O Bigue-bangue e o mundo provisório
Há pouco tempo narrei em crônica um fato inusitado: Eu estava em minha seção de trabalho e a secretária me avisou que havia alguém que queria falar comigo e não quis adiantar o assunto. A secretária entronizou o moço. À primeira vista, não parecia alguém ligado a livros, como as pessoas que costumam me procurar. Alto e esquelético, pele crespa, cabelos maltratados, com jeito de quem tenha crescido com alto déficit calórico e exercesse alguma atividade ao sol, na poeira. Talvez fosse tratador num confinamento de bois.
Convidei-o a sentar-se. Parecia espantado, olhando ao redor com ansiedade. Mas curiosamente me solicita que fechasse a porta. Queria me dizer algo em segredo. Confesso que fiquei cismado, mas o atendi. Mais à vontade, começou a falar muito rápido, como quem tivesse comido molho de quiabo.
Queria me vender um livro que tinha escrito e segundo ele era muito importante para a humanidade. Mas não queria publicar no próprio nome por lhe faltar temperamento para ser famoso e o livro era garantia de ganhar o Prêmio Nobel. Não de Literatura. Mas de Física. Eu quis saber o que havia de tão importante nesse livro e ele afirmou que revelava a origem do universo. Não só do universo, mas até a origem de Deus. Até hoje a ciência consegue ir só até o Bigue-bangue, ele disse. Mas eu, não. Meu livro vai até milhões de anos antes do Bigue-bangue.
Como eu não quis comprar o livro, que ele na verdade não tinha, o rapaz se foi, com seus passos erráticos. A secretária me preveniu com um comentário insinuante: Toma cuidado, que doido atrai doido!
Loucura à parte, o anúncio do rapaz contém um erro básico, ao dizer que detinha conhecimento de coisas ocorridas milhões de anos antes do Bigue-bangue. Pelo menos até onde cogita atualmente a ciência, antes da grande explosão não havia tempo nem espaço.
Quem intuiu essa ideia foi um certo Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho dos cristãos, nascido no século V de nossa era, anterior à ciência, portanto, numa província romana no norte da África, onde hoje se localiza a Argélia. Filósofo neoplatônico, influenciado por Plotino, após se converter ao cristianismo, desenvolveu suas próprias abordagens filosófica e teológica, em perspectivas originais.
Em seu tempo, os pagãos gostavam de escarnecer os cristãos com o pergunta: “O que Deus estava fazendo antes de criar o universo?” A resposta usual era: “Estava ocupado criando o Inferno para tipo como vocês!” Foi então que Agostinho teve o insight, bem mais sutil: o mundo não fora feito “no tempo”, mas simultaneamente “com o tempo”.
Curiosamente, um milênio e meio depois, em suas pesquisas sobre a gravitação universal, Albert Einstein chegou à mesma conclusão do santo católico: o tempo e o espaço não persistem num período anterior à matéria. Tudo começou com o Bigue-bangue.
Como nosso entendimento, sobretudo o senso comum, só funciona na base da causa e feito, fica a grande pergunta sem resposta: quem teriam reunido os produtos elementais e ligado o Bigue-bangue? Resposta honesta e crível ainda não há, nem podemos afirmar que a teremos um dia, antes que a espécie humana decrete a falência de si mesma, ou que seja decretada por um fenômeno natural, como por exemplo um terremoto gigantesco ou um vulcão soberbo e crônico, estiolando o bioma ameno do planetinha azul.
Mas a resposta para esta pergunta os pesquisadores vêm buscando numa a ciência que mais parece magia ou superstição, chamada Física Quântica, onde os fatos acontecem num nível subatômico e os efeitos aparentemente independem das causas. Pelo menos as causas percebíveis pelo censo comum. Um dia desses, essa ciência excêntrica nos revelará alguma coisa espetacular sobre esses mistérios. Pode até não ser a resposta definitiva, mas pelo menos haverá de empurrar nossas perguntas para um horizonte mais longínquo.
Tomemos então o Bigue-bangue como o instante zero do universo, com sua matéria com seu espaço, com seu tempo. Voltemos ao senso comum, longe dos olhos da Física Quântica. Tudo o que começa acaba. Um outro gênio, que não é da Filosofia, da Teologia, nem da Física, mas da Poesia, intuiu esse princípio.Veja este trecho de Fernando Pessoa em A Tabacaria:
“Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”
Sim, a partir desta percepção, não há como contestar. Tudo no universo é provisório. Ainda que aquela explosão misteriosa e benigna tenha ocorrido há 15 bilhões de anos.
Os estilhaços da explosão estão se distanciando do núcleo, do pulso explosivo, numa velocidade vertiginosa, rumo a horizontes cada vez mais largos, talvez com o espaço e o tempo sendo construídos simultaneamente nas novas paragens, num processo contínuo.
Nós, o Homo sapiens, este galho tardio da árvore da vida, vamos indo aboletados em um dos mínimos estilhaços dessa explosão. Do jeito de uma espécie de bactéria que produz dezenas de gerações no fragmento de uma bombinha de São João, no espaço de tempo entre o pipoco e a degradação.
O processo de expansão do universo gera fenômenos empíricos regulares e previsíveis. Coisas simples como o nascimento, vida e morte, começo, meio e fim, início apogeu e decadência, a água entrando pelos sumidouros, rodando para esquerda no hemisfério sul e para a direita no hemisfério norte. Mas essa expansão há de ter um momento em que as forças centrífugas serão neutralizadas pelas forças centrípetas. Essa condição de estabilidade certamente vai gerar um estado singular, com o tempo estancado e espaço com marcos divisórios estabelecidos.
No prazo de um segundo cósmico dessa estabilidade, que poderá significar milhões de anos no calendário terreno, os fenômenos poderão não mais obedecer aos velhos princípios acima descritos, de começo, meio e fim etc. Tudo poderá permanecer no estado em que se encontra; as águas descerão sem torvelinho nos sumidouros (ou nem descerão), os compromissos adormecerão nas agendas, os frutos permanecerão imaturos cronicamente nos ramos, os orgasmos se prolongarão indefinidamente.
Até que chegará um momento em que os estilhaços começarão a percorrer o caminho de volta, o universo contraindo todo em busca do núcleo primal. Será o início de uma outra singularidade. Todo o mecanismo cósmico funcionará de modo inverso. Os fenômenos empíricos se darão pelo avesso do que se dão hoje. Os seres vivos surgirão velhos no mundo, vão se remoçando, infantilizando e sumirão finalmente nas entranhas que nos dias de hoje lhes dão origem. Até que, bilhões de anos depois, tudo o que existe no espaço sideral, num processo contínuo de contração, será agrupado em um núcleo mínimo, no Bigue-Crunch.
E o brinquedo de Deus estará novamente pronto para uma nova explosão, um novo lance de dados, com possibilidades quase infinitas. Considerando as possibilidades combinatórias de um mundo tão vasto e complexo, o Homo sapiens teria chance outra vez, sobre algum estilhaço na nova explosão?





