Nossa compulsão pela certeza e a loteria secreta
Sem muita certeza eu arriscaria a afirmar que as maiores necessidades humanas são a manutenção de sua integridade biológica, a geração de descendentes e a redução, se possível a zero, das incertezas. Assim nesta ordem. Aliás, o instinto de manutenção parece ser uma pulsão que permeia a toda a natureza.
Spinoza intuiu que uma pedra quer ser uma pedra, um rio quer ser um rio, uma árvore quer ser uma árvore, um vírus quer ser um vírus, uma barata quer ser uma barata, um canário quer ser um canário, um crocodilo quer ser um crocodilo, um jumento quer ser um jumento, um homo sapiens quer ser hum homo sapiens, embora este último, em sua complexidade neural, às vezes vacile: às vezes quer ser um deus, às vezes quer ser um verme. Mas são apenas exceções que confirmam a regra. Cada ser quer ser a si mesmo e ponto final. Isso a todos compraz.
Por falar em regra e que toda regra tem exceção; e tem mesmo, inclusive esta. E a exceção da exceção da regra é que todo ser vivo morrerá um dia, muito antes do que se possa esperar. É uma regra absoluta. Mas esta gostaríamos de relativizar, de estabelecer exceções. E assim a maioria de nós vive numa perspectiva ilusória e ao mesmo tempo iludida de que vamos viver para sempre. Quando não por nós mesmos, mas pelo menos por meio das gerações, dos genes que vamos como uns danados atirando futuro afora.
Esta necessidade está dramaticamente documentada desde os primórdios de nossa civilização. O livro do Gênesis dá conta de que teria Ló sobrevivido juntamente com duas filhas, às explosões de Sodoma. Como não havia nas imediações algum outro homem com quem as filhas pudessem se acasalar e dar seguimento às gerações, elas embebedaram o pai com um vinho artesanal, que perdeu os freios morais que vedavam o incesto. E assim duas estirpes ancestrais dos habitantes de Israel tiveram início, que são os moabitas (saído do pai) e amonitas (filho de parentes).
A necessidade da criação de certezas tem conseguido feitos extraordinários, inclusive o feito de não se estabelecer nunca, mas de ser sempre perseguido, incansavelmente, pelas gerações. Não foi por outra razão senão pela necessidade de reduzir as incertezas que criamos totens, Deuses e toda sorte de seres sagrados, inventamos calendários, criamos a agricultura, estabelecemos religiões e ritos, mergulhamos em superstições e avançamos na ciência. Não esqueçamos nunca que a ciência também tem suas superstições, seus fundamentos estabelecidos sobre princípios, que são por sua vez limitados pela ignorância. A ciência também caminha de pé nas coxas.
A civilização é resultado da luta contra a incerteza natural. No entanto, a par do relativo sucesso civilizatório, o acaso continua dando as cartas. É como se o acaso fosse o continente, a certeza o conteúdo; e a certeza servisse apenas para jogar os dados. Daí pra frente tudo fica por conta do destino aleatório.
Segundo a ciência, foi por acaso que a vida apareceu em nosso planeta. Teria surgido mesmo em nosso planeta? Mas que diferença faz que tenha surgido na Terra, em Marte ou em um planeta remoto de outro sistema solar, ou até mesmo de outra Galáxia. Qualquer que tenha sido o epicentro da eclosão da vida, aquele minúsculo germe, constituído de uma única célula que foi desdobrando aleatoriamente, aperfeiçoando-se pelo processo de tentativas e erros, até chegar no homo sapiens, com seu novelo neural de complexidade extrema. Somos o prêmio de uma loteria secreta, numa combinação especial, de um momento sui generis.
Se assistirmos a uma palestra de um consultor de empresas, de um pregador de qualidade total, ou de um evangelista qualquer, veremos que o consultor fala de ferramentas de administração e planejamento que garantem certezas quase absolutas, o pregador de programa de qualidade total nos fala dos processo de controle e customização, tentando nos convencer de que seus métodos eliminarão as surpresas e o acaso e, por seu turno, o evangelista nos dirá que ele próprio é um instrumento do ser divino e que não restam dúvidas nem titubeios sobre suas mensagens sacrossantas, para esta e a outra vida.
Buscamos o exato, a certeza, mas o acaso é que nos governa. Inclusive o memento geológico atual, o momento climático favorável à civilização humana com que fomos brindados, é com certeza uma janela aberta pelo acaso. O professor de Geologia do Califórnia Insitute of Technology de Pasadena, USA, Peter Ward, afirmou em um artigo de 1997:
“O papel do acaso na história da vida pode ter afetado a evolução da cultura humana. No verão de 1993, uma descoberta surpreendente foi feita na Groenlândia. Análises de massas de gelo mostraram que os últimos 10 mil anos foram uma época de relativamente pouca mudança climática na Terra.
“Antes desse longo período de estabilização climática, a Terra havia sofrido mudanças rápidas e súbitas, levando a glaciações bruscas, seguida por períodos mais mornos.
“Mudanças globais na temperatura de até dez ou quinze graus podem ter ocorrido em intervalo de décadas, e não de milênios, como se acreditava antes. Alguns cientistas (inclusive eu) agora desconfiam que a ascensão da agricultura a da civilização humana é em grande parte o resultado do período de estabilidade climática que estamos experimentando.
“Nossa espécie esteve na Terra por mais de 100 mil anos, mas apenas nos últimos 5 mil anos dominamos a agricultura e construímos cidades. O que estávamos fazendo durante os outros 95 mil anos?
“Éramos iguais aos outros animais (...) escravos das drásticas oscilações climáticas? Mais uma vez o acaso, na forma de um raro período de estabilidade climática, afetou a história da vida neste planeta.
“Nossa espécie, continua Peter Ward, agora tão numerosa e aumentando a cada dia, certamente afetará a biota (biosfera) de nosso planeta tão severamente quanto o grande asteróide (na Pernínsula de Yukatan — México) que eliminou os dinossauros (há 65 milhões de anos). Nós, humanos, somos sem dúvida um resultado do acaso, que certamente trará um fim à era dos mamíferos como a conhecemos.
“A ironia dessa situação toda é que, quando Deus entrou na Era dos mamíferos, deu-se mal.”
Num espaço climático aberto pelo acaso, nosso labor em busca da certeza gerou a civilização como tal a conhecemos. Nesse processo avançamos consideravelmente. Só não sabemos em que direção avançamos. Se em rumo à ascensão ou ao crepúsculo de nossa própria existência.
O fato é que nossa busca por certezas nos trouxe ameaças indubitavelmente certas. Estão aí a superpopulação do planeta, o esgotamento dos recursos naturais, a poluição das águas, o raleamento da camada de ozônio, a degradação dos biomas da Terra, o aquecimento global, a barbarização do comportamento humano, a estagnação da ética, as armas letais de ação planetária e por aí afora.
Aliás, são tantas as ameaças, a ponto de nos parecer que só o acaso poderá nos salvar dessa enrascada que nos metemos. Ou fomos metidos por acaso?





