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POR EM 07/12/2009 ÀS 04:45 PM

Especulações sibilinas

publicado em

Partamos então de um princípio que é caro a quase todas as teologias e até mesmo para os exoterismos laicos: A alma é uma entidade autônoma, invisível, eterna e subsistente. O Judaísmo e o Cristianismo beberam essa ideia em Platão, para quem a alma seria um princípio distinto do corpo e imortal.

Muito antes do judaísmo e de Platão, o Orfismo grego acreditava numa alma perene que passaria por várias encarnações, em processos sucessivos de decantação, com retorno futuro em condições assépticas para o reino eterno. A vida terrena seria assim apenas uma espécie de curtume. Um curtume não de couros, mas da almas.  Essa ideia com certeza tenha influenciou Platão, que por sua vez influenciou o Cristianismo, com alguns reparos, como a descrença na reencarnação. No entanto, não há dúvidas de que o Orfismo influenciou as religiões modernas de convicção reencarnacionista, como o Kardecismo, bastante difundido no Brasil.

Mas antes mesmo de Platão e do Orfismo, uma noção rudimentar de alma existia entre aborígines, nas sociedades primitivas, inclusive entre os ameríndios.

Pois então fiquemos com esse princípio de que a alma é eterna e autônoma, sem adentrar nos paradoxos dessa ideia, nem em suas contradições em termos. Como toda ciência esbarra numa superstição, para nós que nem ciência fazemos, não cometemos nenhum pecado mortal. Quer um exemplo de superstição científica? O mundo material, bem como o tempo e o espaço, teria surgido no bigue-bangue. Mas para que essa grande explosão pudesse acontecer, a ciência admite que existia uma espoleta, um tento de matéria ancestral altisssimamente adensado. Esse grão de matéria primitiva cheira a milagre de Deus para os deístas e superstição para a ciência.

Pois bem, se dentro de você, dentro de mim, além de bilhões de vírus e bactérias, existe também uma alma, que existia antes de nós e que vai subsistir à nossa morte, quem é você, quem sou eu? Se essa alma é o sopro divino, portanto puro, como quer o Gênesis, por que ela veio chafurdar em nossos corpos, que são um lamaçal de ânsias, necessidades, desejos, memória, esquecimento, humores, lombrigas, barro, micróbios, fezes, carne, osso e, modernamente, até silicone?

Esse camarada que tem uma certidão de nascimento, um endereço, CPF e RG, carteira de reservista, que compra fiado na praça, que paga suas contas em dia, que a mãe reconhece como filho, o filho reconhece o como pai e que para o vizinho é uma ameaça, por isso mesmo um semelhante, quem é?

Talvez a gente seja apenas uma flutuação das correntes vitais, uma combinação de moléculas nos acasos combinatórios de partículas efervescentes. Ainda assim, somos o hospedeiro de uma alma? Como a alma existe desde sempre, e é invisível, nós somos uma aparência, feitos especialmente para que a alma, que pega carona em nossos corpos, possa se olhar no espelho.

Sim. Uma aparência é que somos. Uma aparência transitória em constante mutação, mas ainda assim uma aparência. Nosso corpo está em constante comércio com todos os elementos da natureza.  Para o gestor de todo esse latifúndio não seria mais prático e até mais cômodo guardar eternamente o seu tento de matéria ancestral e sua bela coleção de almas imateriais? Teria esse gestor sentido alguma carência de realidade e daí ter detonado seu processo de materialização de tudo que estava bem acondicionado em seu grão de mistério?

E quando a alma abandonar o hospedeiro e nossos corpos se diluir na natureza como um cadinho de cinzas lançado ao vento, de um helicóptero, o que seremos nós, se antes de nós a alma já existia e também subsistirá a nós?

Nossa existência é feita de percepções, de matéria, de memórias e projeções. Tudo isso são reflexos dos sentidos e os sentidos são meramente materiais. A memória é uma combinação de neurônios advinda de uma reação química, como a labareda é resultante da combustão.

Com a nossa morte a alma se vai e de nós não leva lembrança; nem boa, nem má. Ela é imaterial e a memória é feita de matéria. Ainda assim, talvez a gente subsista por uns tempos na memória de outras pessoas. Portanto a gente vive depois de morto enquanto houver um sobrevivo que guarde nossa lembrança. Quando esse último morrer, ou mesmo esquecer de nós, estaremos irremediavelmente mortos. Quanta responsabilidade! Esquecer alguém que já morreu é o mesmo que matá-lo de novo e definitivamente.

Mas isto não me desespera nem me desanima. Pelo contrário, me dá uma vontade danada de viver bem o dia de hoje, convivendo bem com todo mundo, respeitando as outras pessoas e o planeta que nos abriga. Isto me faz amar o mundo em toda a sua extensão e aparência, sem querer me apropriar de seus recursos, num processo estúpido de acumulação. Posso olhar com estranhamento poético os bichos da terra, as aves do céu, os peixes do mar, sem a obsessão querer dominá-los.

Isso me lembra ainda que chegará um dia que não será mais preciso ir ao odontólogo nem ao proctologista. Ufa!  

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Comentários (13)

  • Oi sou sua fã numero um.

