amigos me perguntaram se eu não queria saltar ali mesmo, no meio do lago. Companheiros de agonia, ainda não quero me matar, eu lhes disse. Estranhei a proposta, afinal, a profundidade do lago passa de cem metros, em vários pontos. Iam me arrastar por uma corda, como um reboque, um esquiador sem esqui. Não tinha perigo, não senhor. Podia vestir o colete salva-vidas, pular n’água e segurar na ponta da corda que me puxariam com o maior cuidado, devagar, e que o efeito da brincadeira seria semelhante ao de uma hidromassagem. Aceitei a provocação da turma e tibum! Lancei meu corpo magro dentro do lago. Por segundos, eu me recordei daquele menino que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro atado ao cinto de segurança por um bando de facínoras.

Procurei me desvencilhar da inconveniente comparação. Pensei então nos rios e ribeirões que cortam a minha cidade. São cursos de água pútridos e sem peixes. São líquidos aberrantes que, após submetidos às decantações e técnicas de tratamento com produtos químicos potentes, transformam-se na água supostamente potável que escoa pelas torneiras, gargalos e goelas de Goiânia. Esforcei para não me lembrar de outras sandices da cidade. Tarefa fácil quando se é arrastado por uma lancha dentro de um lago azul com água refrescante.   

Gente gosta de por defeito em tudo. Somos assim mesmo. Nem tudo estava nos conformes. O visual era lindo. O clima, agradável. Contudo, por mais que eu tentasse, não consegui fisgar um só peixe.

Enquanto pelejava para esquecer a vida tola que levo, troquei a vara, mudei o molinete, tentei uma carretilha, experimentei uma linha mais fina, uma linha mais grossa e anzóis de todos os modelos e tamanhos. Nada. Nem mesmo uma beliscadinha. O fracasso da pesca esportiva não me diminuiu. Na roça, reconheço, sou quase um alienígena.

Retornei com os amigos para a sede da chácara construída às margens do lago. Já era noite e um gourmet se esmerava no preparo de um arroz-de-carreteiro. Pude sentir o cheiro da carne de sol fritinha que se mesclava aos aromas do cerrado. O teto negro sem lua estava salpicado de estrelas, planetas e, garantem os cientistas, satélites enxeridos que imitam estrelas e bisbilhotam nossas vidas. Quantas delas há no espaço? Milhares? Milhões? Há mais estrelas no céu do que moedas evaporadas nas desventuras das bolsas de valores mundo afora? As constelações possuem mais estrelas que os bilhões derramados pelos vários governos em reações apavoradas? O céu infinito, mesmo sem o adjutório da lua, não condizia com crise alguma, a não ser as existenciais, como a minha. Duas estrelas caíram do teto escuro. Seguindo a tradição, fiz dois pedidos, um para cada estrela.  

Há anos não fazia um passeio tão bucólico. Vi e ouvi tantos passarinhos que quase me perco. Muitos vociferam pela preservação do meio ambiente, dos mananciais de água, da fauna e flora que ainda resistem a tantas matanças e devastações. Trata-se de um tema atualíssimo, principalmente em cenários onde a vida moderna degradou as reservas naturais de forma irreversível, como os países industrializados e as grandes cidades brasileiras. Nosso comportamento é um lixo difícil de ser reciclado.

Felizmente, as novas gerações estão crescendo muito mais conscientes, no que tange à educação ambiental e cidadania. Aprendem estas coisas desde pequeninos nas escolas, através internet e até na TV, quando as emissoras fazem tréguas nas suas programações imbecilizantes. Do ponto de vista pedagógico, nada me parece mais eficaz do que catar fruta no pé, pisar em bosta de vaca, pescar no corregozinho ou tomar banho de rio. Dá até pra se esquecer do dinheiro que os investidores desperdiçam nas bolsas de valores. Pode crer, ele vale bem menos que um por do sol no Lago das Brisas.
 

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