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POR EM 03/03/2010 ÀS 12:07 PM

Nada de novo debaixo do sol

publicado em

Certas pessoas que ouço dizem que já não aguentam mais as infinitas correntes de mensagens, da mais fina sabedoria de para-choque de caminhão, que circulam pela internet. No entanto, elas não param de circular, cada vez em torrentes mais acachapantes.  São em geral textos adornados por músicas new age ou outro estilo que o autor julga capaz de comover seus destinatários. Tudo muito bem desenhado, animado, colorido, compondo uma obra de mau gosto sem tamanho, mas esteticamente ofuscante para os menos avisados, de tal sorte que não conseguem se desvencilhar dessas armadilhas para alcançarem leituras que realmente importam.

Parece que os autores das benditas mensagens não confiam em si mesmos, como emissores de tais sapiências. São dotados de uma cabotinice às avessas e atribuem suas sabedorias a nomes amplamente consagrados. Os alvos dessas atribuições são em geral escritores do porte de Shakespeare, Jorge Luís Borges, Camões, Vitor Hugo, Carlos Drummond de Andrade e até alguns menos aventados como Luiz Fernando Veríssimo e Mário Quintana. O pior de tudo é que há muita gente boa que nem suspeita dessas bobagens, daí advém o seu sucesso. Vi recentemente até um professor universitário (de presumida distinção) recitar um texto como sendo de Borges. O texto era tão meloso e tão bobinho que eu tenho comigo que Borges não o assinaria nem sob tortura do regime do General Jorge Rafael Videla.

Mas é como disse o maior sábio da antiguidade, o rei Salomão, em seu livro Eclesiastes: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer: de modo que nada novo há debaixo do sol”. E parece que, pelo menos sob os aspectos mais conotativos, não há mesmo nada genuinamente novo debaixo do sol. O próprio texto do Eclesiastes, de onde retiramos esta citação, não passa de uma atribuição sete séculos depois de morto, ao mais afamado rei de Israel, aquele que tinha em seu plantel feminino 300 esposas, 700 concubinas, e ainda teve inspiração para escrever Cantares, um dos mais belos poemas de amor, à pastora Sulamita, com quem se encontrava casualmente nos pastoreios, sobre o feno dos prados.

A mais antiga referência a esse texto data de 250 a.C., escrito num hebraico tardio, não naquele falado e escrito no tempo de Salomão. As pesquisas comprovam ainda que o texto do Eclesiastes, confrontado com ideias tidas como sendo verdadeiramente de Salomão, é discrepante com o caráter do atribuído. Ou seja, a praga das atribuições, que parece ser um fenômeno nascido com o surgimento da internet, vem de milhares de anos atrás. Vem inclusive de muito antes deste fato que estamos narrando. Os livros sagrados do Pentateuco, por exemplo, em que um suposto Moisés escreveu compilando lendas, aedos, epopeias, e casos orais de vários povos antigos são atribuídos a ninguém menos do que a Deus, ou a Iahweh, como verdade fatal, absoluta e irrefutável.

Peguemos um outro fato, que nada tem a ver com as mensagens, que em nossos dias é propalado e vendido como a grande novidade da arquitetura de residências, que são os bairros murados, chamados de Jardins. Em matéria de residências, não há no mundo coisa mais antiga do que isso, a não ser morar em cavernas. Desde quando nossos ancestrais se reuniram em aglomerações e como tais se tornaram alvos fáceis para as bestas, os piratas, ladrões e malfeitores de toda ordem, surgiram as primeiras cidades muradas, com guaritas de olheiros e serviços de guardas ambulantes, fortemente armados. A primeira cidade murada que a arqueologia identificou foi Jericó, que remonta a 11.000 anos, na Palestina, no vale do Rio Jordão. Rio Jordão: aquele mesmo que se tornou sagrado com o batismo de Jesus e sangrado pelas irrigações sem controle do Israel pós-Segunda Guerra Mundial, que produz frutas e cereais na areia sobre mantas de plástico, em pleno Deserto de Negev. o que se tornou rio sagrado com o batismo de Jesus e sangrado pelas irrigaçardas ambulantes, fortemente armados.

Na idade média, não havia cidade com a dignidade mínima que não fosse murada. Na verdade poderíamos dizer que a civilização avançaria de fato se derrubasse as fortalezas, os fossos e barbacãs, os muros, tanto das cidades, quanto dos bairros. Evoluísse assim para um modelo urbano onde houvesse um grau de civilidade tal que as pessoas pudessem confiar uma nas outras, abolindo também, guardas, ofendículos, cercas elétricas, câmeras de vigilância, testemunhas até para casamento e toda sorte de desconfiança, que nos torna tão apequenados e mesquinhos.

