Especulações sibilinas
Partamos então de um princípio que é caro a quase todas as teologias e até mesmo para os exoterismos laicos: A alma é uma entidade autônoma, invisível, eterna e subsistente. O Judaísmo e o Cristianismo beberam essa ideia em Platão, para quem a alma seria um princípio distinto do corpo e imortal.
Muito antes do judaísmo e de Platão, o Orfismo grego acreditava numa alma perene que passaria por várias encarnações, em processos sucessivos de decantação, com retorno futuro em condições assépticas para o reino eterno. A vida terrena seria assim apenas uma espécie de curtume. Um curtume não de couros, mas da almas. Essa ideia com certeza tenha influenciou Platão, que por sua vez influenciou o Cristianismo, com alguns reparos, como a descrença na reencarnação. No entanto, não há dúvidas de que o Orfismo influenciou as religiões modernas de convicção reencarnacionista, como o Kardecismo, bastante difundido no Brasil.
Mas antes mesmo de Platão e do Orfismo, uma noção rudimentar de alma existia entre aborígines, nas sociedades primitivas, inclusive entre os ameríndios.
Pois então fiquemos com esse princípio de que a alma é eterna e autônoma, sem adentrar nos paradoxos dessa ideia, nem em suas contradições em termos. Como toda ciência esbarra numa superstição, para nós que nem ciência fazemos, não cometemos nenhum pecado mortal. Quer um exemplo de superstição científica? O mundo material, bem como o tempo e o espaço, teria surgido no bigue-bangue. Mas para que essa grande explosão pudesse acontecer, a ciência admite que existia uma espoleta, um tento de matéria ancestral altisssimamente adensado. Esse grão de matéria primitiva cheira a milagre de Deus para os deístas e superstição para a ciência.
Pois bem, se dentro de você, dentro de mim, além de bilhões de vírus e bactérias, existe também uma alma, que existia antes de nós e que vai subsistir à nossa morte, quem é você, quem sou eu? Se essa alma é o sopro divino, portanto puro, como quer o Gênesis, por que ela veio chafurdar em nossos corpos, que são um lamaçal de ânsias, necessidades, desejos, memória, esquecimento, humores, lombrigas, barro, micróbios, fezes, carne, osso e, modernamente, até silicone?
Esse camarada que tem uma certidão de nascimento, um endereço, CPF e RG, carteira de reservista, que compra fiado na praça, que paga suas contas em dia, que a mãe reconhece como filho, o filho reconhece o como pai e que para o vizinho é uma ameaça, por isso mesmo um semelhante, quem é?
Talvez a gente seja apenas uma flutuação das correntes vitais, uma combinação de moléculas nos acasos combinatórios de partículas efervescentes. Ainda assim, somos o hospedeiro de uma alma? Como a alma existe desde sempre, e é invisível, nós somos uma aparência, feitos especialmente para que a alma, que pega carona em nossos corpos, possa se olhar no espelho.
Sim. Uma aparência é que somos. Uma aparência transitória em constante mutação, mas ainda assim uma aparência. Nosso corpo está em constante comércio com todos os elementos da natureza. Para o gestor de todo esse latifúndio não seria mais prático e até mais cômodo guardar eternamente o seu tento de matéria ancestral e sua bela coleção de almas imateriais? Teria esse gestor sentido alguma carência de realidade e daí ter detonado seu processo de materialização de tudo que estava bem acondicionado em seu grão de mistério?
E quando a alma abandonar o hospedeiro e nossos corpos se diluir na natureza como um cadinho de cinzas lançado ao vento, de um helicóptero, o que seremos nós, se antes de nós a alma já existia e também subsistirá a nós?
Nossa existência é feita de percepções, de matéria, de memórias e projeções. Tudo isso são reflexos dos sentidos e os sentidos são meramente materiais. A memória é uma combinação de neurônios advinda de uma reação química, como a labareda é resultante da combustão.
Com a nossa morte a alma se vai e de nós não leva lembrança; nem boa, nem má. Ela é imaterial e a memória é feita de matéria. Ainda assim, talvez a gente subsista por uns tempos na memória de outras pessoas. Portanto a gente vive depois de morto enquanto houver um sobrevivo que guarde nossa lembrança. Quando esse último morrer, ou mesmo esquecer de nós, estaremos irremediavelmente mortos. Quanta responsabilidade! Esquecer alguém que já morreu é o mesmo que matá-lo de novo e definitivamente.
Mas isto não me desespera nem me desanima. Pelo contrário, me dá uma vontade danada de viver bem o dia de hoje, convivendo bem com todo mundo, respeitando as outras pessoas e o planeta que nos abriga. Isto me faz amar o mundo em toda a sua extensão e aparência, sem querer me apropriar de seus recursos, num processo estúpido de acumulação. Posso olhar com estranhamento poético os bichos da terra, as aves do céu, os peixes do mar, sem a obsessão querer dominá-los.
Isso me lembra ainda que chegará um dia que não será mais preciso ir ao odontólogo nem ao proctologista. Ufa!





