Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

últimas no twitter

  • O Evangelho Segundo Lennon e McCartney | Revista Bula http://t.co/H7JjAESE
    3 horas atrás
  • @fpulcineli Número cabalístico: 5.000
    3 horas atrás
  • Casos de divã, se resolvem no divã...
    5 horas atrás
  • RT @screamyell Esse twitter novo é genial, mas ao contrario
    5 horas atrás
  • RT @revistaabsurda Para comemorar o #CorruPTosDay, o PT manda prender 150 PMs grevistas.
    6 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 21/12/2009 ÀS 04:09 PM

Os perigos desta vida

publicado em

Revista BulaViver é um negócio perigoso: esta verdade lapidar é praticamente um bordão ao longo da intrigante travessia narrada pelo jagunço Riobaldo (seria rio baldio? rio sem água? rio desiludido?) de Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas. São demais os perigos desta vida: proclamou o poetinha Vinícius de Moraes, num soneto espertamente musicado por Toquinho, seu parceiro de música e whisky.

Guimarães se referia aos perigos da vida tosca e brutal levada por homens ambiciosos, organizados em bandos que perambulavam pelos sertões e gerais de Minas. (Esses bandos, de certa forma, migraram para as cidades, infiltraram-se principalmente na política e no tráfico e mudaram o nome para quadrilhas e estão mais atuantes do que nunca). Já Vinícius falava do perigo que rondava o universo dos apaixonados, no tempo em que a mulher era “feita de música, luar e sentimento” e nenhum silicone. Mas a vida, esta entidade gaia,  misteriosa e mágica e que dá corda aos seres no planeta Terra, é uma chama de fósforo acesa na escuridão universal, rodeada de rajadas de veto por todos os lados.

A geração espontânea, processo pelo qual a vida teria surgido a partir da matéria inanimada, valendo-se da reação de alguns elementos em condições muito especiais, em dado momento no passado da Terra, ou mesmo em outra parte do universo e migrado para cá na cauda de um cometa, é a hipótese mais aventada pela ciência. No entanto, ainda não foi possível constatar quais eram essas condições especiais que ensejaram a reação química na justa medida para que dela surgisse a primeira centelha de vida. De qualquer forma, os pesquisadores são quase unânimes em afirmar que a chance matemática de as moléculas primitivas terem se encontrados de jeito nas condições ideais é uma probabilidade tão escassa que por pouco, mas muito pouco mesmo, nosso planeta não seria completamente desprovido de vida orgânica. Tão desolado quanto o solo lunar.

Que ninguém ouse pedir as prova dos noves deste cálculo, mas o biólogo George Simpson calculou que a vida, uma vez existente, deu oportunidade ao surgimento de 50 bilhões de espécies. E desse número espantoso apenas uma, umazinha só, conduziu à inteligência elevada. Esta probabilidade é o número 1 divido por 50 bilhões, que é igual a 0,00000000002. É uma possibilidade extremamente rarefeita, uma superstição estatística muito próxima de zero. Ou seja, juntando o improvável surgimento da vida e a escassíssima probabilidade da vida gerar inteligência (no sentido de permitir ao indivíduo reconhecer a si mesmo, ao outro, construir ferramentas e acumular e transferir conhecimentos) o Homo sapiens é um milagre descomunal. Sob qualquer aspecto. Seja do ponto de vista da Teologia, seja do ponto de vista da ciência.

Hoje, quando os chefes de estado, com os nervos à flor da pele, discutem  em Copenhague o destino da Terra, a partir da constatação (ou seria hipótese?) de que a atividade humana estaria tornando o planeta insalubre e quente demais, a percepção geral é de que realmente são demais os perigos desta vida, como cantou o poeta apaixonado. Sim, a vida corre risco. Mas vida de quem, cara pálida? Perguntariam, por exemplo, as bactérias termófilas, que são capazes de respirar ácido sulfúrico e achar por demais ameno o clima de uma panela de pressão.

