Os perigos desta vida
Viver é um negócio perigoso: esta verdade lapidar é praticamente um bordão ao longo da intrigante travessia narrada pelo jagunço Riobaldo (seria rio baldio? rio sem água? rio desiludido?) de Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas. São demais os perigos desta vida: proclamou o poetinha Vinícius de Moraes, num soneto espertamente musicado por Toquinho, seu parceiro de música e whisky.
Guimarães se referia aos perigos da vida tosca e brutal levada por homens ambiciosos, organizados em bandos que perambulavam pelos sertões e gerais de Minas. (Esses bandos, de certa forma, migraram para as cidades, infiltraram-se principalmente na política e no tráfico e mudaram o nome para quadrilhas e estão mais atuantes do que nunca). Já Vinícius falava do perigo que rondava o universo dos apaixonados, no tempo em que a mulher era “feita de música, luar e sentimento” e nenhum silicone. Mas a vida, esta entidade gaia, misteriosa e mágica e que dá corda aos seres no planeta Terra, é uma chama de fósforo acesa na escuridão universal, rodeada de rajadas de veto por todos os lados.
A geração espontânea, processo pelo qual a vida teria surgido a partir da matéria inanimada, valendo-se da reação de alguns elementos em condições muito especiais, em dado momento no passado da Terra, ou mesmo em outra parte do universo e migrado para cá na cauda de um cometa, é a hipótese mais aventada pela ciência. No entanto, ainda não foi possível constatar quais eram essas condições especiais que ensejaram a reação química na justa medida para que dela surgisse a primeira centelha de vida. De qualquer forma, os pesquisadores são quase unânimes em afirmar que a chance matemática de as moléculas primitivas terem se encontrados de jeito nas condições ideais é uma probabilidade tão escassa que por pouco, mas muito pouco mesmo, nosso planeta não seria completamente desprovido de vida orgânica. Tão desolado quanto o solo lunar.
Que ninguém ouse pedir as prova dos noves deste cálculo, mas o biólogo George Simpson calculou que a vida, uma vez existente, deu oportunidade ao surgimento de 50 bilhões de espécies. E desse número espantoso apenas uma, umazinha só, conduziu à inteligência elevada. Esta probabilidade é o número 1 divido por 50 bilhões, que é igual a 0,00000000002. É uma possibilidade extremamente rarefeita, uma superstição estatística muito próxima de zero. Ou seja, juntando o improvável surgimento da vida e a escassíssima probabilidade da vida gerar inteligência (no sentido de permitir ao indivíduo reconhecer a si mesmo, ao outro, construir ferramentas e acumular e transferir conhecimentos) o Homo sapiens é um milagre descomunal. Sob qualquer aspecto. Seja do ponto de vista da Teologia, seja do ponto de vista da ciência.
Hoje, quando os chefes de estado, com os nervos à flor da pele, discutem em Copenhague o destino da Terra, a partir da constatação (ou seria hipótese?) de que a atividade humana estaria tornando o planeta insalubre e quente demais, a percepção geral é de que realmente são demais os perigos desta vida, como cantou o poeta apaixonado. Sim, a vida corre risco. Mas vida de quem, cara pálida? Perguntariam, por exemplo, as bactérias termófilas, que são capazes de respirar ácido sulfúrico e achar por demais ameno o clima de uma panela de pressão.
Mas não há dúvidas, a vida se diversificou e se estabeleceu em nosso planeta a tal ponto que a vida em si não se acha ameaçada. O urso polar, o homem, a copaíba da Amazônia, a arara azul e uma porção de espécies biologicamente classificadas superiores, estas sim, estão em risco de extinção iminente.
Mas um grupo de espécies monocelulares (quem tem uma célula só e não um só celular) que não precisa de ar puro nem de clima ameno para viver, está se lixando pro aquecimento global. Até mesmo alguns animais complexos, com os escorpiões, baratas, cupins e formigas, que habitam o planeta desde o tempo dos dinossauros, não estão nenhum pouco preocupados (se eles tivessem o dom da preocupação). Não será a elevação da temperatura do planeta em 3 ou 6 graus que haverá de dizimá-los. Nestes últimos 300 milhões de anos o clima passou por diversos picos de temperatura muito elevados ou glaciações extremas e esses bichos tiraram de letra. Diante dessa constatação, depois que lhes aplicamos um século de formicida, as formigas até poderiam mandar fazer adesivos para colar nos vidros dos carros, nos esnobando,: “Só a saúva sauva”.
Desde que surgiu sobre a Terra um bicho com aparência rudimentar do que viria a ser o homem, cerca de um milhão de anos atrás, a espécie passou por muitos riscos de extinção. Enfrentou feras famintas, climas hostis, fomes, epidemias, pragas, desastres ambientais apocalípticos, sem contar que a Terra está na rota dos cometas e meteoros desgovernados e a qualquer momento pode ser destroçada por uma pedrada cósmica.
Neste momento, nossas atenções estão voltadas para o perigo que nos ronda mais acintosamente, que é o aquecimento global. Temos a impressão que é este a nossa única ameaça. Parece, mas não é. Essa impressão de perigo único só nos ocorre, ou nos socorre, porque não temos cabeça para concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo. E para estes tempos de tribulação, de estímulos exacerbados que nos cobram atenção a todo custo, um perigo só já está de bom tamanho.
Mas, na verdade, somos espreitados por outros perigos igualmente ameaçadores. Sem contar o perigo perpétuo de um choque cosmológico, o excesso de gente, esta bomba demográfica que vai explodindo progressivamente, na medida em que nasce gente nova e a velha não morre, pode detonar os recursos do planeta antes mesmo que o aquecimento global nos reduza a churrasquinhos.
Uma outra ameaça, talvez até mais terrível mas de que nem damos conta, está acontecendo debaixo de nosso nariz. Aliás, nós a acolhemos com alegria, entusiasmo e até um certo frisson. Falo aqui da Convergência Tecnológica, coadjuvada pela a Engenharia Genética. O casamento cada vez mais complexo das ferramentas, incluindo aí o ser humano como uma ferramenta do sistema. Esta ameaça poderá nos abolir muito mais cedo do que a gente espera, ou pelo menos nos apartar de toda a percepção que temos de nós próprios, bem como do mundo que nos abriga.