Mas há um artefato humano que nos parece incontestavelmente novo, que é o chip. Pelo menos o que convencionamos chamar de modernidade ou até de pós- modernidade está tudo lastreado pelos chips. Mas será que essa coisa é realmente nova?  Poderíamos simploriamente dizer que um chip é uma cunha de argila com propriedades especiais para armazenar informações. Pois bem, o que eram os legendários escritos cuneiformes dos sumérios, antigos povos que habitaram a Mesopotâmia há mais ou menos 6.000 anos, senão cunhas de argila em que eram armazenadas as informações de que dispunham? 

Não dá para afirmar com segurança, mas podemos aventar que o surgimento da escrita cuneiforme, que basicamente coincide com o surgimento da escrita, foi uma revolução mais representativa para aquela sociedade primitiva do que está sendo o chip para a sociedade de hoje em dia. Só o fato de liberar o cérebro das pessoas, ainda que restritamente, para pensar mais sobre as coisas, ao invés de ficar guardando informações de séculos e séculos, representou um ganho extraordinário. As pessoas ganharam confiança de que poderiam pensar e aprender novas coisas sem o risco de perder o que aprendera antes. Se esquecessem era só voltar aos textos guardados nas pilhas de tijolos (os backups de então) e retomar as informações.

Mas alguém poderia alegar que o esgotamento das potencialidades do planeta, colocando a existência da espécie humana e outras espécies mais em risco sobre a terra, é realmente um fato novo. Pensando bem o fato novo é só a dimensão do dano que podemos causar, que agora é de ordem planetária. Numa outra escala, em proporções infinitamente menores, desde as comunidades ancestrais, temos causado desequilíbrio no ambiente em que vivemos, colocando a nós mesmos em risco. Epidemias e fomes devastadoras assolaram povos em diversas partes do mundo em diferentes épocas, muitas vezes provocadas pela intervenção humana.

A grande diferença, o fato que pode ser novo de verdade é que, com o grau de eficácia que nossas ferramentas alcançaram, podemos estiolar todos os biomas ao mesmo tempo e diferentemente das comunidades ancestrais que se mudavam para locais menos insalubres, nós já ocupamos todos os rincões possíveis e não construímos um novo lugar para viver.    

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Comentários (11)

  • Em essência, parece que já esgotamos as ideias e agora estamos numa árduo trabalho de reformulação, de transformação, de transmutação das ideias antigas através de mecanismos tecnológicos "novos". Mas tudo, essencialmente, continua a mesma coisa.

    7 meses atrás por Ricardo Silva
  • Fernanda Rodrigues, obrigado pela citação.

    2 anos atrás por Edival
  • Alexandre Franco, obrigado pelo recado.

    2 anos atrás por Edival
  • Hugo, obrigado pela observação.

    2 anos atrás por Edival
  • "Não há nada que nos possa impedir de acreditar que algumas raças hoje desaparecidas tenham atingido não só os nossos conhecimentos atuais, mas também conquistado poderes que ainda não possuímos. As tradições científicas da Antigüidade poderiam ser o eco de épocas pré-históricas, de uma idade em que os homens já palmilhavam a nossa mesma estrada" (Sir Frederic Soddy - Prêmio Nobel 1921)


    2 anos atrás por Fernanda Rodrigues
  • O mais inequívoco sinal do progresso consiste na redução do complexo ao simples. A simples reflexão sobre a história do progresso técnico serve para confirmar a clareza meridional desta verdade. O começo está sempre cheio de modelos complexos, de experiências abandonadas, de mecanismos difíceis, de equilíbrios arriscados: numa palavra, de aparelhos estranhos, dificilmente reprodutíveis, cujos protótipos são frequentemente exemplares únicos de museu.

    2 anos atrás por Alexandre Franco
  • Não há nada novo sob o sol, mas há muitas coisas velhas que não conhecemos. (Ambrose Bierce)


    2 anos atrás por Hugo
  • Obrigado, Carol, pela manifestação.

    2 anos atrás por Edival
  • Fabio Navarro, obrigado pelo comentário.

    2 anos atrás por Edival
  • Bom texto. Parabéns.

    2 anos atrás por Carol
  • Texto para tirar a leishimaniose cerebral.

    2 anos atrás por Fabio Navarro


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