Mas não há dúvidas, a vida se diversificou e se estabeleceu em nosso planeta a tal ponto que a vida em si não se acha ameaçada. O urso polar, o homem, a copaíba da Amazônia, a arara azul e uma porção de espécies biologicamente classificadas superiores, estas sim, estão em risco de extinção iminente.

Mas um grupo de espécies monocelulares (quem tem uma célula só e não um só celular) que não precisa de ar puro nem de clima ameno para viver, está se lixando pro aquecimento global. Até mesmo alguns animais complexos, com os escorpiões, baratas, cupins e formigas, que habitam o planeta desde o tempo dos dinossauros, não estão nenhum pouco preocupados (se eles tivessem o dom da preocupação). Não será a elevação da temperatura do planeta em 3 ou 6 graus que haverá de dizimá-los. Nestes últimos 300 milhões de anos o clima passou por diversos picos de temperatura muito elevados ou glaciações extremas e esses bichos tiraram de letra. Diante dessa constatação, depois que lhes aplicamos um século de formicida, as formigas até poderiam mandar fazer adesivos para colar nos vidros dos carros, nos esnobando,: “Só a saúva sauva”.

Desde que surgiu sobre a Terra um bicho com aparência rudimentar do que viria a ser o homem, cerca de um milhão de anos atrás, a espécie passou por muitos riscos de extinção. Enfrentou feras famintas, climas hostis, fomes, epidemias, pragas, desastres ambientais apocalípticos, sem contar que a Terra está na rota dos cometas e meteoros desgovernados e a qualquer momento pode ser destroçada por uma pedrada cósmica.

Neste momento, nossas atenções estão voltadas para o perigo que nos ronda mais acintosamente, que é o aquecimento global. Temos a impressão que é este a nossa  única ameaça. Parece, mas não é. Essa impressão de perigo único só nos ocorre, ou nos socorre, porque não temos cabeça para concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo. E para estes tempos de tribulação, de estímulos exacerbados que nos cobram atenção a todo custo, um perigo só já está de bom tamanho.

Mas, na verdade, somos espreitados por outros perigos igualmente ameaçadores. Sem contar o perigo perpétuo de um choque cosmológico, o excesso de gente, esta bomba demográfica que vai explodindo progressivamente, na medida em que nasce gente nova e a velha não morre, pode detonar os recursos do planeta antes mesmo que o aquecimento global nos reduza a churrasquinhos.

Uma outra ameaça, talvez até mais terrível mas de que nem damos conta, está acontecendo debaixo de nosso nariz. Aliás, nós a acolhemos com alegria, entusiasmo e até um certo frisson. Falo aqui da Convergência Tecnológica, coadjuvada pela a Engenharia Genética. O casamento cada vez mais complexo das ferramentas, incluindo aí o ser humano como uma ferramenta do sistema. Esta ameaça poderá nos abolir muito mais cedo do que a gente espera, ou pelo menos nos apartar de toda a percepção que temos de nós próprios, bem como do mundo que nos abriga.

Bookmark and Share

Comentários (16)

  • Recentemente, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento publicava a seguinte informação: “O envelhecimento da população é um fenômeno generalizado. Em 2050, o mundo e todos os continentes, à exceção da África, deverão ter mais pessoas idosas do que crianças. Esta é uma consequência natural da diminuição das taxas de mortalidade e do declínio nas taxas de natalidade” (Relatório de desenvolvimento humano - 2009).

    2 anos atrás por Marcelo Tavares
  • Mais uma vez, ótimo te ler, Edival.

    2 anos atrás por Tainá Corrêa
  • Parabéns.

    2 anos atrás por Beth
  • Em uma palavra: maravilhoso.

    2 anos atrás por Edna Mendes
  • Um livro interessante para compreendermos o fenômeno homem é “O Homem na Sociedade” de George Simpson, citado no seu texto, que, aliás, é brilhante. Não conhecia a revista bula foi uma dica do amigo Marcelo Soares.

