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POR EM 12/01/2010 ÀS 09:08 AM

O tempo, o fogo e o mistério da vida

publicado em

Há certos elementos na composição da realidade que são capazes de nos intrigar de modo profundo e permanente. E são tão presentes em nossas vidas que sobre eles parece não repousar nenhuma dúvida, até que levantemos alguma questão. O fogo, por exemplo, é um deles.

Quando era criança, a gente morava na zona rural e o fogo era estocado nas achas de lenha, no interior de um fogão de pedra e barro, com chapa de ferro. Havia um cuidado enorme para não deixar o fogo morrer, porque era relativamente trabalhoso reavê-lo.

Se o pior acontecia, meu pai, com certa parcimônia e tato, num ritual que ele dominava bem, reavia o fogo perdido, atritando uma lasca de ferro numa pedra de fogo (sílex pirômaco), próximo a um pequeno recipiente contendo cinzas de algodão. A fagulha resultante do choque do ferro com a pedra, caindo na cinza, gerava um minúsculo grão de brasa. Esse grão, soprado de jeito, encimado por uma mecha de palhas secas e desfiadas, era capaz de gerar uma débil labareda que meu pai ia adulando em um ninho de gravetos e lenhas mais finas, até recompor um fogo mais bem disposto e encorpado, e reacendia, em nossa cabana de folhas de palmeira, as possibilidades de cozer os alimentos, ou mesmo afugentar do corpo o frio sibilante das manhãs de junho. 

Quando meu pai viajava e acontecia de o fogo morrer, minha mãe não tinha o domínio da geração do fogo. Aí sobrava pra mim. E como eu também não tinha a técnica, saía com um caldeirãozinho esmaltado de tampa com furo, ia até o vizinho mais próximo, que ficava cerca de 3, 4 quilômetros, para pedir uma isca de fogo, um chamariz de chama, que eu trazia em forma de um chumaço de carvão em brasa, no meio de outros carvões inertes, previamente acondicionados no pequeno caldeirão. Daí pra frente minha mãe sabia recompor o fogo no fogareiro.

Por um bom tempo não me ocorria sobre os mistérios que o fogo encerra. Sei que os cientistas dizem que o fogo pode ser entendido como uma entidade gasosa emissora de radiação e decorrente da reação química conhecida como combustão. E para que exista a combustão é necessário que haja três elementos que são: combustível (madeira, gasolina, pólvora etc), comburente (o oxigênio) e ponto de fulgor (temperatura a partir da qual o combustível é capaz de inflamar-se). Para que o fogo continue é necessário ainda um quarto elemento: a reação em cadeia, que é o calor suficiente da chama  para perdurar na queima do combustível.

Até aí parece ser um fenômeno que a ciência explica com razoável traquilidade. Mas há certas explicações que antes de aclarar, jogam mais véus sobre a realidade. Se formos um pouco além, o fogo se converte num mistério, ou pelo menos em algo um tanto mágico. Como pode alguma coisa existir e não existir ao mesmo tempo? Um elemento tão real e assombroso como o fogo, não existe por si mesmo, como ente autônomo. Não tem existência como a água, o ar,  a pedra, a árvore, o pássaro, você e eu. Não há um instante dele no reino das coisas tangíveis. Ele acontece como um fantasma  sobreposto, derivado do encontro de elementos em condições especiais.

Esse mesmo espanto parece derivar do fogo para a vida — esse misterioso ser que anima milhões de espécies em vários reinos sobre a terra — não existe de per si. A vida, como o fogo, por mais espantoso que nos pareça, está mais próxima de uma reação química do que qualquer outra coisa que subsista na natureza. A vida é o fogo que emana dos seres vivos, enquanto vamos sendo consumidos inexoravelmente, como as achas de lenha no fogão da cabana de minha infância.

Essa conclusão, ainda que simplória, nos leva a uma indagação um pouco mais metafísica: Se a vida é resultante da combustão de vários elementos da natureza, o que será consumido na vida eterna, onde afirmam todas as teologias que se trata de um mundo sem matéria?  

Uma outra dimensão da existência que sempre deixou invocado quem se dispôs sobre ele pensar é o tempo. Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho dos Católicos, debruçou sobre a questão e se saiu com esta:  O que é, pois o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei.  Se me perguntam o que é, então não sei.

Na Bíblia, por exemplo, não há uma filosofia abstrata do tempo como dimensão universal, como já existia naquele tempo na filosofia grega. A concepção bíblica do tempo é fundada na ideia de que o tempo é ordenado por uma sucessão de  acontecimentos, de um reino depois do outro, do suceder das gerações, da vinda de Cristo, da revelação do Apocalipse, do juizo final etc.

Para Kant o tempo não é uma coisa que tenha existência real. O tempo seria apenas uma percepção enganosa de nosso sentidos. Ora, se o tempo é apenas uma ilusão  dos sentidos humanos, poderíamos então concluir que se fossem eliminados os humanos da face da terra, o tempo estagnava. Ou seja, sem nossos sentidos, a água que corre numa equação de tempo e velocidade, sem tempo certamente pararia de correr. A raiz de monguba que demanda tempo para rachar a calçada, certamente deixaria a calçada ilesa. A fruta que requer tempo para madurar, permaneceria perpetuamente verde.

A teoria do bigue bangue assegura que o tempo surgiu como contrapartida do espaço, no momento da eclosão do universo. Ou seja, o universo e tudo o que nele existe, se equilibra no cruzamento do tempo com o espaço. É desse cruzamento que surgem todas as leis da mecânica cósmica. Segundo ainda a teoria da relatividade, o universo inteiro pode entrar em colapso, como um buraco negro, e nesse caso o tempo para e o espaço encerra. Mas se o universo re-eclodir, surge novamente o tempo como dimensão de contraparte do novo espaço.