    2 anos atrás por jessica taline miranda
  • Prezado M.V., obrigado pelos comentários. Sobre a questão se já vi um átomo; nunca vi. Como nunca vi a corrente elétrica, as ondas do rádio, ou o espirotrichominfa do estômagodo do cumpim que lhe permite digerir celulose. Sobre o todo se seu comentário, eu tentei, mas sinceramente, não consegui alcançar. Mas acredito que a deficiência seja minha. Uma hora a gente roda na mesma frequência.
    Abração

    2 anos atrás por Edival
  • Prezado João Aquino, obrigado pelo comentário.
    Abraço

    2 anos atrás por Edival
  • Você já viu um átomo?
    "Nossa existência é feita de percepções, de matéria, de memórias e projeções. Tudo isso são reflexos dos sentidos e os sentidos são meramente materiais. A memória é uma combinação de neurônios advinda de uma reação química, como a labareda é resultante da combustão."

    Troca-se seis por meia dúzia: um Deus divino por uma matéria feiticeira e divinizada; reduz a "existência", seja lá com que sentido tenha usado esse termo, a um conjunto de "percepções"(outro termo controverso).

    Se tudo se reduz ao empírico, não há ciência - e quando a isso voltamos ao Ensaio de Hume, referente à indução - e teminamos por ser degolados no dia de ação de graças.

    Endeusar o limite, foi um erro cometido tantas vezes na história conhecimento... "Um bom bezerro de ouro."

    Não é questão de ver um antes metafísico - não há nada por trás disso;

    O tempo não existe enquanto elemento concreto: só exite como representação - dirá Kant; como construção, acrescentará Piget, como relação de linguagem Vygotsky. Não há nada fora da linguagem intelígivel - aquilo que a ultrapassa assume essas barbaridades, antinomias, paradoxos - "Os grandes problemas são problemas de linguagem" - Wittgenstein.

    Reduzir o sujeito ao conjunto de suas percepões (seja lá com que sentindo esteja empregando esse termo) é retroceder a um materialismo manco que bate cabeça, fala sem dizer e anda em círculos.


    2 anos atrás por M.V.
  • Só os simplórios não questionam. Eles se conformam com qualquer explicação da existência e fincam pé ali como se vislumbrar outras possibilidades fosse aproximar-se do desespero.
    O seu texto, Edival, é para ser lido, mas, sobretudo, pensando.

    2 anos atrás por João Aquino Batista
  • Prezados Luiz Carlos, Anna, Brasigóis, Liziane, Flávio, Eberth, Braz, sensibilizado agradeço pelos comentários.

    2 anos atrás por Edival
  • Cansados de não saber de onde viemos nem para onde vamos, resta, como esperança possível, indagar: quem somos? A indagação pressupõe a capacidade de espanto, a perplexidade ante os mistérios da Vida e dos mundos, que é a base de toda a filosofia, tanto no Ocidente quanto no Oriente.O mais são platitudes metafísias. Vislumbres da outra margem foram colocados pela Doutrina Secreta, obra monumental de H.P. Blavastky que, já no prefácio de seu livro de cabeceira de Albert Einstein, de poetas, cientistas, numerosas mentes brilhantes de seu tempo:"A natureza não é uma ocorrência fortuita de átomos". A obra propõe "conferir ao Homem seu verdadeiro lugar no esquema do Universo; resgatar da degradação as verdades arcaicas que são a base de todas as religiões;revelar,até certo ponto, a unidade fundamental da qual todas surgiram; e finalmente mostrar que a ciência da civilização moderna nunca se aproximou do lado oculto da natureza".

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Li, reli, tresli com vagar. Texto interessante, sim. Mas a alma humana... Sublinho a parte do espelho em que a alma se mira, e a parte em que somos transitória aparência, em constante mutação. Lenta, muuuito lenta mutação. A mísera alma que nos habita. Ainda não dá para transubstanciar, ou maquiar. Tenho dito que somos qualquer coisa próxima do que seria o ser humano, mas ainda não estamos prontos, até porque somos a obra inacabada de Deus, que, diz a Bíblia, se arrependeu de haver-nos criado, e nos deixou (por quê?)tal como somos. Esse "haver-nos" aí lembra "avernus", o mesmo que inferno, em latim. Pois é, amigo Edival: o que somos?

    2 anos atrás por braz
  • Show...

    2 anos atrás por eberth vencio
  • Recomendo.

    2 anos atrás por Flávio
  • Um texto que realmente valeu a pena ler. A internet é um grande lixão a céu aberto, é muito difícil encontrar pérolas como essa. Não conhecia o site. Adorei.

    2 anos atrás por Liziane Marçal
  • Nesta aldeia global da comunicação virtual somos seres midiáticos, cujas almas foram consumidas pelos megabytes de suas máquinas de incomunicação instantãnea. Criaturas mecanizadas que falam com máquinas, não se comunicam com pessoas. É um aspecto trágico da modernidade cibernética. Temos temos para tudo, menos para o encontro humano. Estamos ausentes uns dos outros, e de nós mesmos. Tônia Carrero escreveu: "Não tenho saudades do meu último amor. Tenho saudades de mim mesma, enquanto amava". Dar e receber amor, seja de que modo for, é a única forma de poder vir para construir para nós uma alma. É tudo de que precisamos, e o que nos falta, neste mundo da pressa, da incompletude e da falta.

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Muito, muito bom.
    Parabéns pelo texto.

    2 anos atrás por Anna (Anny)@Annyllinha


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