    2 anos atrás por Vladimir Batista
  • A Constituição Federal da República em seu Artigo 225, trata do meio ambiente e preleciona: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo para as presentes e futuras gerações”.

    2 anos atrás por Thalía Sodi
  • Existe uma inversão no comportamento do homem, ao contrário de praticar o bem, pratica o oposto, às vezes conscientemente, às vezes inconscientemente. Isso ocorre em termos individuais, mas com efeito de dimensões planetárias, com risco de sobrevivência para a própria humanidade. O homem é a pior espécie da terra. Os animais, por exemplo, respeitam suas moradas, os homens não.

    2 anos atrás por Heitor
  • "A vida, esta entidade gaia, misteriosa e mágica e que dá corda aos seres no planeta Terra, é uma chama de fósforo acesa na escuridão universal" Um poema pronto.

    2 anos atrás por Rafael Galvão
  • Assim caminha a humanidade: enquanto uns enriquecem urânio para a morte coletiva, outros enriquecem a poesia, para dar passagem aos trabalhos da vida.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Gosto sempre dos seus textos, parabéns pela forma leve como escreve.

    2 anos atrás por Antonio Carlos
  • Ótimo texto.

    2 anos atrás por Lauro Machado
  • Não há possibilidade de termos um Planeta Terra equilibrado não nos educarmos para o consumo. A cultura do consumo é a grande responsável pelo desequilíbrio ambiental.



    2 anos atrás por Flávia
  • De fato, Edival, viver é perigoso - sendo que o perigo de viver é aumentado pelo Homo Sapiens, a maior ameaça e o mais perigoso inimigo da sua própria espécie. Nenhuma outra espécie animal é perigosa em relação a si mesma.A conferência do Clima levou dois anos em estudos profundos de cientistas de todos os países,e resultou em um documento pífio, de doze parágrafos, duas laudas e meia, pelo qual ninguém se obriga a dar uma pataca para diminuir os impactos do aquecimento global. Pelo Brasil falou a ministra-candidata, não o ministro do Meio Ambiente. E deu rata, dizendo que o meio ambiente é a maior ameaça ao desenvolvimento. Argh! Ato falho de tocador de obras poluidoras, que ganha votos emitindo CO2, além de outras emissões que de vez o Tribunal de Contas flagra. Demagogos populistas falam em combater o aquecimento global, mas não se fala em diminuir o consumismo voraz e compulsivo, motor do capitalismo, e objeto de desejo dos países pobres e em desenvolvimento. Por aí se vê que o planeta Gaia vai sendo esturricado pelo seu filho mais inteligente. Enquanto isso, em um lugar chamado Maldivas, ministros fazem reuniões munidos de equipamentos de mergulho. Imaginemos como estarão, se se cumprir a "meta" do aquecimento global em dois graus...

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Belo texto.

    2 anos atrás por Marcos Vinícius
  • Qual é a espécie que melhor representa o Planeta Terra? Provavelmente a maioria absoluta responderá que é a espécie humana. dificilmente alguém questionaria a pergunta, argumentando que ela foi mal formulada, porque uma só espécie não é suficiente para representar a Terra, ou a Biosfera. Isso chama-se Megalomania, Arrogância, Pretensão, Egocentrismo e Estupidez. A razão disso, Darwin explica muito mais que Freud. Faz parte da natureza humana achar-se superior a tudo. Se fôssemos mais humildes, mais racionais e menos fantasiosos, talvez pudéssemos divisar a verdadeira dimensão de nossa pequenitude, respeitar, de verdade, os ciclos da Natureza, viver melhor e, quem sabe, ser "grandes" de verdade, e até arriscar uma proposta menos sombria em relação ao nosso futuro.

    2 anos atrás por Elton
  • A prepotência do homem é algo rudimentar. O planeta não está em risco. O que está em risco é a raça humana. Parabéns pelo texto.

    2 anos atrás por Paula Carvalho


*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio