Seria Deus um mercador acomodado?

A vida só não é mais monótona porque vivemos apenas um instante. Não pelo calendário do sol, que a vida pode até se avolumar em alguns dias, meses e anos. Em casos raros pode-se viver até um século. Há relatos bíblicos de que os patriarcas puderam viver vários séculos, como Matusalém que quase chegou a sete. Mas não se tratam de pessoas históricas, de carne e osso, de corpo e alma. São, digamos, exacerbadas licenças teológicas, enchimentos para se compor um período de tempo desconhecido de uma genealogia suposta.
Se nossa vida fosse medida por algum calendário cósmico ou mesmo geológico, perceberíamos quão breve é a vida. Mais breve até do que o piscar do diabo que, pelo que se diz, está sempre alerta e atento. Imagine se o universo fosse uma revoada de bolhas de sabão que seu filho traquina atirasse ao vento numa manhã de domingo, e numa daquelas bolhas, durante sua existência de segundos, algum tipo de vida lograsse êxito e se prolongasse em milhares e milhares de gerações. A vida de um daqueles seres seria de tão breve duração que não poderia ser medida pelos nossos sistemas ordinários de cronometria. Para medi-la teria que se ter um cronômetro científico, de altíssima precisão, atômico talvez, para ser sensibilizado por um espaço de tempo tão apertado.
Mutatis mutandis, nossa vida é tão exígua quanto a daquele ser fictício da bolha de sabão. E as modernas ferramentas de comprimir o espaço, ao invés de nos conceder uma sensação maior de tempo, elas também o comprime. Tudo continua cada vez mais rápido e urgente que não dá tempo nem da gente ensaiar a vida, ver os erros e corrigi-los e aí viver a vida pra valer. É como um filhote de condor no cume nublado dos Andes. O seu primeiro voo tem que funcionar porque, se der errado, a natureza não lhe concederá uma segunda chance. Ou voa, ou esboroa.
Quantas vezes não gostaríamos de retroceder no tempo e no espaço, e retomar a vida em outras bases, em outras vias, de nos comprometermos com outras pessoas, com outros ideais, com outros propósitos. Mas já estaremos condenados pelas escolhas que fomos levados a fazer ontem, no escuro, sem ensaios, quando nem maturidade tínhamos para exercer as benditas escolhas. Tudo transcorrido no breu dos instintos, sem o auxílio da lucidez racional. Há nisso aí mais determinismo fatalista do que livre arbítrio propriamente.
E foi assim com você, com seus pais, com seus avós, com Adão e Eva no Paraíso. E assim será com seu filho, com seu neto e até com aquele ser de um futuro longínquo, que mesmo sendo seu descendente você não logrará espaço na memória afetiva dele. Você estará definitiva e completamente morto para este mundo.
Deus é um mercador acomodado que prefere substituir o cliente a renovar seu portfolio de produtos e serviços. Desde o Gênese, seu menu é o mesmo: É um dia depois do outro com a noite no meio. Às vezes um dia com sol, às vezes um dia com chuva. Às vezes uma noite de lua, às vezes uma noite escura. Às vezes um mix dessas coisas, à moda da casa: noite com escuro e chuva; dia com chuva e sol formando um arco-íris. E o homem no meio, reproduzindo desejos e ansiedades ancestrais. Fazendo serenata para a mesma lua de Caim, se deliciando com as manhãs sanguíneas dos faraós sobre o Nilo, ou se assustando com os pores de sol nefastos que Jó vislumbrava sobre os areais de Uz. Jovens enamorados escrevem poemas com o mesmo fulgor sentimental com que Salomão rabiscava para a irresistível pastora Sulamita.
O canto que o sabiá entoa no entardecer do outono é o mesmo que entoava seu ancestral há milhares de anos. E há milhares de anos que os bem-te-vis têm o hábito belicoso de interceptar as borboletas em evolução pelo céu da primavera. E essas coisas têm o pendor de nos enternecer, se não deixamos encruar os sentidos, nem empedernir a alma.
Mas, insisto, o cardápio da vida é sempre o mesmo: os mesmos dias, as mesmas noites, as mesmas ansiedades nos assediam, desde sempre. Queremos fazer diferente e repetimos tudo igual, como nossos pais, como nossos avós. Hoje talvez somos mais aborrecidos e tediosos do que eram as pessoas no tempo do Império Romano. Porque temos oportunidade de ver as mesmas coisas mais vezes. Eles viviam em média 32 anos. Nós vivemos 72.
Mas antes que estejamos definitivamente entojados de tudo isso, outros serão colocados em nossos lugares dispostos a comprar os mesmos produtos e serviços que Deus colocou em seu portfolio, ainda nos tempos imemoriais. E o segredo desse negócio é a brevidade da vida. É como no dizer lapidar do Shakespeare: A vida é feita das mesmas substâncias de que são feitos os sonhos e, entre um sonho e outro, transcorre nossa breve existência.