Para nossa comodidade, costumamos dividir o tempo em passado, presente e futuro. Certamente  o tempo tem um fluxo que vem do passado em direção ao futuro. Pelo menos nossos sentidos o percebem assim. Mas me parece, e não estou sozinho nesta percepção, que o presente, este sim, não existe. Veja só. Se eu pronuncio a letra A, o menor grunhido humano na formação da fantástica criatura chamada idioma, ainda no meio do som, a segunda metade dele está no futuro e a  primeira já está no passado. Não restando nenhum resquício dele no presente. Porque o presente não existe. Se existe é volátil ou extremamente exíguo como uma fresta por onde transitam a realidade, o sonho e até o delírio. Mas não um cômodo onde se possa estocar alguma coisa. Não há uma estação no presente a nosso dispor.

Para nós, só existem o futuro como expectativa, e o passado como lembrança. O tempo é uma dimensão da memória. Esta conclusão, de que o tempo é uma percepção ilusória de nossos sentidos, ainda que rudimentar e ingênua, nos remete ao entendimento de Kant, que, aliás, já dissemos não nos parecer adequada.

Nem vou aventar aqui as especulações sob o prisma da  mecânica quântica, que em seus paroxismos mais delirantes, admite retroceder e avançar fisicamente no tempo. Porquanto esse tema seja considerado infértil pelos pesquisadores mais centrados.

O físico Lee Smolin, pergunta: Seria o tempo o maior de todos os mistérios? E ele mesmo responde: Não, o maior mistério é o fato de estarmos aqui, por um curto período de tempo, e podermos levantar questões como estas. 


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Comentários (18)

  • Fonseca, também é profunda a sua observação. Obrigado, amigo!


    2 anos atrás por Edival Lourenço
  • É profundo o raciocínio que se faz em volta do tempo, afinal o tempo é a vida que vem quando não esperamos e a morte que nos consome quando não estamos preparados.

    2 anos atrás por Fonseca
  • Thiago, obrigado pelo seu comentário. Desculpe pela demora.
    Abraço

    2 anos atrás por Edival
  • Prezada Fabiana Alves, obrigado pelo comentário. Desculpe pela demora.

    2 anos atrás por Edival
  • Prezado Edival,

    Toda especulação que se inclina à possibilidade de não estarmos aqui tende a ser vil se, à priori, mantém a nossa concepção espacial e perspectiva para com as coisas. Uma fruta não ficaria verde para sempre. Pelo contrário ela teria um verdejar fluido, pela potencia/duração de seu vir a ser. Parabéns pelo texto. Agrada-me muito a historia de como buscava o fogo. Espero receber uma sua resposta.
    Thiago


    2 anos atrás por Thiago
  • Ótimo texto! Me interesso muito por ciência apesar de me dedicar à arte... então me deliciei com esse texto!
    Parabéns!

    2 anos atrás por Fabiana Alves
  • Prezado João Carlos Arantes, sensibilizado, agradeço pela participação. Abraço

    2 anos atrás por Edival
  • Prezado Brasigois Felício, obrigado pelo simpático comentário e pela ampliação das reflexões. Abraço!

    2 anos atrás por Edival
  • O animau çinixtro é a seção que mais gosto. Seus textos são brilhantes, todos, até aqueles que discordo.

    2 anos atrás por João Carlos Arantes
  • Mais um belo texto do Edival. Alguns reflexões sobre o tema:se o presente não existe, por ser efêmero relâmpago de ligação entre passado e futuro, por mais razões estes também não existem.O passado porque passou, e o futuro porque não chegou. Só há o fluxo de consciência que percebe e cria os movimentos mentais, que chamamos de tempo, no incessante fluxo da vida. De fato, o fogo é insondável mistério.Sendo um dos elementos pelos quais a vida (como a conhecemos) acontece, este poder ígneo está presente em tudo o que existe. Tudo é fogo e vem do fogo, a energia do éter (akasha) penetra, peermeia e habita o espaçço cósmico, Tesla o chamou de energia escalar, Reich o batizou de Orgon, os sábios da China milenar falam em Tchi ou Ki.Para William Blake, como para Einstein, tempo e espaço são um contínuum. A eternidade não é a duração ilimitada do tempo. Ela é a ausência dele.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Prezado Francisco Paulo, obrigado pela participação e pelo comentário tão generoso. Abraço!

    2 anos atrás por Edival
  • Prezada Ana Luiza, agradeço pela generosidade do comentário.
    Abraço!

    2 anos atrás por edival
  • Prezada Clara Dawn, muito agradecido pelo comentário e a sugestão. Abraço!

    2 anos atrás por edival
  • Prezado Saulo Calazans, sensibilizado, agradeço sua participação. Abraço!

    2 anos atrás por edival
  • Fantástico,muito bem imaginado parabéns...!

    2 anos atrás por Francisco Paulo
  • "Não há uma estação no presente a nosso dispor."
    Fantástico!!
    Cada vez que leio Edival Lourenço me surpreendo.

    2 anos atrás por Ana Luiza
  • Magnífico! Que belo romance não poderia sair deste texto, hem? Não me acostumo nunca com o talento de Lourenço. Sempre que o leio, penso: "Nossa, ele se superou." Parabéns!

    2 anos atrás por Clara Dawn
  • Genial.

    2 anos atrás por Saulo Calazans


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